James Jeffrey
James Jeffrey

Como o Nobel da Paz da Etiópia transformou uma prisão em um museu

Antigo palácio imperial em Adis Abeba foi centro de tortura e agora está aberto ao público

Redação, The Economist

16 de novembro de 2019 | 16h00

Os degraus sobem elegantentemente em direção aos céus. No alto fica o pequeno aposento no qual o imperador Menelik II pedia as bênção de Deus, enquanto expandia o território da Etiópia nas últimas décadas do século 19. A torre de vigia, como é conhecida essa ala do palácio, era um ponto perfeito para Menelik observar os súditos abaixo. Foi ali que o imperador fundou Adis-Abeba, a capital da Etiópia, em 1886. O grande palácio que ele construiu no alto de uma colina tornou-se o coração de cada regime que, através de guerras e revoluções, o sucedeu. 

 Hojeo local é símbolo de uma nova era. No mês passado, após ganhar o Prêmio Nobel da Paz, Abiy Ahmed, primeiro-ministro da Etiópia, abriu pela primeira vez o velho palácio ao público desde a revolução de 1974, que depôs o imperador Haile Selassie. Restaurado a um custo de US$ 170 milhões (pagos pelos Emirados Árabes Unidos, um aliado próximo, ele é de longe o mais imponente museu do país. Além do próprio palácio, o local tem luxuosas galerias que contam a história da Etiópia; um jardim botânico; um pavilhão com exposições das nove regiões do país; e dois leões abissínios de juba negra que guardam a entrada. “Na história da Etiópia, onde há um palácio tem de haver um leão”, explica Abebaw Ayelaw, o curador.

O Parque da Unidade, como a atração é conhecida, recebeu 17 mil visitantes recebeu desde que foi aberto. Num suntuoso salão de banquete há uma estátua de cera de Menelik sentado no trono original. Alguns se prostram diante dele, em deferência.

A paixão despertada pelo museu testemunha a força do passado na Etiópia,tanto para inspirar como para dividir o país. Para os atuais governantes, reconfigurar a herança histórica é um meio de conferir legitimidade e força à unidade nacional, num momento em que ambas estão sendo questionadas.

Abiy fez da renovação e celebração dos  locais históricos o centro de sua política. “Nossa missão é sacudir a poeira da Etiópia”, disse ele num documentário sobre o Parque da Unidade divulgado pela televisão estatal em setembro. Localizado na vizinhança, o Palácio do Jubileu, construído por Haile Selassie nos anos 1950, também está sendo restaurado (com fundos franceses) e será eventualmente aberto ao público. Olutro novo museu em Adis-Abeba vai comemorar a vitória de Menelik sobre os invasores italianos em 1896. Pelo menos mais quatro outros pálácios reais em cidades menores também vão virar museus.Dois antigos centros cristãos, nas cidades de Axum e Lalibela, serão igualmente restaurados.    

O Parque da Unidade procura enfatizar o progresso asssumindo o lugar da ruptura violenta. Numa parede externa do palácio estão pendurados retratos de cada líder etíope, de Menelik ao predecessor de Abiy, Hailemariam Desalegn. Numa galeria no salão em estilo clássico do trono, há um quadro de Haile Selassie lidera e ilustra as contribuições de cada um deles para o desenvolvimento do país. O sucessor de Menelik, Lij Iyasu, estabeleceu a primeira força policial. Mengistu Haile Mariam, o violento ditador dos anos 1970 e 1980, é homenageado por defender a Etiópia dos invasores somalis. Mengitsu, no entanto, é contrabalançado por uma exposição no térreo dedicada àqueles aprisionados durante a revolução que ele liderou.

O atual primeiro-ministro, que assumiu o cargo em 2018 e prometeu que o país terá sua primeira eleição livre em maio, apresenta todas essas obras como uma ruptura com o passado. “Antes, quando entrava um novo governo, ele excluía ou destruía todas as marcas de seu antecessor”, diz Abebaw, o curador. Quando a junta comunista de Mengitsu, conhecida como Derg, assumiu o poder, em 1974, estátuas imperiais foram derrubadas ou destruídas. Livros foram queimados, incluindo a autobiografia de Haile Selassie. Elias Wondimu, editor que abriu uma loja no Parque da Unidade, lembra-se de ter comprado café embrulhado em páginas de livros de história. O fervor revolucionário era tanto que mesmo os leões do palácio real foram mortos.  

Quando a Derg foi por sua vez derrubada, em 1991, a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF), que assumiu o poder, também derrubou, sem surpresa de ninguém, uma estátua de Lenin. Mas a própria herança imperial estava na linha de fogo, com uma “tentativa sistemática de destruir a imagem de Menelik”, diz o historiador Shiferaw Bekele. A estátua de Menelik em Adis-Abebas sobreviveu, embora ainda seja foco de tensões.

A decisão de fazer um museu no palácio de Menelik é ainda mais contenciosa. Chefes do grupo étnico de Abiy, os oromas, ignoraram a inauguração e preferiram visitar o memorial aos oromas vítimas das sangrentas campanhas militares do imperador.

No fundo da iniciativa pela restauração histórica repousa uma questão polêmica: a Etiópia é um país antigo ou o produto de um império moderno e voraz? Só nos últimos 18 meses, centenas de etíopes foram mortos e milhões desalojados em conflitos étnicos. “O problema é que não conhecemos os fundamentos de nossa história”, diz Mulugeta Gebrehiwot, autor de um livro sobre o EPRDF.

Abiy tende a enfatizar uma gradual consolidação do espírito de nação, evitando as fricções com o império. Segundo o museu sugere, a Etiópia é uma nação com raízes antigas – o que também põe o primeiro-ministro em conflito com aqueles em seu partido que denunciam as conquistas imperialistas do passado. Alguns acham que ele se precipitou ao inaugurar o Parque da Unidade. “Faltou consenso político”, diz Mohmmed Girma, pequisador religioso. Os responsáveis pelo museu não se abalam com as críticas. “Temos que respeitar o que aconteceu no passado”, argumenta Abebaw.

Tamrat Haile, diretora do museu, diz que está organizando exposições para salas que continuam vazias. Muitos artefatos e obras etíopes foram saqueados. Outros estão em mãos de proprietários e colecionadores privados. Embora algumas pessoas tenham começado a doar itens, outras são mais cautelosas. Afinal, casas de família podem ser mais seguras que museus num país em que a história é um campo de batalha. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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