The New York Times
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Como o turismo no Curdistão sobreviveu ao Estado Islâmico

Ex-soldado americano no Iraque fundou companhia de viagens na região habitada pelo povo curdo

Tim Neville, The New York Times

10 Fevereiro 2018 | 16h00

O mosteiro de Mar Mattai está encravado ao lado de uma íngreme montanha, e em um dia claro, o visitante pode ficar em frente às suas muralhas e vislumbrar bem abaixo as encantadoras terras férteis da Mesopotâmia Superior. Aqui, no berço da civilização, o prédio é um dos mais antigos mosteiros cristãos do mundo. A partir deste pacífico patamar, é difícil imaginar o horror.

Em uma nebulosa manhã na primavera passada, Harry Schute, um coronel aposentado do exército, aos 50 anos com um amplo sorriso, atravessou as pesadas portas do mosteiro ao longo de suas arcadas sombreadas. Um menino jogava uma bola de futebol no pátio, o estrondo de cada chute estalando nas paredes de pedra. No seu pico no século 9, o mosteiro abrigava cerca de 7 mil monges. Hoje tem cinco, um bispo, esse menino e sua família – todos os sobreviventes do Estado Islâmico (EI).

Estávamos nas margens ocidentais do Curdistão, uma região semiautônoma do tamanho dos Países Baixos no norte do Iraque, que abriga 5,2 milhões de todos os 30 milhões de curdos que se calcula existirem no mundo, pessoas apátridas que povoam as regiões fronteiriças entre o Iraque, a Turquia, Irã e Síria. Que o mosteiro ainda resista; que este menino cristão e sua família ainda estejam vivos; que um pequeno grupo de norte-americanos agora se sinta seguro o suficiente para viajar aqui – isso tudo parecia um milagre.

Mosul, a segunda maior cidade do Iraque, uma das mais perigosas do mundo, fica mais de 30 quilômetros a Sudoeste. Em junho de 2014, o EI a invadiu, e o líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi, ficou dentro da sua Grande Mesquita de Al-Nuri e chamou a si mesmo de califa do tenebroso regime. Em agosto de 2014, as sinistras bandeiras negras do EI foram colocadas a apenas cinco quilômetros de onde eu estava. Acobertado pela noite, o chefe do mosteiro, um sacerdote chamado Yousif Ibrahim, cujo irmão já havia sido morto pelos militantes, desapareceu com dezenas de documentos antigos, os últimos da antes magnífica biblioteca do monastério e até mesmo um fragmento de osso de mão descolorido que se acreditava ter pertencido a São Mateus, o eremita, que fundou o mosteiro em 363 d.C. Ele estava certo de que o mosteiro estava perdido. Mas então os ataques aéreos começaram e os peshmergas curdos (combatentes do exército) e o exército iraquiano provocaram uma reviravolta. O califado começou a desmoronar.

Em maio de 2017 a maioria dos artefatos já havia sido devolvida ao mosteiro. Esta foi uma das primeiras vezes que Schute trouxe viajantes para cá desde que o EI chegou tão perto. Hoje, Schute acredita que o Curdistão poderia ser um dos principais destinos de viagens do mundo, se as pessoas apenas deixassem de confundi-lo com o Iraque que é visto nas notícias. Com certeza, o Curdistão não tem nada a ver com o Iraque de Mosul, mais como uma Montana no Oriente Médio com ruínas: um painel mais gelado e acolhedor de córregos límpidos na montanha e picos fragmentados. Um viajante pode esquiar em um novo resort servido por gôndolas ou passear pelos paredões cobertos pelo sol do cânion mais profundo do Oriente Médio. Você pode beber água das torneiras da cidade e passear por Irbil, a capital regional, preocupado apenas em como recusar, educadamente, tantos convites para beber chá.

Formado em história por West Point, com um fraco por heavy metal, Schute foi soldado no Iraque em 2003 e comandou o batalhão de assuntos civis da Reserva do Exército dos EUA. “Esses são os caras que ajudam as pessoas e as coisas a sair do caminho, para que o Exército possa entrar e quebrar coisas”, disse. Logo se tornou um tipo de celebridade como o oficial sênior dos EUA no Curdistão. Até hoje, os curdos, que vêm os americanos como seus libertadores por expulsarem Saddam Hussein, o reconhecem na rua e pedem para tirar fotografias com ele. Quando seu passeio terminou, Schute começou a se sentir ansioso. “Era como se houvesse um buraco em mim”, disse. “Senti que estava contribuindo para coisas valiosas, e queria continuar a contribuir. Eu queria ficar.”

Em 2003, em um seminário de investimento curdo em Irbil, Schute conheceu Douglas Layton, um americano que chegou ao Curdistão em 1992. Layton, cujos óculos redondos e boné de lã lhe emprestam o ar de um espião de ficção, havia sobrevivido a uma recompensa de US$ 1 milhão pela sua cabeça, cortesia de Saddam. Schute e Layton conheciam as riquezas culturais e pessoas amigáveis do Curdistão, então uniram forças para criar o Kurdistan Iraq Tours, única operadora de turismo de entrada no Curdistão. Uma ideia que parecia absurda. “Todos disseram que ninguém viria para o Iraque, e eu respondia: ‘eles virão para o outro Iraque!’”, lembrou Layton. “Acreditei e ainda acredito que o turismo é o futuro.”

Então, apareceu o ISIS.

Os combatentes passaram como um rolo compressor pelo rio Tigre e entraram no Curdistão. Ficaram tão perto dos portões da cidade de Irbil que até mesmo Schute ficou preocupado. Empresas de turismo e 70 hotéis fecharam. Muitos voos foram suspensos. “Nós fomos as últimas pessoas que ficaram”, disse Layton. Mas durante esses terríveis anos, os homens trabalharam nos bastidores, falando com os legisladores e publicando um guia belo e abrangente da região. Assim que o EI se foi, eles sabiam que os viajantes voltariam.

Nosso contingente de cinco norte-americanos passara realmente a vida inteira viajando. Mesmo assim, apenas um de nós, o chefe de uma associação comercial de viagens de aventura, havia visitado o Curdistão antes. Desta vez, ele trouxe seu filho, que completou 17 anos na viagem. Um expatriado canadense que morava em Hong Kong e um fotógrafo de Los Angeles que estiveram na Coreia do Norte 10 vezes completaram o nosso grupo.

Nós nos amontoamos em um micro-ônibus e fomos para a cidade. Fileiras de arranha-céus semiacabados subiram da terra como a caixa torácica de um grande animal de aço. Barbearias, livrarias, mesquitas e carrinhos carregados de pepinos selvagens e cigarros passavam pela janela. Poucas mulheres curdas usavam véus. 

Logo ficou claro que esta seria diferente de qualquer outra viagem. Schute também atua como um consultor sênior de segurança para o ministério do Interior curdo e trabalha em estreita colaboração com os peshmergas, que significa “aqueles que enfrentam a morte”. Mais de 100 mil desses soldados curdos ocupavam uma frente quase impenetrável com valas de tanques e pontos de controle que mantinham o Curdistão como um enclave de segurança enquanto grande parte do Iraque continua sendo muito perigoso para turistas. Os peshmergas, as forças da coalizão e os iraquianos cercaram os últimos lutadores do EI na cidade velha de Mosul ao longo do Tigre. O esforço para erradicá-los para sempre estava sendo coordenado através da sede da peshmerga Zerevani, fora de Irbil. Schute deu um jeito de nos levar até lá.

Este campo seria apenas um campo sem Schute para dar as explicações. Em 331 a.C., o rei persa Dario III escolheu este local, agora pacificado, para enfrentar Alexandre, o Grande. A Batalha de Gaugamela viu a força muito maior de Dario sofrer perdas tão horríveis que logo o reino da Macedônia se estenderia da Grécia ao Paquistão. A batalha é considerada uma das vitórias militares mais importantes de todos os tempos, disse Schute. “Você consegue sentir?”, ele indagou, ao imaginar a guerra com elefantes, carruagens e as dezenas de milhares de soldados que se alinhavam para se ajudar mutuamente. Chego aqui e consigo sentir isso.”

De todas as pessoas que o EI combateu, foram particularmente brutais com os yazidi, uma das minorias religiosas mais misteriosas do Iraque, massacrada aos milhares. Os yazidi não permitem que os forasteiros se convertam ao yazidismo, e o conteúdo de seu texto sagrado, o Meshef Resh ou Livro Negro, é apenas para outros yazidis. Em termos mais gerais, eles acreditam em um Deus e que o anjo do céu nas crenças cristãs é agora o líder reconciliado de todos os anjos e assume a forma de um pavão. Alguns não usam azul. A fé afirma que cada um deve fazer uma peregrinação ao centro de seu mundo, ou Lalish, uma bela aldeia montanhosa cerca de 48 km a sudeste de Duhok. Os yazidi acreditam que a Arca de Noé veio parar aqui depois que uma cobra usou seu corpo para tapar um buraco no barco, salvando toda a criação. A aldeia tinha edifícios de pedra e ruas estreitas, e famílias sentadas juntas em tapetes dentro de pátios e jardins internos. Todos, como nós, estavam descalços. Os sapatos não são permitidos em Lalish.

Perto do final da viagem, conhecemos Rekan Rasool, de 25 anos, que iniciou um clube de caminhada e caiaque para curdos. Em 2010, seu grupo Rock Your Bones teve um punhado de integrantes. Hoje tem mais de seis mil. No rio Lesser Zab, ele me contou que sonha em abrir uma loja em Irbil, fazer caminhadas pelo Curdistão e conseguir que mais mulheres se envolvam em atividades externas. Como Schute e Layton, vê algo no Curdistão que seria óbvio se não fosse pelas notícias. “Quando não há guerra no meu país, o Curdistão é o melhor lugar.” Ele inflou caiaques, colocou coolers e tendas em seu SUV para um longo fim de semana de aventura com a namorada. Nós dissemos adeus. Então ele dirigiu para uma estrada e o perdemos de vista. / Tradução de Claudia Bozzo

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