Iona Wolff/Antiquarian Booksellers Association
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Como o mercado de livros raros e antigos está se adaptando à internet

Vendedores de antiguidades editoriais ainda não se saem tão bem quanto os negociantes de arte

Scott Reyburn, The New York Times

09 Junho 2018 | 16h00

LONDRES - Johannes Gutenberg ou Tim Berners-Lee? O texto impresso ou a internet? Não há nenhuma maneira de saber qual deles influencia mais, mas hoje não se discute que as pessoas passam mais tempo navegando na internet do que lendo um texto impresso. E isto tem inúmeras repercussões, positivas e negativas. Por exemplo, o velho sistema de compra e venda de livros raros.

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A Rare Books London é um conjunto de leilões, feiras, palestras e tours que acontecem entre maio e junho em Londres. A “jóia da coroa” do evento, de acordo com seu website é a A.B.A Rare Book Fair, em sua 61.ª edição, com a participação de 175 marchands de livros. Mais de um terço dos expositores são de fora da Grã-Bretanha.

Depois de 19 anos no centro de exposições Olympia, um prédio da era vitoriana a oeste de Londres, a feira mudou para Battersea Evolution, um local mais moderno, do lado sul do rio Tâmisa. Foi inaugurada por David Attenborough, aclamado narrador de séries da BBC como Life on Earth, The Living Planet e Blue Planet.

“Olympia estava associada a coisa velha”, disse Andrea Mazzocchi, especialista que trabalha na Bernard Quaritch Antiquarian Books, fundada em 1847. “Precisamos nos afastar de pessoas que acham que os velhos livros são empoeirados e chatos”, acrescentou. Mas essa feira de livros raros ainda está muito distante da pompa de feiras de arte de luxo como Frieze ou Masterpiece. O tráfego congestionado por causa da sempre popular Chelsea Flower Show, próximo dali, tornou difícil o acesso à feira.

Sophie Schneideman, livreira especializada em livros impressos por particulares, estava oferecendo uma das 500 cópias em papel da Doves Bible, uma Bíblia com as letras capitulares em vermelho escritas pelo calígrafo Edward Johnston, publicada por Cobden-Sanderson e Emery Walker da Doves Press, em Hammersmith, a oeste de Londres, entre 1903 a 1905. Reverenciado por muitos como a realização suprema da tipografia artesanal, o livro custava 15 mil libras (R$ 78.500). Sophie Schneideman disse ter vendido meia dúzia de artigos valendo entre US$ 66 e US$ 13.000, mas nenhuma edição da Bíblia da Dover. “Não havia clima e nem entusiasmo. Muitos dos clientes mais antigos não conseguiram chegar ao local”, ela lamentou.

Mas outros expositores se mostraram mais otimistas com relação ao novo espaço. Uma vez evitado o confronto com o Chelsea Flower Show e quando uma nova parada de metrô for inaugurada próximo dali, em 2020, o evento será um sucesso, disseram eles.

“Com certeza é melhor do que o local antigo”, disse Bernard Shapero, expositor londrino especializado em livros ilustrados raros.

O comércio de livros raros se defronta com muitos desafios. 

Ao contrário de colecionadores de livros como John Pierpont Morgan e Andrew Carnegie, os super-ricos de hoje preferem coleções de arte em vez de bibliotecas. A arte se tornou um investimento alternativo globalizado que em 2017 gerou um lucro médio de 21%, segundo o mais recente informe da corretora Knight Frank. Livros raros não figuram na cesta de “investimentos de luxo” da corretora.

Mas vendedores e leiloeiros tendem a se referir aos livros como “reserva de valor”, refletindo uma estrutura de preço e uma base de clientes geralmente estáticas que não entusiasma investidores alternativos. Como resultado, a feira de livros raros depende de colecionadores e instituições muito bem informados – e marchands amigos.

Mas houve vendas na A.B.A Fair como a realizada pela Aquila Books, de Calgary, no Canadá, de uma primeira edição de 1871 do livro de Charles Darwin, A Descendência do Homem, em que o autor usou a palavra “evolução” pela primeira vez para se referir à sua teoria. O livro foi comprado por Attenborough por US$ 5.340.

Aquila Books, especializada em livros de exploração e evolução, contabilizou 30 mil libras (R$ 157 mil) em vendas na feira, de acordo com seu fundador Cameron Treleaven. “Estou feliz com o resultado”, disse ele, explicando que as feiras representam 40% das suas vendas anuais, com 35% gerados por meio de transações online.

“A chegada da internet foi o momento definidor da minha carreira”, disse Treleaven. “Ela nos permitiu encontrar clientes que nunca soubemos que existiam”, comemora.

Como no mercado de arte, os leilões ao vivo são outro canal importante para venda de livros raros. Mas, ao contrário da arte contemporânea, os livros costumam ser vendidos de acordo com estimativas pré-vendas.

Na quarta-feira a Bonhams levou a leilão a biblioteca de história natural do Wassenaar Zoo da Holanda. Fundado em 1937 por Pieter W. Louwman, pai do coproprietário da Bonhams, Evert Louwman, o zoo foi fechado em 1985. A biblioteca, compreendendo 234 obras, abrange alguns dos livros de ornitologia mais suntuosamente ilustrados do século 19.

O mais valioso da coleção é uma primeira edição, em sete volumes, de The Birds of Australia, de John Gould, lançado em 1849. Esta cópia também incluiu três dos cinco volumes suplementares da obra, ilustrados com mais de 600 litografias coloridas à mão, baseadas nos desenhos da mulher do ornitólogo, Elizabeth Gould. Ainda é considerado o mais amplo trabalho sobre o assunto – a descoberta por Gould de mais de 300 novas espécies durante sua pesquisa na Austrália entre 1838 e 1840. A coleção The Birds of Australia foi vendida por 187.500 libras, incluindo comissões (cerca de R$ 979 mil). 

“Os livros não são como a arte contemporânea. Eles não geram uma enorme empolgação e não são vendidos com rapidez”, afirmou Matthew Haley, diretor do departamento de livros da Bonhams. “O negócio é lento e estável”.

Birds of Australia, de Gould, como a Doves Bible ou a Bíblia de Gutenberg são trabalhos de arte excepcionais, mas infelizmente, como são livros, não têm a força de uma pintura moderna ou contemporânea renomada. A sutileza dos livros como símbolo de status também não atrai os novos ricos que compram arte.

Então, como o comércio de livros raros pode prosperar no século 21?

É justamente aí que entra a invenção de Tim Berners-Lee. Os marchands de livros têm se queixado de que no caso de muitos compradores, navegar na internet substituiu a busca nas livrarias, o que ocasionou o fechamento de inúmeras livrarias de livros usados, mas a internet permite a eles mostrar seus livros para um novo público ligado mais no visual.

Bernard Quaritch, por exemplo, levou uma única folha da Bíblia de Gutenberg impressa em 1450 para a feira da A.B.A.A em Nova York e a A.B.A em Londres, avaliada em 100 mil libras (R$ 523 mil). Não conseguiu vender, mas ela foi colocada na conta no Instagram da companhia e desde então a postagem já recebeu 122 curtidas.

O velho livro empoeirado está evoluindo. Paulatinamente. / Tradução de Terezinha Martino 

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