Carlo Allegri/Reuters
Carlo Allegri/Reuters

Como o escultor suíço Alberto Giacometti se tornou uma lenda

Artista ganha uma exposição em Nova York e um instituto em Paris no mês de junho

The Economist

23 Junho 2018 | 16h00

O homem se inclina para a frente, ligeiramente inclinado pela cintura, como se resistisse a uma brisa forte. Ele não é tão magro quanto espectral, esticado como goma de mascar, tão irreal quanto a fumaça. E, no entanto, apesar de sua fragilidade, ele é determinado, até mesmo heroico. Homem Caminhando I, um bronze produzido por Alberto Giacometti em 1960, é um cáustico monumento de uma era de ansiedade e um símbolo de resistência face às esmagadoras possibilidades.

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Durante sua vida, Giacometti, que nasceu na Suíça em 1901, às vezes parecia muito antiquado e idiossincrático para conquistar a aclamação. Mas sua reputação continuou a crescer enquanto seus contemporâneos, que se apegavam à ortodoxia modernista, desvaneceram. Hoje, sua humanidade e seu pathos atraem audiências de uma forma que escultores mais formais não conseguem. Uma onda recente de atividade consolidou seu lugar entre um pequeno grupo de artistas, incluindo Pablo Picasso e Frida Kahlo, cujo trabalho e personalidade se infiltraram na consciência pública.

Uma retrospectiva em larga escala de seu trabalho foi aberta no Museu Guggenheim de Nova York em 8 de junho (a Tate Modern em Londres realizou uma exposição semelhante no ano passado). Enquanto isso, o Instituto Giacometti será inaugurado em Paris no dia 21 de junho. Ambos são projetos da Fundação Giacometti, criada em 2003 para promover o estudo e o apreço pelo artista, e para gerenciar a maior coleção mundial de suas pinturas, esculturas e desenhos (legada por sua viúva, Annette). O instituto servirá como um espaço de exposição permanente; os entusiastas poderão fazer uma peregrinação ao estúdio de Giacometti, preservado como um santuário após sua morte em 1966 e agora reconstruído.

Giacometti também apareceu nas telas de cinema. Final Portrait, uma homenagem lançada nos Estados Unidos em março, é estrelado por Geoffrey Rush como o gênio atormentado. Suas obras também estão em alta nas casas de leilões. Em 2015, Homem Apontando (1947) alcançou US$ 141 milhões, o maior preço já pago por uma escultura.

Ajuda o fato de Giacometti parecer com as imagens. Com seus traços enrugados e irregulares e juba de cabelos grisalhos, seu charme malandro e infidelidades em série, ele se ajusta exatamente às noções populares de como deveria parecer um artista. Mas, diz Catherine Grenier, diretora da Fundação Giacometti, o próprio artista não estava muito interessado em fama e fortuna. Ele insistiu em seguir seu próprio caminho, dando de ombros aos caprichos da cena artística. Megan Fontanella, curadora-geral da exposição no Guggenheim, diz que Giacometti era “um artista de certa forma solitário em seu próprio tempo”.

Após a 2.ª Guerra Mundial, observa Fontanella, a abstração era amplamente vista como a arte do futuro. Teimosamente, Giacometti retornou à forma humana. Nas décadas de 1940 e 1950, ele desenvolveu seu estilo de assinatura, criando aquelas figuras insuportavelmente debilitadas que seu amigo Jean-Paul Sartre comparou com “os mártires sem carne de Buchenwald”. Mas enquanto esses frágeis mortais, muitas vezes tão esguios que parecem estar prestes a desaparecer, emergiram em resposta à guerra e ao genocídio, eles incorporam mais do que horror. Essas “naturezas finas e esguias se erguem para o céu”, continuou Sartre; “São dançarinos, são feitos da mesma matéria rarefeita dos gloriosos corpos que nos foram prometidos.” Trabalhos como Homem Caminhando I e Homem Apontando, ambos atualmente em exibição no Guggenheim, parecem danificados, mas empenhados, resolutos diante da adversidade.

Giacometti também se destacou de seus pares na disposição de abraçar o passado. Rejeitando a exortação modernista para “torná-lo novo” (na frase de Ezra Pound), ele conduziu um diálogo para toda a vida com uma tradição escultural que remonta a milhares de anos. Muitas de suas estátuas permanecem com a severa formalidade de um faraó egípcio; Carruagem (1950) remete a figuras desenterradas de tumbas etruscas. Vários trabalhos iniciais, feitos enquanto ele era um membro do movimento surrealista, lembram as formas simplificadas da antiga arte das Cíclades.

Mas sua produção também é distintamente contemporânea. Evitando a abordagem monumental e heroica que durante séculos foi o modo padrão da escultura, suas figuras são evocações de inquietação e descontentamento que se encaixam em um mundo desiludido com o estilo bombástico. Os corpos que ele modela ou esculpe perderam sua integridade física, a sensação de um claro limite entre o exterior e o interior. Eles são amassados, roídos, perfurados e arrancados, estendendo-se através de vastas extensões, mesmo quando parecem prestes a desmoronar sob seu próprio peso. Eles estão enraizados no chão, seu esforço tornou-se mais pungente por sua óbvia futilidade.

Essa sensação de anseio e busca, sem encontrar, é igualmente evidente em seus desenhos e pinturas menos conhecidos. Típica da inquietude de Giacometti é Yanaihara Sentado de Corpo Inteiro (1957), um retrato para o qual o modelo posou 230 vezes, de cinco a oito horas por dia. Depois de todo esse esforço, seus traços são quase totalmente obliterados por uma mancha de tinta marrom – um testemunho da dificuldade de capturar outro ser humano na totalidade.

Ao fornecer recursos para acadêmicos e facilitar exposições, Grenier e a fundação ajudaram a manter viva a lenda de Giacometti. No entanto, eles conseguiram apenas porque seu trabalho ainda ressoa. Mestre da vulnerabilidade, Giacometti oferece uma fonte de consolação numa era de dúvida. / Tradução de Claudia Bozzo 

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