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Como sempre, cão e gato

Visita de Obama a Medvedev e Putin não elimina o estoque de desconfianças acumuladas entre Rússia e EUA

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2009 | 23h42

"Neste momento, há um pouco de esperança e muita desconfiança", avaliou Vladimir Pozner, em seu talk show no Canal 1 de Moscou. Referia-se à opinião dos russos sobre os americanos depois do encontro de Obama com o presidentre Dimitri Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin, no início da semana. Nos últimos cinco anos, o índice de confiança dos russos nos americanos melhorou apenas seis pontos.

Se esses pontinhos foram acrescentados nos últimos cinco meses (detalhe omitido pela pesquisa), o "apenas" talvez seja um exagero. Mas 40% de desconfiados ainda é muito. Ou, quem sabe, o percentual adequado para um relacionamento com quase um século de hostilidades, arrufos e perfídias. Tudo começou no verão de 1918, durante a Guerra Civil que se seguiu à revolução bolchevique, quando tropas americanas invadiram a região norte da Rússia, não exatamente para ajudar o Exército Vermelho.

Na última sexta-feira fez 50 anos que o presidente Dwight Eisenhower finalmente convidou o primeiro-ministro Nikita Kruchev para uma conversa em território americano. Seria a primeira viagem de um cacique da União Soviética aos Estados Unidos. O segundo na hierarquia, Anastas Mikoyan, já estivera por lá, em janeiro de 1959, inaugurando uma longa temporada de contatos, afagos e bicadas, que atravessaria todo o ano, culminando com a visita de Kruchev, em setembro.

Mas não terminaria ali. O sucessor de Stalin ainda bateria com o sapato no pódio das Nações Unidas (o mais pitoresco episódio da Guerra Fria) e mediria forças com o sucessor de Eisenhower, John Kennedy, atrás do Muro de Berlim (erguido em agosto de 1961) e no Caribe (a crise dos mísseis que quase nos levou à guerra nuclear).

Se 1959 não foi, embora pudesse ter sido, um annus mirabilis no calendário da Guerra Fria, outro mais animado e folclórico não houvera, nem haveria. Os soviéticos abriram a temporada dando um susto nos americanos. Em 2 de janeiro, lançaram ao espaço o Lunik 1, primeiro objeto criado pelo homem a sair da órbita terrestre, passar pela Lua e circunavegar o Sol. Dois dias depois da façanha do Lunik 1, Mikoyan desembarcava em Nova York, "para 15 dias de férias". Chegou na hora certa, mas sem empáfia.

O "vice" de Kruchev deu um show de relações públicas, com discursos para operários e empresários, exortações à paz, ao fim da Guerra Fria e elogios ao padrão de vida americano. Cumprimentou populares nas ruas, circulou pela Macy?s, papou léguas de trem e carro, beijou a bochecha de Jerry Lewis, trocou dedos de prosa com Sophia Loren e uma garçonete. Com Eisenhower pouco parlamentou.

Sobriamente vestido, Mikoyan mais parecia um executivo europeu que um apparatchik vermelho. Mas não houve meio de o governo americano, radicalizado pelo paranoico anticomunismo do secretário de Estado John Foster Dulles, dar crédito às palavras do bolchevique de primeira hora, um dos raros sobreviventes dos expurgos stalinistas, façanha que já lhe valera uma capa da revista Time. Em Nova York, só imigrantes húngaros o hostilizaram com vaias e cartazes. Ainda estava bem vivo na memória de todos o que os soviéticos haviam feito na Hungria em 1956.

Entre o tour de Mikoyan e a vinda de Kruchev, outro episódio marcante da Guerra Fria: o duelo verbal de Kruchev e o vice de Eisenhower, Richard Nixon, numa feira de utilidades domésticas "made in USA", na praça Skolniki, em Moscou. O ponto alto da feira era uma cozinha último tipo, daquelas que só pareciam existir nos filmes de Hollywood. Depois de ciceronear Kruchev pelos estandes, Nixon se deteve diante da cozinha para que o premier soviético pudesse admirá-la e sobretudo invejá-la. Kruchev desdenhou-a: "Temos essas coisas...Vocês não superam a gente nisso... Nossos operários e camponeses também podem comprar casa de US$ 14 mil". Tinha início o que a imprensa registraria como "o debate da cozinha", a mais descontraída discussão em público sobre a superioridade do capitalismo sobre o comunismo, e vice-versa, reunindo dois graduados sparrings.

"Muitas das coisas em exibição são interessantes", continuou Kruchev, "mas não essenciais à vida. São meros equipamentos". Embora ajudado pelos objetos expostos, joias da moderna tecnologia americana, Nixon acabou engolido pelo desinibido, rude, belicoso e bem-humorado Kruchev. Inábil, o vice-presidente parecia "um agente imobiliário nervoso", na descrição de um jornalista presente ao debate - que no próximo dia 24 completa 50 anos. De qualquer modo, a feira deixou patente a superioridade tecnológica dos americanos.

Kruchev desembarcou nos Estados Unidos em 15 de setembro, a bordo de um Tupolev-114, o maior avião da época. Na véspera, a União Soviética lançara o segundo Lunik. No topo da agenda, a crise de Berlim, a corrida armamentista, a militarização da economia. Não deixaram Kruchev sair às ruas, nem visitar a Disneylândia, mas o levaram às filmagens do musical Can-Can, na Fox, onde confraterizou com Frank Sinatra, Shirley MacLaine, e bateu boca com o mandachuva do estúdio, Spyros Skouras.

Nem com um novo e mais pragmático secretário de Estado (Dulles morrera de câncer em maio) Eisenhower conseguiu livrar-se das pressões dos falcões. Fingiu dar importância às alegadas boas intenções de Kruchev, então o mais interessado no esfriamento das tensões, pois a economia soviética resfolegava e ele não tinha como peitar um confronto direto com os Estados Unidos.

O premiê propôs destruir todos os mísseis soviéticos, prometeu a retirada de 1 milhão de tropas do Leste Europeu e programou um encontro de cúpula com os quatro grandes (Grã-Bretanha e França eram os outros dois) para maio do ano seguinte, em Paris. Recém-enfartado, em fim de governo, com a base republicana em pandarecos, Eisenhower não estava à altura daquele privilegiado momento histórico. Às vésperas da cimeira parisiense, autorizou um voo de espionagem sobre o território soviético, e melou tudo.

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