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Como Peter Jackson fez filmagens da 1.ª Guerra parecerem novas

Diretor da trilogia de 'O Senhor dos Anéis' restaura imagens centenárias para documentário

Mekado Murphy, The New York Times

22 Dezembro 2018 | 16h00

Como diretor de elaborados épicos de fantasia, como as trilogias O Senhor dos Anéis e O Hobbit, Peter Jackson ficou conhecido por sua meticulosa atenção aos detalhes. Agora, ele pôs o mesmo cuidado em um documentário.

Em  They Shall Not Grow Old, Jackson aplicou novas tecnologias a filmagens da 1ª Guerra Mundial, com um século de idade, para criar uma vívida sensação de “parece que estávamos lá”. O filme  permite a experiência inédita de, além de se visualizar os personagens com clareza assombrosa, ouvir suas histórias em suas próprias palavras.     

O documentário, que estreou nos Estados Unidos no dia 17 e volta no dia 27, concentra-se nas experiências de soldados britânicos mostradas em filmagens existentes nos arquivos do Museu Imperial da Guerra britânico. Jackson e equipe restauraram digitalmente as filmagens, ajustaram a velocidade dos quadros, colorizaram e converteram em 3D. Eles preferiram não acrescentar narradores e e legendas. Em vez disso, os próprios veteranos “narram”. Os realizadores  reuniram as histórias e comentários encontrados em centenas de horas de entrevistas gravadas pela BBC nos anos 1960 e 70. 

O resultado é visualmente impactante. 

“A clareza é tal que os soldados do filme se tornam vivos”, disse Jackson em entrevista pelo telefone, descrevendo o processo de restauração. “Sua humanidade salta a nossos olhos. As filmagens originais têm em torno de 100 anos e esses homens estavam ocultos sob camadas de deterioração e máscaras de granulação, em filmagens atropeladas e truncadas. Na restauração, o aspecto humano é o que mais se descarta.”

O filme surgiu de uma parceria entre o Museu Imperial da Guerra e o programa cultural 14-18 Now, que encarregou artistas de criarem peças para o centenário da 1ª Guerra (1914-1918). Na iniciativa, foi pedido  a Jackon que fizesse um filme para o projeto. 

“Descobrimos que Peter Jackson tem um imenso conhecimento da 1ª Guerra e é apaixonado pelo tema”, disse Jenny Waldman, diretora do 14-18 Now. O avô de Jackson era soldado profissional do Exército britânico antes de a guerra começar e combateu durante toda a duração do conflito. 

O projeto do centenário liberou Jackson para fazer um filme como quisesse, mas fez duas exigências: usar apenas filmagens originais de seus arquivos e fazer um filme caracterizado pela originalidade. 

Jackson recebeu 100 horas de filmagens com níveis de qualidade variados. “Às vezes eram cópias de cópias de cópias”, contou ele. 

Muito do material, como soldados em treinamento e nas trincheiras, foi filmado como propaganda para exibição em cinejornais presentados entre os filmes da época. “Essas filmagens podiam aparecer entre um desenho animado e uma comédia de Carlitos, sob o acompanhamento de música de órgão”, disse Jean Cannon, curadora de uma mostra de 2014 sobre a 1ª Guerra exibida na Universidade do Texas em Austin. “Sob certos aspectos, a guerra se tornou uma espécie de entretenimento.”

De fato, o primeiro documentário de longa metragem a mostrar combates,  A Batalha do Somme, foi lançado no meio da guerra, em 1916, e teve quase 20 milhões de espectadores.  

Para seu documentário, em vez de garimpar nas filmagens para decidir que cenas usar, Jackson preferiu primeiro restaurar todas as 100 horas de material que foram disponibilizadas (trabalhando nessa assustadora empreitada de três anos com uma empresa da Nova Zelândia, a Park Road Post Production). Arranhões, poeira e manchas de décadas foram eliminados e o novo material, limpo e restaurado, foi doado ao Museu da Guerra.

Houve outros ajustes tecnológicos. A meta de Jackson era reconectar o público com os soldados de um modo ainda mais íntimo do que fez A Batalha do Somme.  As filmagens tinham aqueles “solavancos” característicos porque eram feitas com câmeras operadas manualmente, que produziam imagens muito mais espaçadas que aquelas a que o público moderno está acostumado. A equipe de Jackson corrigiu o ritmo das fitas, acelerando a velocidade dos quadros, adicionando digitalmente quadros extra e suavizando os movimentos.

Em seguida, Jackson recorreu à empresa Stereo D para colorizar a parte central do filme. Isso exigiu a ajuda de um historiador militar para identificar detalhes como cores de uniformes e botões de fardas. Além disso, membros da equipe foram a campos de batalha para conferir in loco detalhes de cenários.

O filme começa com filmagem em preto e branco do treinamento militar básico, indo assim até o momento em que os homens vão para a Frente Ocidental. É então que ocorre a transição para as cores. 

Será que com a mudança do branco e preto para o colorido Jackson tentou produzir um efeito dramático no estilo O Mágico de Oz? Não exatamente.

“Tudo teve a ver com o orçamento”, disse ele. Originalmente, o documentário era para ter meia hora. “O orçamento que tínhamos dava para colorir 30 a 40 minutos de filme”, disse o diretor . Mas, à medida que ele e a equipe ouviam as entrevistas, o que os veteranos diziam sobre o treinamento, surgiu a necessidade de um contexto mais amplo. Os realizadores não quiseram que o filme “saltasse diretamente para as trincheiras”. Entretanto, como o orçamento não ficou mais flexível, eles  optaram por um filme mais longo, com trechos em branco e preto envolvendo a parte central, colorizada.

A Stereo D converteu o filme para 3D para obter um efeito mais imersivo, a sensação de se estar no campo de batalha. E a Park Road aperfeiçoou com uma sonorização que rivaliza com a de O Senhor dos Anéis. No entanto, as explosões, tiros e motores de tanques não surpreendem tanto quanto quanto o momento em que os soldados falam.

“Contratamos especialistas forenses em leitura labial, categoria cuja existência eu até então ignorava”, disse Jackson. Esses peritos, que trabalham com a Justiça para descobrir o que dizem pessoas filmadas em câmeras de segurança, reviram os arquivos de filmagens para reconstruir, na medida possível, o que os soldados estavam dizendo. 

Dubladores foram contratados para falar no lugar dos soldados. Além disso, a equipe de Jackson, ciente de que os regimentos vinham de diferentes regiões da Grã-Bretanha, insistiram que os dubladores viessem das mesmas áreas e tivessem o sotaque correspondente. Na mesma linha, historiadores militares deduziram o que os oficiais que não apareciam nas filmagens discutiam ou ordenavam, e essas informações foram igualmente incorporadas ao filme. 

Mesmo com todas essas partes extras, e com horas de filmagem que dariam para contar uma dúzia de histórias diferentes, Jackson procurou manter seu filme na proposta original.

“Não quis mostrar um pouquinho de tudo”, disse ele. “Quis focar no tema básico e abordá-lo corretamente: a experiência de um soldado comum de infantaria na Frente Ocidental. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ       

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