Fair Warning
Fair Warning

Como os leilões de obras de arte se adaptam ao isolamento social

Leilões online e aplicativos viram realidade por causa da pandemia no concorrido mercado de arte

Robin Pogrebin, The New York Times

25 de julho de 2020 | 16h00

Testando a ideia de que arte de primeira também pode ser vendida com um toque, na segunda-feira Loic Gouzer, ex-executivo da Christie’s, usará seu novo aplicativo para leiloar um grande desenho de Jean-Michel Basquiat, que deve ser vendido por algo entre 8 e 9 milhões de dólares.

O aplicativo, chamado Fair Warning, começou como uma brincadeira, disse Gouzer, uma maneira de se manter ocupado em tempos de lockdown e de ver se o mundo da arte iria se interessar pelas vendas online de maneira significativa. (Desde então, as casas de leilão realizaram suas primeiras – e bem-sucedidas – vendas completamente online.

A primeira obra que ele leiloou no aplicativo, um retrato de Steven Shearer chamado Synthist (2018), foi vendido a um colecionador europeu por US$ 437 mil – um preço alto para o artista – depois de uma estimativa inicial de US$ 180 mil a US $ 250 mil.

Gouzer disse que desde então vendeu mais duas obras: um body print de David Hammons, por cerca de US $ 1,3 milhão (estimada em US $ 500 mil a US $ 700 mil) e uma peça de Steven Parrino, vendida por US $ 977 mil (estimada em US $ 650 mil a US $ 750 mil).

“É realmente um experimento”, disse Gouzer, que, quando trabalhava na Christie’s, construiu uma reputação de bad boy por ter ideias de vendas pouco ortodoxas, além de obter e oferecer obras de arte caras, em especial o ‘Salvator Mundi’ de Leonardo da Vinci, por US $ 450,3 milhões, em 2017.

“A ideia era criar um sistema de leilão meio guerrilha”, disse ele, “onde você poderia começar a mover pinturas usando a nuvem em vez de locais físicos”.

Até agora, as grandes casas de leilão não pareceram se preocupar com o fato de Gouzer vir assumindo uma parte significativa de seus negócios. “A disponibilidade de apenas um lote é uma construção facilmente replicável”, disse Marc Porter, presidente da Christie’s Americas, que qualificou o aplicativo como “inteligente e inventivo”.

“O fator principal será a amplitude do público”, acrescentou Porter. “Nesse aspecto, ele vai ter de lidar com os dados mundiais nos quais as grandes casas de leilão, as feiras de arte e os grandes mercadores vêm investindo há anos”.

Os compradores devem solicitar a inscrição no aplicativo, onde são avaliados quanto à seriedade de seus lances. Gouzer está tentando impedir que especuladores apresentem ofertas com preços mais altos só para obter lucro rápido.

Ele esperava evitar as garantias – ou seja, o estabelecimento de uma oferta mínima antecipada – que se tornaram comuns nas casas de leilão. Mas disse que é uma exigência dos vendedores hoje em dia. (O Basquiat está garantido por um valor não divulgado, algo próximo ao preço da estimativa mais baixa, disse Gouzer).

O Basquiat sem título – um oil stick sobre papel preto que mede cerca de 1 metro de altura por 2 metros de comprimento – apresenta muitas das qualidades pelas quais o artista ficou mais conhecido, como “todos os rabiscos obsessivos e aquelas palavras que surgem o tempo todo, como ‘alcatrão’ e ‘amianto’”, disse Gouzer.

Ele transformou sua garagem em Montauk, Nova York, em uma sala de observação climatizada, onde compradores interessados podem ver o Basquiat a partir de quinta-feira (ele contratou segurança para protegê-lo). A peça será vendida em 30 de julho.

A essa altura, Gouzer planeja vender uma obra por semana – supondo que o inventário coopere – com leilões no app todo domingo, às cinco em ponto. As vendas são realizadas ao vivo, com o aplicativo registrando lances. Gouzer recebe uma comissão fixa de 15%.

Embora Gouzer já tenha sido inundado com lotes em potencial para o futuro, ele disse que está escolhendo e selecionando com cuidado; caso não consiga encontrar obras que satisfaçam seus padrões, simplesmente vai esperar até encontrar.

“Só coloquei obras que compraria para minha coleção invisível. Meu gosto é eclético, mas muito seletivo”, disse ele. “Não tenho pressão, porque não tenho investidores. É uma extensão da curadoria que fiz quando estava na Christie’s, mas com total liberdade”. / Tradução de Renato Prelorentzou 

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