Biblioteca Nacional
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'Como são charmants esses sauvages'

Foi com os franceses que tivemos a mais íntima ligação cultural. Até descobrirmos os americanos, nos anos 40

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 23h59

Se ainda fosse vivo, Zéfiro (ou Zéphir, como de gozação o chamavam, ou L?Immortel, como se autonominara) estaria decepcionado com os eventos do Ano da França no Brasil programados para Manaus: óperas francesas, mas sem franceses no palco; colóquios acadêmicos na UFM; talvez uma récita musical, daqui a algumas semanas, se Belém não se apoderar dela. O creme do creme, comme d?habitude, ficou com Rio e São Paulo. Pauvre Zéphir, que nos tristes tropiques amazonenses tanto suspirava por Paris e a cultura francesa.

Poeta de província, visceralmente francófilo como todos os intelectuais brasileiros formados no início do século passado, Zéfiro é uma figura de ficção, um patético fantasista inventado por Milton Hatoum à imagem e semelhança de centenas de beletristas brasileiros criados à sombra de Chateaubriand, Victor Hugo, Anatole France e Apollinaire. Protagonista de um dos contos de A Cidade Ilhada, orgulhoso de haver conhecido pessoalmente Henri Michaux quando o poeta passou por Manaus, em 1927, e levado Sartre e Simone de Beauvoir para comer um peixe na brasa com farofa num restaurante da cidade, três décadas mais tarde, Zéphir daria um braço (quiçá o direito, em homenagem ao poeta Blaise Cendrars) para ver de perto o show de pirotecnia que, na última terça-feira, abriu oficialmente os festejos do Ano da França no Brasil, na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio, e o que mais foi programado para os próximos sete meses.

Bien à propos essa festança tricolor, espalhada por todo o Brasil, pois até nos americanizarmos nos anos 1940, foi com a França e os franceses que mantivemos nossa mais duradoura, intensa e profícua ligação cultural e afetiva.

Antes mesmo da chegada de Villegaignon e dos piratas Duclerc e Du Guay Trouin, aríetes oficiais e autônomos de uma França Antártica repelida pelos portugueses, já viera até aqui Binot de Gonneville, o primeiro francês a pisar estas plagas, atraído pelo pau-brasil, só três anos depois da chegada de Cabral. Negociou diretamente com os nativos, em troca de bijuterias, encantou-se com as plumagens dos silvícolas e seu nudismo inocente e é possível que tenha despertado a atenção da aristocracia francesa para a graça éxotique de nossos indígenas, cujos descendentes participariam da primeira "missão cultural" brasileira na França 47 anos depois, no começo do reinado de Henrique II.

"Como são charmants esses sauvages", comentou uma duquesa, durante o espetáculo de danças, cânticos e pantomimas guerreiras que 50 tupinambás, parcialmente nus e pintados, fizeram na falsa floresta tropical improvisada às margens do Sena, em Rouen. Charmosos, sim; selvagens, não, objetou Montaigne. "Acho que não há nada de bárbaro nem de selvagem nessa nação, pois cada homem chama de barbárie o que não é do seu costume", ponderou o genial humanista. "No meio daqueles estão presentes virtudes muito vivas e vigorosas e propriedades úteis e naturais", acrescentou, descortinando a vereda epistemológica por onde Claude Lévi-Strauss abriria sua picada, quatro séculos mais tarde.

Ainda assim, os reis de França não desistiram de cristianizar nossos sauvages. A rainha Catarina de Médicis batizou a índia Paraguaçu, mulher de Caramuru. Em outra visita, o então rei de França, Carlos IX, perguntou a um de nossos índios o que estava achando dos europeus. Não gostou da resposta do tupinambá: "Não entendo por que os pobres não estrangulam os ricos senhores da corte". Se Montaigne abriu as portas para o estruturalismo e o multiculturalismo, coube a um indígena pau-brasil antecipar a raison d?être da Queda da Bastilha.

Se São Luís do Maranhão pode se gabar de ser uma cidade originalmente francesa (e daí, se o seu destino era cair e decair como um feudo dos Sarneys?), nenhuma outra capital brasileira tem tantas e tão remotas dívidas com a França quanto o Rio. Villegaignon ergueu seu povoado 12 anos antes de os portugueses estabelecerem seu domínio sobre a futura cidade de São Sebastião, cuja ascensão a metrópole de verdade, três séculos depois, muito se deveu ao expansionismo napoleônico, que para estas bandas enxotou a corte de D. João VI e sua bagagem civilizatória.

Quase nos metemos numa guerra com a França (por causa de nossas lagostas), já perdemos feio uma final de Copa do Mundo em Paris, tivemos de engolir calados o mau juízo que o general De Gaulle fazia de nossa falta de seriedade, mas passamos uma borracha em tudo isso. Na cabeça e no coração de todos nós, a França que conta e perdura é aquela que ajudou a arte brasileira a avançar várias décadas (com a Missão Francesa de 1816, com Taunay, Grandjean de Montigny, Debret), influenciou os nossos poetas românticos, inflamou a Inconfidência Mineira com as ideias subversivas dos enciclopedistas, fomentou nossos ideais republicanos (sem deixar de acolhar generosamente nosso último monarca), estimulou a proliferação de salões literários, o comércio de livros e a fundação da Academia Brasileira de Letras, modernizou o ensino universitário (notadamente na Faculdade de Filosofia da USP), e nestas paragens estabeleceu por uns tempos o compositor Darius Milhaud (adido cultural da legação chefiada pelo poeta Paul Claudel), Cendrars, Georges Bernanos, Lévi-Strauss, Roger Bastide, Michel Simon. E até Brigitte Bardot.

Se a iconografia do Brasil Colônia é quase uma exclusividade francesa, também a um gaulês devemos as primeiras imagens mecânicas de nossa terra e nossa gente. Atrás da primeira câmara fotográfica a enquadrar uma paisagem brasileira, em janeiro de 1840, estava o capelão de um navio-escola francês, l?Abbé Combes. Um ano é pouco para dar conta de toda a nossa dívida com os patrícios de Asterix.

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