Muhammad Shahrizal/The New York Times
Muhammad Shahrizal/The New York Times

Como uma disputa filosófica medieval está na raiz do terrorismo contemporâneo

Livro 'A Mentalidade Muçulmana', de Robert R. Reilly, busca a origem do radicalismo islâmico em uma cisão teológica, mas falha ao tentar compreender Islã pela via da razão

Martim Vasques da Cunha*, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2020 | 16h00

Em 2020, a peste substituiu o terror. É a conclusão a que se chega quando percebemos que, no último dia 11 de setembro, dezenove anos depois de um dos maiores atentados já ocorridos em qualquer país do Ocidente (no caso, os EUA), somente ocorreram menções burocráticas, seja da parte dos governantes ou dos jornalistas e dos influenciadores, a respeito de um evento histórico que ceifou a vida de quase 4 mil pessoas. Isso seria impensável em 2010, quando as cicatrizes da queda do World Trade Center ainda doíam no povo americano, o mesmo ano em que o professor de Relações Internacionais Robert R. Reilly lançou A Mentalidade Muçulmana – As Raízes da Crise Islâmica, agora disponível nas livrarias brasileiras. 

Inspirado em seus estudos tomistas, com uma pitada polêmica a lá Allan Bloom, Reilly tem uma tese perturbadora para quem acompanha a discussão sobre o assunto: para ele, o Islã viveu um suicídio intelectual, cujas consequências devastadoras chegam ao terrorismo moderno defendido pela Al-Qaeda e pelo Estado Islâmico, mas também abordam problemas mais amplos e profundos. Tudo começaria com aquilo que seria a sua primeira grande controversa teológica, entre os mutazalitas e seus adversários, os asharitas, ocorrida nos séculos 10 e 11, na qual os primeiros voltaram as suas costas ao pensamento filosófico, influenciado pela Grécia antiga, e refugiaram-se no dogma da fé que não permitiria mais a discussão racional. Graças ao gênio de al-Ghazali (c. 1058-1111), os asharitas venceram a batalha das ideias ao abandonarem a dinâmica entre a fé e a razão, apagando os mutazalitas na história do Islã e assim encontraram refúgio na unidade mística com Alá. 

Tanto Reilly como o filósofo Roger Scruton (que escreveu o prefácio de A Mentalidade Muçulmana) concluem que esse “ataque à filosofia” levou o Islã a adotar a “posição oficial de que nenhuma nova interpretação da lei poderia ser buscada, e que aquilo que parecia certo no Cairo do século XII há de parecer certo hoje”. Assim, Scruton – também autor de um livro sobre os dilemas entre o Ocidente e o Oriente, intitulado The West and The Rest – se pergunta: “Será, então, de se surpreender caso ninguém consiga encontrar um modo claro de conciliar a sharia [a lei islâmica] com os fatos da vida e do governo modernos?”

O suicídio intelectual perpetrado pelos asharitas seria o início deste impasse sangrento entre uma sociedade tradicional e a modernidade que tanto idolatramos. A princípio, o argumento de Reilly parece fazer sentido. Estão aí os atentados terroristas que continuam a acontecer para mostrar que ele estaria certo, como prova o que ocorreu no último 16 de outubro, em Paris, quando o professor de História Samuel Paty foi decapitado publicamente por um muçulmano checheno chamado Abdullakh Anzorov. Quinze dias depois, três pessoas foram esfaqueadas (uma delas era brasileira) em frente à basílica de Notre Dame, na cidade de Nice, por um homem que, segundo testemunhas, gritava “Allahu Akbar!” (Deus é grande, em árabe). 

Com tudo isso em mente, é importante observar que o problema da tese do americano é que ela só tem eficácia se for vista a partir de termos puramente ocidentais, e não a partir dos termos propostos pela própria religião muçulmana.

Poucos não se dão conta, mas o 11 de setembro aprofundou um cisma de incomensurabilidade já existente entre as mentalidades islâmica e ocidental. Não é mais uma questão de comparar uma com a outra, alegando o bom e velho “choque das civilizações”, para citar o clássico de Samuel Huntington. Para Reilly, é quase impossível se ter um diálogo entre as duas perspectivas, especialmente porque, segundo a sua visão, a primeira rejeitou completamente o uso da razão humana – o que dificultaria, por exemplo, o entendimento a respeito de mecanismos políticos que nos são caros, como a liberdade de expressão e o sistema democrático.

Contudo, isso faz sentido somente para nós, não para os muçulmanos. Isso não significa que eles são incapazes de perceber as benesses da democracia liberal. Muito pelo contrário: muitos imigraram para os EUA e os países europeus, até para praticarem a sua jihad global com mais facilidade, justamente porque perceberam as suas vantagens, talvez mais do que nós, ocidentais privilegiados. Mas Reilly insiste no seu rumo equivocado: ao privilegiar a razão como o fundamento de qualquer análise filosófica, ele cai na mesma armadilha do mesmo fenômeno histórico que, por coincidência, também prejudicou a compreensão adequada do Ocidente em relação a si mesmo. Estamos falando, é claro, da vitória do secularismo, acentuada pelo surgimento da escola filosófica iluminista.

Apesar de ser mais conhecido pelo seu ramo francês, o Iluminismo também influenciou, com nuances, os pensamentos alemão, britânico e americano – neste caso em particular o ramo liberal-conservador (inegavelmente defendido por Reilly e Scruton). Porém, a raiz de todas essas vertentes é a predominância da lei da razão como a maneira adequada de se analisar e resolver problemas sociais complexos. Se, por um lado, isso deu notável avanço técnico às nossas pretensões de dominar o mundo, por outro nos impediu de perceber que há outros níveis da realidade os quais continuavam a existir – entre eles, o espiritual. O secularismo fez de tudo para destruir essa nossa percepção – e sua primeira consequência é a absoluta cegueira sobre o que significa uma sociedade tradicional.

O Islã é justamente este tipo de sociedade – e a batalha entre os mutazalitas e os asharitas descrita por Reilly foi o ponto de inflexão para que ele se fortalecesse ainda mais neste tipo de visão de mundo. Na prática, isso significa que Deus (ou Alá) é o início e o fim de tudo o que existe na terra. Mas essa unidade não existe no vácuo social, como quer explicar Reilly; há toda uma circunstância histórica e prática para que al-Ghazali vencesse no seu discurso, ao contrário do que aconteceu com Avicena e Averróis, dois mutazalitas que se transformaram mártires dos nossos secularistas, como se fossem livres-pensadores avant la lettre. No caso, a vitória de al-Ghazali se deve a uma “síntese do legalismo e da mística”, segundo o scholar Rémi Brague (um católico insuspeito, por sinal), sendo que ele procurava resolver o impasse provocado por um califado inerte e uma população prestes a cair na desobediência das leis sagradas. Segundo o asharita, a especulação racional somente aprofundava o caos político. Portanto, a solução seria se voltar para uma “competência do coração”, na qual esse órgão levaria “em consideração pequenos sinais para os quais o julgamento da razão é estreito demais”. A beatitude e a harmonia coletiva com Alá só seria alcançada por meio do entendimento do amor que se tem pelo deus que orientaria a vida interior do fiel.

Uma vez que Reilly privilegia a razão, e não o coração, como a bússola para se entender o mundo, temos aqui um enigma que parece insolúvel: desde quando a mística pode ser útil para apaziguar o terror, em especial no mundo já tomado de vez pelo secularismo? Infelizmente, o americano apenas faz o seu diagnóstico, e mal consegue dar uma resposta eficaz sobre esse ponto, exceto aprofundar a cisão entre as civilizações. E, séculos depois da reviravolta sedimentada por al-Ghazali, tudo leva a crer que o coração do ser humano também não ganha muita vantagem nas relações internacionais e pessoais, seja no Ocidente, seja na atual mentalidade muçulmana que nos perturba tanto, contaminada pelo jihadismo ideológico das doutrinas marxistas e capitalistas (e ambas mais responsáveis pelo terrorismo de um Osama Bin Laden do que as reflexões de um al-Ghazali). No fundo, por causa do intenso desejo de sermos somente racionais, criou-se, em ambos os lados, uma lei da desrazão – e, com isso, jamais conseguiremos compreender o que é o horror, qual será a próxima peste surgida dele e o que é a nossa própria humanidade, o único (e esquecido) fundamento passível de unir o Islã e o resto de um planeta incapaz de entender o outro.

É AUTOR DE ‘O CONTÁGIO DA MENTIRA’ (EDITORA ÂYINÉ, 2020)

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