Como vai se comportar o tigre?

Trecho do livro 'Adam Smith em Pequim', de Giovanni Arrighi, a ser lançado em maio no Brasil

O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2008 | 22h12

Numa conversa recente com John J. Mearsheimer*, Zbigniew Brzezinski** fez uma avaliação da "ascensão pacífica" da China que lembra muito a de Kissinger. "Claramente, a China está sendo assimilada pelo sistema internacional. Seus líderes parecem perceber que tentar desalojar os Estados Unidos seria inútil e a disseminação cautelosa da influência chinesa é o caminho mais seguro para a predominância global." Contra essa avaliação, Mearsheimer reiterou a opinião de que "a China não pode crescer pacificamente". Caso seu fabuloso crescimento econômico continue nas próximas décadas, "é provável que os Estados Unidos e a China se envolvam numa intensa competição pela segurança, com considerável potencial de guerra. Provavelmente a maioria dos vizinhos da China, como Índia, Japão, Cingapura, Coréia do Sul, Rússia e Vietnã, se unirá aos Estados Unidos para restringir o poder chinês". Essas opiniões contrastantes refletem diferenças de método. Mearsheimer privilegia a teoria em vez da realidade política, porque "não podemos saber como será a realidade política em 2025". A teoria da ascensão das grandes potências, por outro lado, pode nos dizer o que esperar "quando a China tiver um produto nacional bruto bem maior e suas Forças Armadas forem muito superiores às de hoje". Sua teoria tem uma "resposta simples e direta" sobre o que esperar: a China tentará "expulsar os Estados Unidos da Ásia, mais ou menos como os Estados Unidos expulsaram as grandes potências européias do Hemisfério Ocidental"; e os Estados Unidos "buscarão conter a China e por fim enfraquecê-la a ponto de ela não ser mais capaz de dominar a Ásia, (comportando-se) diante da China mais ou menos como se comportaram diante da União soviética durante a Guerra Fria". Brzezinski, ao contrário, privilegia a realidade política em vez da teoria, porque "a teoria, ao menos nas relações internacionais, é essencialmente retrospectiva. Quando acontece alguma coisa que não se encaixa na teoria, ela é revista". Ele suspeita que ocorrerá o mesmo na relação entre Estados Unidos e China. De um lado, as armas nucleares alteraram a política do poder. O fato de se ter evitado o conflito direto no impasse americano-soviético "deveu-se muito ao armamento, que torna a eliminação total das sociedades parte da dinâmica crescente da guerra. Diz muito o fato de os chineses não terem tentado adquirir capacidade militar para atacar os Estados Unidos". De outro lado, o modo como as grandes potências se comportam não é predeterminado. "Se os alemães e japoneses não tivessem se comportado daquele modo, seus regimes talvez não tivessem sido destruídos." Nesse aspecto, "os líderes chineses parecem muito mais flexíveis e sofisticados do que muitos aspirantes anteriores à condição de grande potência". Há muito a dizer sobre os dois métodos. O que acontece no "curto prazo" de uma ou duas décadas é determinado por uma série de fatos contingentes e aleatórios que, de um ponto de vista mais distante, como explicou Mearsheimer, "são diluídos da equação" por tendências subjacentes mais duráveis. A menos que tenhamos uma teoria apta a identificar e explicar essas tendências mais duráveis, nós nos perderemos tentando imaginar o que acontecerá quando a poeira dos fatos contingentes e aleatórios assentar. Entretanto, as tendências subjacentes duráveis não são imutáveis nem inelutáveis; e fatos contingentes e aleatórios não são mera "poeira". Em termos ideais, a teoria da sociedade e da política mundial deveria ser capaz de explicar as mudanças, assim como a continuidade, do comportamento e das interações mútuas dos atores principais; deveria permitir o aprendizado, se não pela própria teoria, ao menos pelas experiências históricas que a teoria tenta descrever e explicar; e deveria também especificar as condições nas quais os fatos contingentes e aleatórios, em vez de se "diluírem", podem abalar as tendências estabelecidas e facilitar o surgimento de novas. Não é tarefa fácil. Mas, para ser útil, a teoria das relações entre grandes potências dominantes e emergentes precisa atender a pelo menos duas exigências: tem de se basear nas experiências históricas mais concernentes ao problema estudado e precisa prever a possibilidade do rompimento com as tendências subjacentes. Se o problema da opinião de Brzezinski é que ela não tem fundamento teórico, o problema da de Mearsheimer é que ela exclui todo e qualquer desvio do resultado previsto (ou seja, o confronto militar) e tem como base fundamentos totalmente inadequados. Mearsheimer subestima o papel que os mercados e o capital desempenharam historicamente como instrumento de poder por direito próprio. Ele vê o contínuo crescimento econômico da China como condição de sua transformação final em grande potência apta a desafiar militarmente os Estados Unidos. Mas, em seu esquema, somente a conversão do poder econômico no tipo de poder militar que hoje se concentra nas mãos dos Estados Unidos pode transformar a China numa verdadeira grande potência. Se os chineses forem espertos, eles se concentrarão no fortalecimento de sua economia até que ela se torne maior que a economia norte-americana. Então, poderão traduzir essa força econômica em poderio militar e estabelecer uma situação em que estejam em condições de ditar os termos aos Estados da região e criar todo tipo de problema para os Estados Unidos. A grande vantagem que os Estados Unidos têm agora é que não há nenhum Estado no Hemisfério Ocidental que seja capaz de ameaçar nem seus interesses de sobrevivência nem os de segurança. Assim, eles estão livres para percorrer o mundo e criar problemas no quintal alheio. Outros Estados, inclusive a China, é claro, têm o interesse oculto em criar problemas no quintal dos Estados Unidos para que estes tenham de concentrar sua atenção ali. A possibilidade de que seja mais "esperto" por parte dos chineses continuar usando a rápida expansão de seu mercado interno e da riqueza nacional como instrumentos de poder regional e global (como já vêm fazendo, enquanto o supostamente todo-poderoso aparato militar norte-americano está atolado no Iraque) é descartada com bases históricas enganosas. Ao desdenhar a tese de Brzezinski de que o desejo chinês de crescimento econômico constante torna improvável o conflito com os Estados Unidos, Mearsheimer argumenta que "essa lógica deveria ter sido aplicada à Alemanha antes da 1ª Guerra Mundial e à Alemanha e ao Japão antes da segunda". No entanto, apesar de seu "impressionante crescimento econômico", a Alemanha deu início a ambas as guerras mundiais e o Japão começou o conflito na Ásia. Na verdade, nem a Alemanha antes da 1ª Guerra nem a Alemanha e o Japão antes da segunda tiveram tanto sucesso econômico assim. Tiveram, sim, grande sucesso industrial, mas, em termos de riqueza nacional, mal conseguiram reduzir a diferença de renda per capita que os separava da Grã-Bretanha e estavam atrás dos Estados Unidos. O recurso à guerra pode ser interpretado, na verdade, como tentativa de obter por meios militares o poder que não conseguiam obter por meios econômicos. Os Estados Unidos, por sua vez, não tiveram necessidade de desafiar militarmente a Grã-Bretanha para consolidar seu crescente poder econômico. Tudo que precisaram fazer foi, em primeiro lugar, deixar a Grã-Bretanha e seus contendores se esgotarem em termos militares e financeiros; em segundo lugar, enriquecer com o fornecimento de bens e de crédito ao contendor mais rico; e, em terceiro lugar, intervir na guerra em fase tardia, para ter condições de ditar os termos da paz e facilitar o exercício de seu próprio poder econômico na maior escala geográfica possível. Hoje, não há potência militar em surgimento com tendência ou capacidade para desafiar a potência dominante. Contudo, a potência dominante está envolvida numa guerra sem desfecho previsível que visa a demonstrar o que evidentemente não pode ser demonstrado, ou seja, que ela pode impor ao mundo seus interesses e valores com base no poder destrutivo de suas Forças Armadas. Nessas circunstâncias, a melhor estratégia de poder da China diante dos Estados Unidos não poderia ser uma variante da estratégia norte-americana anterior diante da Grã-Bretanha? Não seria do máximo interesse da China, em primeiro lugar, deixar os Estados Unidos se exaurirem em termos militares e financeiros numa guerra interminável ao terror; em segundo lugar, enriquecer com o fornecimento de bens e de crédito a uma superpotência norte-americana cada vez mais incoerente; e, em terceiro lugar, usar a expansão de seu mercado nacional e de sua riqueza para conquistar aliados (inclusive algumas grandes empresas norte-americanas) na criação de uma nova ordem mundial centrada na China, mas não necessariamente militarmente dominada por ela? A incapacidade de Mearsheimer de ao menos pensar nessa possibilidade faz parte da tendência geral de as análises norte-americanas sobre as conseqüências futuras da ascensão da China se concentrarem exclusivamente em casos de relações competitivas, e não cooperativas, entre as grandes potências dominantes e emergentes. assim, a relação sino-americana contemporânea costuma ser comparada à relação da Alemanha com a Grã-Bretanha no fim do século 19 e início do 20, com a relação entre o Japão e os Estados Unidos no entreguerras ou com as relações soviético-americanas depois da 2ª Guerra Mundial. É surpreendente que a maioria dos observadores norte-americanos deixe de lado a comparação que parece ser a mais relevante, ou seja, aquela entre as relações sino-americanas de hoje e as relações entre a potência hegemônica dominante do fim do século 19 e início do 20 (o Reino Unido) e a potência emergente mais bem-sucedida, na época, em termos econômicos (os Estados Unidos). Essa foi uma relação que evoluiu da profunda hostilidade mútua para a cooperação cada vez mais íntima, exatamente quando os Estados Unidos começaram a questionar regional e globalmente a hegemonia britânica. Se já aconteceu antes, por que não pode acontecer novamente? A teoria que não responde a essa pergunta e prevê que os Estados Unidos e a China rumam inevitavelmente para o confronto militar daqui a duas ou três décadas pode ser pior até do que nenhuma teoria. Essa avaliação se justifica principalmente diante do fato de que a teoria de Mearsheimer (assim como as posições de Kaplan e de Pinkerton) deixa totalmente de lado a experiência histórica do sistema interestatal nativo da Ásia oriental. O principal objetivo deste capítulo é mostrar que não só a China (como observou Kissinger), como também todo o sistema de relações interestatais da Ásia Oriental vêm se caracterizando por uma dinâmica de longo prazo que contrasta intensamente com a dinâmica ocidental na qual se baseia a teoria de Mearsheimer. Essa dinâmica diferente resultou na amplamente reconhecida primazia chinesa na formação do Estado e da economia nacional durante o século 18 e no início do 19. Mas também criou condições para a posterior incorporação subordinada do sistema da Ásia Oriental à estrutura do sistema europeu globalizante. Essa incorporação subordinada transformou, mas não destruiu, o sistema regional preexistente de relações internacionais. E, mais importante, contribuiu também para a transformação contínua do próprio sistema ocidental incorporador. O resultado foi uma formação político-econômica híbrida, que criou um ambiente especialmente favorável para o renascimento econômico da Ásia Oriental, e a conseqüente transformação do mundo para além do que as teorias com base na experiência ocidental são capazes de compreender. *Professor de ciências políticas na Universidade de Chicago**Cientista político, foi assessor de Segurança Nacional do presidente americano Jimmy Carter

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