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AP - 18/12/1931
AP - 18/12/1931

Como viviam as mulheres do alto escalão do regime nazista

Historiador James Wyllie investiga, em livro, as vidas das mulheres que estiveram ao lado de Hitler, Goebbels, Goering e outros líderes do Terceiro Reich

Marianne Szegedy-Maszak, Especial para The Washington Post

15 de janeiro de 2021 | 05h00

Quem de nós não sentiu aquela emoção maliciosa ao pensar: “Como ela pôde casar com ele?” Ao mesmo tempo voyeurista e superior, a pergunta pressupõe que a mulher seja perfeitamente bela, charmosa também, enquanto o marido – graças à simulação, arrogância, opiniões ofensivas ou falta de inibição social apropriada – é intensamente repulsivo. O mistério de todo casamento se torna mais misterioso ainda quando as falhas de caráter de uma metade do casal são muito desproporcionais à aparente retidão da outra. O que os uniu? Por que ela continua ali? Será que ele é realmente uma pessoa diferente e mais atraente do que aquela que está falando com a boca cheia de comida?

Desse modo, o mero título do novo livro de James Wyllie, Nazi Wives: The Woman at the Top of Hitler’s Germany (Esposas Nazistas: As Mulheres no Topo da Alemanha de Hitler, em tradução livre), promete uma deliciosa oportunidade para responder a algumas dessas perguntas mais íntimas sobre um grupo de figuras influentes no cânone da monstruosidade masculina. Elas são tão conhecidas que os seus sobrenomes bastam para  nos lembrarem dos males da era hitlerista: Goebbels, o ministro da propaganda; Goering, comandante da Luftwaffe e o segundo nazista mais poderoso, Heydrich, chefe da Gestapo e arquiteto da “solução final”; Himmler, o chefe da SS e implementador do Holocausto; Hess, vice-líder; e Bormann, secretário particular de Hitler. Todas elas tinham uma competência específica nos horrores, e todas elas estavam comprometidas com Adolf Hitler e os valores antissemitas, racistas, xenofóbicos e totalitários do seu regime. Vendo a dinâmica de suas vidas de casadas, será que podemos aprender algo a respeito destes homens – suas motivações, seus ciúmes mesquinhos, sua humanidade confusa e repugnante – que possa pôr luz  em tudo o que fizeram?


Durante anos, o papel das mulheres na Alemanha nazista foi eclipsado pela preocupação com as ações de homens eminentes. Então, como Wyllie observou, feministas acadêmicas dos anos 80 começaram a examinar este mundo. Em seu livro, Hitler’s Furies: German Women in the Nazi Killing Fields (finalista do National Book Award de 2013), Wendy Lower observou: “O consenso nos estudos sobre o Holocausto e o genocídio mostra que os sistemas que possibilitam os assassinatos em massa não funcionariam sem a ampla participação da sociedade, e no entanto quase todas as histórias do Holocausto deixam de fora a metade dos que povoaram essa sociedade, como se a história das mulheres acontecesse em algum outro lugar”. Lower analisou as mulheres na retaguarda, as esposas de alguns dos chefes dos campos, e as mulheres que trabalharam como agentes voluntárias do regime.


Se estas mulheres foram abelhas operárias, Wyllie, escritora, roteirista e radialista inglesa, se concentrou nas rainhas. As mulheres que de várias maneiras competiram pela atenção de Hitler na personificação do ideal do belo da feminilidade no Reich: fecundas, subservientes mas plenamente satisfeitas, competindo pela admiração do Führer. Pontos extras se tivessem senso de humor. Ilse Hess, que infelizmente tinha um marido que cometeu o erro de ser capturado na Escócia em 1941 por causa de uma missão diplomática fracassada e passou a sua vida preso, descreveria “quanto Hitler gostava de uma boa risada; não provocada por piadas, Hitler fazia imitações e gostava particularmente de ouvir uma história engraçada bem contada, desde que não se referisse a ele”. Nós não ficamos sabendo de nada disso nas histórias aprendidas a respeito da Segunda Guerra Mundial.


Apesar da notória solteirice de Hitler (até seu casamento apressado antes do suicídio, com Eva Braun), sua liderança exigia que ele fosse casado, jamais divorciado e tivesse muitos filhos. Magda Goebbels durante muitos anos gabou o título de “primeira dama do Reich” por sua beleza loira e pelos seis filhos loiros e lindos que teve com o seu marido esperto e reiteradamente infiel, o ministro da propaganda nazista. Wyllie descreve o seu desejo digno até certo ponto de obter um divórcio sem estardalhaço enquanto o marido estava envolvido em mais um romance tórrido, e o seu sofrimento genuíno quando lhe foi negado. Em um gesto de lealdade final, ou desespero, os pais envenenaram os seis filhos no dia 1° de maio de 1945, antes de eles também se envenenarem.


Hermann Goering ficou viúvo em 1931, quando a sua amada esposa sueca, sempre adoentada, Carin, morreu de ataque cardíaco. Mas a presença de Carin ao longo de todo o seu casamento seguinte com a atriz Emmy Sonnemann pareceu algo mais próximo de um ménage à trois. O seu nome foi afixado à casa e aos seus iates; os seus retratos foram pendurados em lugar de destaque. Entretanto, Emmy, com sua beleza, talento e espírito, podia ignorar a sua antecessora pois desfrutava das incríveis riquezas com que era presenteada pelo marido predador: várias propriedades, castelos, joias caríssimas, e coisa mais notável, uma impressionante coleção de obras de arte acumulada nas várias conquistas do Reich e de colecionadores judeus enviados para os campos. Logo, ela se tornou mais uma favorita  de Hitler, servindo de anfitriã em muitas funções oficiais e além disso, outra “primeira dama do Reich”,


Sua autoconfiança de atriz dramática, combinada com sua existência mimada, tornou-a um pouco arrogante demais e condescendente em relação a Eva Braun, que desprezava particularmente. Eva, sempre leal, emocionalmente instável, e extremamente imatura, entrou e saiu rapidamente das vidas de várias das esposas, construindo alianças e quebrando outras. Hitler, que claramente tinha coisas mais importantes com que se preocupar do que com as queixas da amante, enviou a Goering uma dura nota exigindo que sua esposa tratasse Eva com mais respeito. Depois disso, Emmy perdeu a sua posição no círculo íntimo de Hitler, mas compensada por sua posição de esposa de um dos homens mais poderosos  e certamente um dos mais ricos da Europa.


Goering e Carin nunca tinham filhos, e a sexualidade dele nunca se equiparou à robusta promiscuidade de Joseph Goebbels e de Reinhard Heydrich. Como Wyllie escreve: “A vida sexual de Emmy e de Goering já tinha dado origem a várias piadas sobre a noite do casamento, em particular sobre  o seu desempenho no quarto (por exemplo, que Emmy parou de ir à igreja depois da lua de mel porque perdeu a fé na ressurreição da carne).” Finalmente, tiveram uma filha, Edda, e Goering comemorou o evento com uma esquadrilha de 500 aviões sobrevoando Berlim em sua honra. (Edda morreu em 2018, ainda leal ao pai.)


Wyllie reconhece que grande parte do material de referência “precisa ser tratado com cautela”. Mas ele conta suas histórias com uma combinação estimulante de sabedoria e uma abordagem quase cinematográfica – o que não surpreende, considerando o seu outro trabalho – tecendo uma narrativa convincente. Enquanto o bombardeio da Grã-Bretanha, a campanha russa, o Holocausto, o indizível sofrimento infligido à humanidade por estas pessoas se desenrolava como uma catástrofe internacional, Wyllie mostra as mesquinhas competições, os momentos de sadismo doméstico, o espantoso engano e as vidas diárias dos responsáveis por ele. Como no episódio mais banal de “Real Housewives”, vemos os grupos de dentro e os de fora se estabelecerem. Margaret Himmler, corpulenta e determinada, e Lina Heydrich, carente de uma estatura pública ou de um carisma particular, nunca foram incluídas no que Wyllie descreve como a “camarilha de Berghof”. E assim elas envolveram os próprios maridos. Há algo que nos deixa pasmos em imaginar Heinrich Himmler, o homem que criou a eficiência brutal da máquina do extermínio nazista, censurar  o seu colega na SS Heydrich, pelo comportamento de sua esposa.


“Embora elas não tenham sido cúmplices das decisões cotidianas dos seus maridos”, escreve Wyllie, “a evidência da sua obra assassina estava em toda parte: a arte saqueada nas paredes; os móveis feitos com pele e ossos humanos escondidos no sótão; a fruta e os legumes das hortas dos campos de concentração locais; o trabalho escravo do manejo da sua terra”. No final, ficamos pensando que a questão de como foi possível que ela casasse com ele talvez não seja a pergunta certa. Ao contrário, lembro do que Samuel Butler certa vez escreveu sobre o casamento de Jane e Thomas Carlyle: “Foi muito bom para Deus deixar que Carlyle e sua esposa casassem, porque dessa maneira são apenas duas pessoas infelizes e não quatro”.


*Szegedy-Maszak escreveu o livro I Kiss Your Hands Many Times: Hearts, Souls, and Wars in Hungary e é diretora de operações editoriais da Mother Jones (revista investigativa independente)

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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