J.Carlos
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Como o a intelectualidade viu o carnaval brasileiro nos últimos 100 anos

Desde o livro de poemas 'Carnaval', de Manuel Bandeira, grandes pensadores se debruçaram sobre os festejos populares

Rodolfo Witzig Guttilla*, Especial para o Estado

11 de janeiro de 2020 | 16h00

Em 1919, Manuel Bandeira lançou Carnaval, livro de poesia. Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, “já no tom em que (Bandeira) poetaria a vida inteira”. Naquele ano, o presidente Rodrigues Alves morreu vitimado pela gripe espanhola, sem tomar posse. Um ano antes, essa pandemia de proporções avassaladoras vitimou 5% da população mundial e 35 mil brasileiros (à época, o país tinha 30 milhões de habitantes; em quatro dias, morreram mais de 8 mil paulistas). 

Sobrevivente de grave doença pulmonar e da gripe monstruosa, o tísico Bandeira celebrou, em versos, o carnaval e sua dimensão festiva e simbólica, em uma toada de timbre protomodernista. Obra de transição, Carnaval apresenta temas e motivos que viriam a ser melhor explorados em Libertinagem, publicado em 1930 (outro ano conturbado de nossa vida social, em meio à revolução do caudilho Getúlio Vargas). O poema Não Sei Dançar chacoalhou o ambiente literário de sua época, ao festejar, desbragadamente, a folia popular: “Uns tomam éter, outros cocaína./Eu tomo alegria!/Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.(...)/De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...”.

De pequena tiragem e celebrando cem anos, Carnaval contou com o apoio financeiro do pai do poeta e ainda causa certo espanto, tendo em vista a atualidade de alguns de seus 32 poemas: se musicados, versos como “Quero beber! cantar asneiras/no esto brutal das bebedeiras/Que tudo emborca e faz em caco.../Evoé Baco!” certamente embalariam a folia de blocos que, em anos recentes, tomaram de assalto as ruas do país durante o “tríduo momesco” – como diriam os foliões de outrora.

Passados 60 anos do Carnaval de Bandeira, o antropólogo Roberto DaMatta dissecou, em 1979, nossa festa mais popular em Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma Sociologia do Dilema Brasileiro. A obra completou 40 anos e segue atualíssima em sua análise sobre as disfunções de uma sociedade desigual, marcada pela hierarquia e pelo patrimonialismo – tema que o antropólogo vem renovando em sua coluna semanal no Caderno 2

Em 15 de março do mesmo ano, ao receber o comando da nação, o general João Batista Figueiredo, o “João Valentão”, assumiria o compromisso de restaurar a democracia. Ainda no início de seu mandato, mais de 200 mil operários das indústrias automotivas do ABC entraram em greve. O governo interveio no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e afastou seus dirigentes. Pressionado pela opinião pública, pela sociedade civil e por setores progressistas das Forças Armadas, Figueiredo sancionou a Lei de Anistia, em 28 de agosto de 1979, cumprindo – segundo alguns, meio a contragosto – o acordo político com o restabelecimento das liberdades civis e com os princípios da democracia representativa. 

Reinterpretando temas como a malandragem e o “jeitinho” à moda da casa, DaMatta descortina o horror de nossa elite para com o princípio da igualdade (tema presente em Os Donos do Poder, Formação do Patronato Político Brasileiro, de Raymundo Faoro, de 1958). Conectado com o espírito da época, DaMatta despacha para as calendas gregas o Brasil da “flor amorosa de três raças tristes” (em conhecido verso de Olavo Bilac). A tese da comunhão pacífica das três raças na constituição do povo e da cultura brazuca, irá marcar, como sabemos, interpretações consagradas, como as de Paulo Prado, em Retrato do Brasil: Ensaio sobre a Tristeza Brasileira e, em certa medida, do Gilberto Freyre de Casa Grande & Senzala. À época, o conceito gozava ainda de prestígio entre intelectuais conservadores. 

A grande sacada de Carnavais, Malandros e Heróis é interpretar a festa carnavalesca em sua dimensão ritual – dialogando e atualizando, para uma geração de estudantes e intelectuais, as obras Os Ritos de Passagem, de Arnold Van Gennep, Ensaio sobre a Dádiva: Forma e Razão das Trocas nas Sociedades Arcaicas, de Marcel Mauss e O Individualismo: uma Perspectiva Antropológica da Ideologia Moderna, de Louis Dumont. Contrapondo as “festas da ordem” (como a celebração da Independência do país) com as “festas da desordem” (o carnaval), o autor conduz o leitor a refletir sobre as diferentes dimensões do tempo em nossas vidas: o tempo das coisas ordinárias (o trabalho, a casa, as festas cívicas e as festas dos cultos religiosos consagrados pela tradição de fé) e, em oposição, o tempo dos fatos extraordinários (a rua, os cultos religiosos populares e o carnaval, dionisíaco teatro do prazer). Ordem e desordem, em oposição complementar.

Em 1979, o carnavalesco João Clemente Jorge Trinta, mais conhecido como Joãosinho Trinta, assombrou a elite pensante do país ao afirmar que o povo “gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual”. Ecoando DaMatta em Carnavais, Malandros e Heróis e em suas crônicas recentes, constatamos que os malandros tomaram o país de assalto. E o povo, segue na miséria. 

*RODOLFO WITZIG GUTILLA É ANTROPÓLOGO E POETA. AUTOR DE 'A CASA DO SANTO & O SANTO DE CASA' E 'HAICAIS TROPICAIS'

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