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Como o pouso na Lua marcou nova era para teorias conspiratórias

Diretor de '2001: Uma Odisseia no Espaço', Stanley Kubrick foi um dos acusados de participar de uma armação

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2019 | 16h00

Ao contrário do assassinato do presidente Kennedy, que me pegou na lufa-lufa de uma redação, apaguei quase totalmente da memória a chegada do primeiro homem à Lua, que me pegou de folga em outra redação. 

Lembro, sim, mas vagamente, de alguns detalhes: da precariedade das imagens, cheias de chuvisco, e do som, cheio de chiados, e da jequíssima autogratulação dos três mestres de cerimônia escalados pela TV Tupi ao final da transmissão – mas nenhum deles fantasiado de astronauta, felizmente. Por misericórdia, não lhes cito os nomes.

Bem mais memorável – tanto que disso me recordo com clareza – foi uma telereportagem, na noite seguinte, sobre a reação da população carioca ao portento da véspera. Na estação das barcas da Praça 15, um sósia do dr. Sobral Pinto confessou, com a orgulhosa e obtusa veemência da ministra Damares Alves, que não acreditara em nada, que tudo aquilo era trucagem fabricada em Hollywood, que o homem não podia ir à Lua.

Fiquei chocado. Como um senhor de tão fina e douta aparência podia pensar daquele jeito, como um capiau ignorante, como um ministro qualquer do Bolsanistão? Se eu fosse menos desatento aos lançamentos de Cabo Canaveral e suas repercussões, saberia que o velhinho era apenas mais um de uma legião de céticos lunáticos (ups! escapou) já de algum tempo a atirar tíbias e fíbulas, como os primatas de 2001: Uma Odisseia no Espaço, nas proezas do programa espacial americano. 

A descida do homem na Lua inaugurou menos uma nova era na história da humanidade do que uma nova etapa na história das paranoias americanas. A missão Apolo 11 talvez tenha sido a maior fonte de teorias conspiratórias do século passado depois do assassinato de JFK.

Quem sabe porque o primeiro passo de Neil Armstrong tenha sido dado com o pé esquerdo, o augurado “grande salto”, ao menos para empreendimentos como resorts selenitas, lunaparques temáticos, Disneymoonland etc, não vingou. Elon Musk deu preferência a Marte. Trump só investiu em conspirações, paranoias e mentiras. 

E nosso satélite natural, fecunda inspiração de canções, serestas, filmes, superstições, transes alucinógenos, má poesia e um álbum do Pink Floyd, lá continuou com sua inóspita e estéril paisagem, silenciosa musa de pedras e areia, insensível ao alarido dos céticos lunáticos e aos transtornos mentais que porventura tenha provocado em seus visitantes terráqueos. 

O jornalista e escritor Rich Cohen entrevistou três astronautas que foram à Lua (12 ao todo, apenas quatro ainda vivos) e constatou: ficaram meio birutas, tamanha a experiência física e emocional por que passaram. Buzz Aldrin, o segundo a descer da Apolo 11, tinha o mesmo olhar estranho de Edgar Mitchell (Apolo 14, 1971), e só queria falar de discos voadores. Os três (Armstrong, o terceiro da lista) voltaram do espaço acreditando na existência de extraterrestres, mas nada revelaram além das próprias convicções. 

Quem com mais persistência e método fomentou a descrença na ida do homem à Lua foi um sujeito chamado William Kaysing, ex-redator de uma fábrica de motores. Num livro publicado em 1976, We Never Went to the Moon: America’s 30 Billion Dollar Swindle (Nunca Fomos à Lua: Um Embuste de 30 Bilhões de Dólares), reduziu as seis bem sucedidas missões Apolo a uma cabala colossal. 

Kaysing questionou a “posição incorreta” da bandeira fincada no Mar da Tranquilidade, estranhou a luminosidade lunar, a falta de marcas deixadas no solo pelos ejetores da nave, a ausência de estrelas no céu e outros alegados furos da “montagem cinematográfica” providenciada pela indústria espacial. Pareciam bons e bem fundamentados argumentos (disponíveis na internet), que a Nasa e vários cientistas, além dos próprios astronautas, derrubaram um a um. 

Para dar credibilidade à “falsa cobertura” da missão Apolo 11, a Nasa teria contratado o cineasta Stanley Kubrick, que no ano anterior lançara 2001: Uma Odisseia no Espaço. Armstrong e seus companheiros teriam sido evacuados sorrateiramente da nave pouco antes do lançamento e levados até Nevada, de cujo deserto a alunissagem, filmada por Kubrick, teria sido aquela transmitida pela TV no dia 20 de julho de 1969. 

Segredo mais bem guardado do que esse nem o embarque do Dia D, certo? O próprio cineasta só foi tomar conhecimento dessa fantasia quando ela já era um blockbuster no circuito das lendas urbanas. 

Teóricos os mais delirantes grudaram como moscas nesse desvario, tentando detectar o máximo de coincidências e insinuações subliminares ligando o cineasta à missão Apolo 11. Por que, em O Iluminado, Kubrick trocou o número do quarto (217 no romance de Stephen King) para 237? Porque 237.000 milhas é a distância da Terra à Lua. (Na verdade, são 238.902 milhas.) Danny, o filho de Jack Torrance (Jack Nicholson), o alucinado escritor e zelador do Hotel Overlook, veste um suéter com o logo da Apolo 11. As fantasmáticas irmãs gêmeas, outro acréscimo de Kubrick, seriam uma referência à missão (Gemini) que antecedeu a Apolo 11. 

O decadente Overlook seria uma metáfora da América: construído sobre os ossos e as cinzas de seus legítimos donos, os índios, também conheceu um passado de grandeza e acaba engolfado por uma tempestade de neve, metáfora da Guerra Fria que forçou Kennedy a fazer aquela tola promessa de enviar às pressas um homem à Lua para impressionar os soviéticos. O também cineasta Jay Weidner criou um site (Secrets of The Shining) só para discutir essas alucinações. De resto, deliciosas e infinitamente menos perniciosas – se perniciosas são – do que afirmar que a Terra não é redonda, como fazem os terraplanistas infiltrados no governo Bolsonaro.

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