Como sempre foi

Ao refluir para o rotineiro, nossa política gera os 'apolíticos defensivos', em vez de os 'positivamente críticos'

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2008 | 22h05

Há meses que barbeiros e taxistas desencadearam a campanha das eleições municipais de 2008, fazendo-a objeto de ceticismo e deboche. Desde o final de 2007, o taxista a que recorro, com freqüência, vem me relatando as manobras de crônicos candidatos que se aproximam do ponto de táxi, reatam fingida amizade, juram fidelidade aos eleitores na relação cara a cara, alardeiam feitos desconhecidos ou irrelevantes, beijam e abraçam. Na perspectiva popular, eleição acaba sendo como catapora, cíclica e invasiva. O "meu" taxista até recebeu pelo correio um chaveiro com o nome de um candidato de um lado e a chapa de seu táxi de outro, para que não se esqueça do nome e do número do dito cujo. Mostrava-o, ofendido aliás, em face da suposição do candidato de que seu voto decorre de uma consciência política de cabresto. "Meu" barbeiro de muitos anos, mais cético, até se antecipou à movimentação partidária adivinhando como seria abordado e em que termos. Foi ficando preocupado com a proximidade da estação da campanha eleitoral. Repete chavões que ouviu em eleições anteriores e se prepara para ouvir de novo. Bota todos os partidos e todos os políticos no mesmo saco da banalização, do desprezo pelo povo, da corrupção, do parasitismo, do oportunismo. Há meses está com o espírito preparado para enfrentar o assédio. Fecha o ouvido aos discursos repetitivos, fecha os olhos ao supostamente já visto, fecha a consciência à política propriamente dita. Porque não lhe deram a alternativa de ser positivamente crítico, tornou-se defensivamente apolítico, um eleitor pobre de horizontes, confinado no conformismo impotente dos que sabem que nada podem no cenário impolítico da nossa política. Pesquisa qualitativa recente sobre o perfil dos candidatos na cidade de São Paulo, sobre o estereótipo de cada um, indica o peculiar modo como a massa da população constrói a imagem da política e dos políticos e a partir dela, vota. Esses atributos fantasiosos, porque seletivos, funcionam como filtro de reforço ou deterioração da concepção que o eleitor comum tem de cada um dos políticos. Acusar, por isso, o eleitor de ignorante e despolitizado é injusto, num país de partidos políticos, eles sim, no geral, despolitizados e despolitizantes. No regime militar a parcela consciente do eleitorado ainda tinha a motivação de derrubar a ditadura, de transformar o País num país democrático, desenvolvido, socialmente justo. Se a alguns incomodam a violência, os cerceamentos, a censura, as prisões arbitrárias, de motivação política, a outros incomoda o mero fato de que as ditaduras são carrancudas e anticarnavalescas. A força dessa motivação acabou justamente em conseqüência da carnavalização da política e da alegria messiânica que a acompanha, a concepção de que, no voto, em vez de delegar obrigações abrimos mão de nossos direitos políticos. O voto na nossa cultura política é uma renúncia.A política brasileira refluiu para o rotineiro, quebrado nos surtos eleitorais, num cenário em que aparentemente o País já não tem metas de inovação política, as eleições como mera e enfadonha obrigação de manter os mesmos políticos no poder ou, quando muito, substituí-los por suas cópias. Muitos votam ansiosos pela calmaria do dia seguinte, dos intervalos entre eleições, do dever falsamente cumprido no país do voto obrigatório, em que a política acaba se reduzindo à caricatura do deputado orgulhosamente corrupto, o dinheiro caindo do bolso, num programa semanal de televisão. Antes da eleição e depois da eleição tudo parece sugerir que o papel do político é o de servir para a galhofa, a política como comédia. A verdadeira política não tem visibilidade no Brasil nem os verdadeiros políticos a tem, a não ser excepcionalmente. O deformado filtro da cultura popular seleciona fatos e ocorrências da fragmentária crônica política que lhe chega ao acaso e com eles constrói a consciência política desse precário cidadão. Partidos e governos poderiam contribuir para quebrar o círculo vicioso dessa concepção despolitizante da política e do poder se não fossem fortes as sobrevivências da complexa trama de relações da tradição da dominação patrimonial e da cultura da troca de favores em que a política tem sido a moeda corrente. Nosso atraso político se regenera mesmo na ascensão política dos que, supostamente oriundos de outras matrizes sociais e históricas, cresceram respaldados pela ilusão a todos imposta de que, finalmente, 120 anos depois da proclamação da República, torna-se efetiva a República que nos reconheceria a todos como iguais e cidadãos. No entanto, o que se vê é o poder de regeneração do atraso. Os recém-chegados são capturados pela trama desse republicanismo de fachada que se materializa na lógica de que é preciso tudo mudar para que tudo fique como estava, como no esclarecimento de Tancredi ao tio estarrecido com seu adesismo ao triunfo inevitável da casa de Savóia na unificação da Itália, em O Leopardo, de Lampedusa. É verdade que o municipalismo brasileiro, berço do nosso republicanismo e, contraditoriamente, berço do que o paulista Pedro Taques, no século 18, denominava de "pais da pátria", tende a reduzir o País às necessidades conservadoras da ordem política arcaica, na fragmentação da vontade política do povo, na superposição de estruturas políticas desencontradas e tão diversas entre si como a do município, das províncias e do Estado nacional. Desencontro que responde por nossos intervalos ditatoriais e, na paz da democracia de fachada, pelo triunfo dos interesses locais e das artimanhas do localismo primário e suas metas de conveniência, como a do poder pelo poder. A farra da distribuição de verbas para azeitar as possibilidades de aliados, da liberação de recursos para obras de impacto visual, a política social de aliciamento de consciências nos 15% de domicílios que recebem doações financeiras do governo, as múltiplas políticas de pseudofavorecimento dos pobres, tudo dá razão ao barbeiro e ao taxista. *José de Souza Martins é titular de Sociologia na USP e autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto)

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