Paulo Liebert/Estadão
Paulo Liebert/Estadão

Como o maior hospital psiquiátrico do Brasil foi de centro de referência a depósito de rejeitados

Jornalista e ex-enfermeiro se unem para narrar a história trágica do Complexo Hospitalar do Juquery em livro

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estadão

14 de agosto de 2021 | 15h00

O incêndio que destruiu o prédio da administração central do Complexo Hospitalar do Juquery, em 17 de dezembro de 2005, incinerou os “prontuários de mais de 136 mil pacientes e a mais completa biblioteca do país especializada em doenças psiquiátricas, com 15 mil volumes, documentos e outras publicações sobre o tema, da metade do século 19 até metade do século 20”. Com esses dados trágicos, inicia-se Cinzas do Juquery: Os Horrores no Maior Hospital Psiquiátrico do Brasil, do jornalista Daniel Navarro Sonim e de um ex-enfermeiro da instituição, José da Conceição.

O busto de bronze do Dr. Franco da Rocha, médico psiquiatra que assumiu a direção do Juquery, em 1896, e as lembranças de quem passou por lá foram as únicas coisas que sobraram. Sonim parece interessado em reerguer, por meio desses relatos, a instituição. Em 2014, publicou O Capa-Branca: De Funcionário a Paciente de um dos Maiores Hospitais Psiquiátricos do Brasil, em parceria com Walter Farias, um ex-funcionário que se tornou paciente da instituição.

O complexo do Juquery incluía detentos e pacientes, que, em Cinzas do Juquery, ganham identidade (José da Conceição desenha alguns deles) e passam a protagonizar suas histórias. No fim do século 19, os indivíduos “indesejados” iam para uma instituição no centro de São Paulo, mas a elite paulistana os queria longe do cenário urbano. A construção de um hospital afastado da capital surgiu dessa vontade e da política eugenista dos industriais e cafeicultores da época. 

Com a chegada de Franco da Rocha, um dos primeiros médicos a se especializar em psiquiatria no Brasil, a instituição passou a se dedicar à pesquisa e pretendia se transformar em um renomado centro de conhecimento científico. O Juquery teve ótimos administradores, como o médico Osório César, casado com Tarsila do Amaral. César mantinha diálogo com Sigmund Freud e acreditava no potencial artístico dos pacientes. A instituição teve também péssimos administradores, que se valeram da lobotomia e de outras terapias eugenistas.

Na virada do século 19 para o século 20, iam para as instituições psiquiátricas todos os que não se ajustavam ao padrão social, entre eles ex-escravos, imigrantes, desempregados e mulheres de todos os tipos: prostitutas, “histéricas”, mães solteiras, que “afrontavam a moral e os bons costumes”, e, “pasmem, esposas que não se casavam virgens”. Ao longo das décadas, os detentos do Manicômio Judiciário não mudaram muito: viam-se em seus pátios, destaca José da Conceição, “mendigos, alcoólatras, prostitutas, negros, presos políticos, homossexuais e epiléticos” e imigrantes, como Akira Tomogaya, um japonês, educado e gentil. 

Já no fim dos anos 1940, o projeto de centro de referência foi aos poucos perdendo o incentivo do governo e o interesse da sociedade até se tornar definitivamente um “depósito” de seres humanos com os mais variados problemas, entre eles, alguns detentos que haviam cometido delitos e até crimes em série, como o Bandido da Luz Vermelha, uma das personagens de Cinzas do Juquery.

José da Conceição começou a trabalhar no Juquery em 1970 e passou dezoito anos entre o Manicômio Judiciário, as colônias e demais setores do Hospital Central. Começou sem preparo técnico e logo percebeu que faziam tudo “dentro de uma normalidade escandalosamente absurda. Não precisávamos, nem era o caso, de se pensar em ciência ou humanidade, características que se perdiam a cada pôr do sol”. Conceição, que mais tarde se formou enfermeiro, relata também excessos por parte dos capas-brancas, como eram chamados os funcionários da instituição, e descaso por parte dos médicos, que não demoravam mais de cinco minutos com cada paciente. 

Nos anos da ditadura, os funcionários, sempre alheios ao que acontecia do lado de fora dos muros do Juquery, começaram a perceber que algo estava errado com a chegada de determinados detentos, como o jornalista Renato Ribeiro Pompeu, que escrevia textos que desagradavam o governo, ou Mario Santana, que começou a ouvir vozes “que o alertavam para que tomasse cuidado com suas ideias contrárias ao regime militar” – ele sempre se comportou com tranquilidade e bons modos.

Há casos surpreendentes como o de Álvaro Grizolli, que dizia querer falar com o Papa e recebia sessões de eletrochoque quando insistia no assunto. Um dia, para a surpresa de todos, recebeu uma carta do Vaticano e foi enviado de volta para casa.

Os lúcidos, cuja lucidez talvez os tenha levado ao Juquery, também acabavam internados; esse parece ter sido o caso de Manoel dos Santos, que dizia: “o povo não decide nada e o voto da maioria só indica quem manda. Somos livres apenas para fazer aquilo que os governantes decidem”. Ele acreditava também que estes “protegem mais a propriedade do que as pessoas”. 

Quem não era louco, tornava-se. Quando o Juquery já não tinha nem mais comida para alimentar seus internos, passou a devolvê-los aos familiares, sempre muito piores do que quando lá entraram. 

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É ESCRITORA, ENSAÍSTA E TRADUTORA DE EDWARD LEAR, LEONORA CARRINGTON E JAMES JOYCE

Tudo o que sabemos sobre:
psicologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.