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Como serão os concursos de miss após o banimento dos maiôs?

As mulheres desfilarão apenas em traje de gala nos concursos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2018 | 16h00

Primeiro aboliram o fiu-fiu. Assobiar para as moças virou assédio. No início do mês, aboliram o biquíni nos concursos de miss. Doravante as candidatas a rainhas da beleza só irão desfilar em traje de gala. As pressões do #MeToo finalmente alcançaram as passarelas. Outro revés para o voyeurismo masculino, mais um ponto para a militância feminista.

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As medidas anatômicas (no busto, na cintura e nas coxas, nos quadris e nos tornozelos) serão bem menos rígidas. As idades limites (entre 18 e 27 anos) continuam inalteradas, assim como certas exigências supostamente pétreas: as candidatas têm de ser solteiras, virgens, e próximas ao máximo do padrão virtuoso de garbo e recato aqui difundido e monitorado pela Maria Augusta da Socila, mestra e bedel das misses de antigamente. 

Não esperem grandes transformações no concurso, só na aparência convertido aos préstimos da beleza interior. A rigor, apenas as pernas de fora foram abolidas. As misses terão de evoluir por conta própria antes de pisarem a passarela. Por algum tempo a maioria delas continuará respondendo com platitudes aquelas perguntas a que o júri as submete durante o desfile, sobre “temas da atualidade” e “cultura geral”. A única diferença é que agora os chavões vestem Prada; ou seja, as misses andam falando muito em “ícone”, “emblemático” e “empoderamento”. 

Mas ainda falta muito para que alguma delas revele, sem mentir, que seu livro preferido não é “O Pequeno Príncipe”, e sim “A Montanha Mágica”.

Gretchen Carlson, atual diretora da Miss America Organization, já nem chama o concurso de concurso, mas de “competição”, pois o vê quase como um SAT (o ENEM americano) instantâneo, com bolsas de estudo no cartel de premiações. Ela tem um discurso pronto contra a supervalorização dos atributos físicos nas competições do passado: “Estamos passando por uma revolução cultural em nosso país. As mulheres tomaram coragem para erguer sua voz e se fazerem ouvidas.” E tome “empoderamento”. 

Experiência no ramo não lhe falta. Ex-miss, Carlson trabalhou na Fox News, onde foi a primeira a denunciar os assédios sexuais do patrão Roger Ailes, que acabou demitido da emissora. Mas talvez esteja perdendo seu tempo na tentativa de salvar uma excrescência do século passado, que ainda mais desprestigiada ficou depois que Donald Trump se meteu naquele business. A objetificação da mulher nos certames de miss não cessa com a mera suspensão dos desfiles de maiô ou biquíni. O ideal, para as feministas hardcore, seria a abolição pura e simples de todos os concursos de miss. 

Difícil, quase impossível, que isso aconteça num futuro próximo. Evento marqueteiro desde o berço, o Miss Universo—inspiração e apogeu de uma infinidade de concursos similares—é a Copa do Mundo anual da pulcritude feminina. São muitos os interesses em jogo. Os da indústria da beleza não se limitam à produção de cosméticos ou de trajes de banho, como a fábrica de maiôs Catalina, que até 1996 mandou, soberana, nos desfiles. 

A implicante colunista do New York Times Bari Weiss lamentou há dias a resiliência dos padrões de beleza impostos pelo Miss Universo e seus epígonos (Miss Mundo, Miss Terra, Beleza Internacional etc), os males que o ajuste forçado a esses padrões, mediante dietas, remédios e ginásticas exaustivas, podem causar à saúde física e psíquica, e passou um sabão nas mulheres que criticam a “ideologia” do concurso mas continuam escravizadas a academias de ginástica, cirurgias plásticas e cremes pretensamente rejuvenescedores. 

Ao saber do relaxamento nas medidas das moças, lembrei-me de imediato de Martha Rocha e seu legendário segundo lugar no Miss Universo de 1954. Com duas polegadas além do “ideal” nos quadris, a belíssima baiana de corpo violão perdeu o título para uma desenxabida americana chamada Miriam Stevenson. Foi uma comoção nacional, mais sentida que a derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo da Suíca, no mesmo ano. 

Hoje Martha talvez tivesse ficado com o manto, o cetro e a coroa. Mas seu triunfo, embora merecidíssimo, não causaria o mesmo impacto. O polêmico segundo lugar fez dela uma deusa injustiçada, um totem nacional. Conseguimos, nas décadas seguintes, eleger duas Miss Universo, além de uma Miss Mundo e uma Miss Beleza Internacional. Nenhuma, porém, alcançou o status mítico da baiana de 1954. 

Adulada em toda parte, Martha virou nome de torta, modelo de uma picape Chevrolet (com duas polegadas de distância entre os dois eixos), e foi recepcionada na volta de Long Beach—que luxo!—com duas marchinhas, uma do trio Wilson Batista, Jorge de Castro e Américo Seixas (“Todo o Brasil se ufana junto do seu pedestal, e te oferece, ó baiana, a coroa da beleza universal”) e outra, melhor, saborosa, exaltando suas ancas, composta por Pedro Caetano, Alcyr Pires Vermelho e Carlos Renato. 

A segunda começava assim: “Por duas polegadas a mais/passaram a baiana pra trás/Por duas polegadas/ logo nos quadris/Tem dó, tem dó, seu juiz.” E terminava assim: “Martha! Martha!/ não ligue mais pra isso não/Martha! Martha!/ninguém tem o seu violão.”

O mais curioso dessa história é que ela era fake. Não a marchinha, o seu leitmotiv. O repórter João Martins, da revista O Cruzeiro, que dois anos antes fantasiara uma rocambolesca aventura a bordo de um disco voador em trânsito pela Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, inventou o caso das duas polegadas excedentes e logrou vender a lenda inclusive à própria dona dos prodigiosos quadris, que até hoje a repete, fordianamente, como se fosse verdade.

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