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Comparação entre traduções de 'Ulisses' revela machismo na obra

A tradução de Bernardina Pinheiro ficou eclipsada pelas de Antonio Houaiss e de Caetano Galindo por ter sido assinada por uma mulher

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

09 Junho 2018 | 16h00

No dia 16 de junho, mais uma vez, ao redor do mundo, festeja-se o Dia de Bloom, ou Bloomsday, uma homenagem a Leopold Bloom, protagonista do romance Ulisses (1922), de James Joyce, cuja história transcorre nesse dia. Embora Ulisses remeta ao herói mítico, o protagonista de Joyce não é um herói, mas um homem comum que angaria anúncios para um jornal e passa quase 24 horas perambulando por Dublin. Se o enredo parece trivial, o mesmo não se pode dizer da linguagem poética usada por Joyce.

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Considera-se uma proeza traduzir a obra. Mas, no Brasil, temos três traduções integrais de Ulisses. A primeira, de 1966, é de autoria de Antonio Houaiss; a segunda, de 2005, de Bernardina Pinheiro; e a terceira, de 2012, de Caetano Galindo.

Um fato curioso sobre a recepção dessas traduções é que Houaiss não ganhou o Prêmio Jabuti, nem poderia, porque, na época, não existia a categoria tradução. Em 2006, Bernardina ficou em terceiro lugar na mesma premiação, atrás das traduções assinadas por dois homens. Em 2013, a tradução de Galindo venceu não só o Jabuti como também outras premiações em território nacional. 

O fato é que Bernardina parece uma tradutora à sombra dos outros dois. Boa parte dos críticos costuma afirmar que ela “enfraqueceu” o romance, tornou-o coloquial demais. Entretanto, lembra Ivo Barroso, sério e competente leitor e tradutor, que o coloquialismo usado por Bernardina “procura estar a passo com o linguajar atual”. Há, isso é certo, nas três traduções brasileiras, ganhos e perdas; todas têm momentos inspiradíssimos e momentos em que os tradutores ficaram tímidos diante da força das imagens joycianas. 

É difícil avaliar objetivamente, entre inúmeras possibilidades de tradução de um texto, qual é a melhor. Veja-se o seguinte fragmento de Ulisses

“Expect the chief consumes the parts of honour. Ought to be tough from exercise. His wives in a row to watch the effect. There was a right royal old nigger. Who ate or something the somethings of the reverend Mr MacTrigger”. 

“É de esperar que ao chefe caibam as partes honrosas. Deve estar acostumado com a prática. As suas mulheres a postos para ver o efeito. Era uma vez um muito real negro velho. Que comeu algo dos algos do reverendo senhor Mac Trigger”. (Antonio Houaiss)

“Espera-se que o chefe consuma as partes mais honrosas. Devem ser duras devido ao exercício. As mulheres dele em fila para observar o efeito. Havia um velho negro real. Que comeu ou coisou as coisas do reverendo Sr. MacTrigger”. (Bernardina Pinheiro)

“Imagino que o chefe consuma as partes principais. Deve ser dura por causa dos exercícios. As esposas dele enfileiradas para observar o efeito. Havia um negro, senhor. Que comeu , patati, patatá do reverendo pastor.” (Caetano Galindo)

As três traduções se encontram, à primeira vista, no mesmo patamar de qualidade. A escolha de uma em detrimento da outra é mais uma questão de gosto ou de simpatia pelo tradutor. Se quisermos precisão absoluta, teremos que ler o romance em inglês. A tradução é sempre uma miragem, ou seja, o texto de partida está e não está lá.

Talvez, na história da recepção de Ulisses no Brasil, a versão de Bernardina tenha ficado em terceiro plano pelo fato de ter sido assinada por uma mulher. Sua tradução, aliás, diferentemente das outras duas em português, é a única que vem acompanhada de exaustivas notas, que compravam a sua erudição e o seu conhecimento do livro. 

Ulisses é considerado um livro machista. Nele, os homens tomam as decisões, são eles que exploram a cidade, que decidem o que será lido e discutido; afinal, são eles que trabalham na redação do jornal descrita por Joyce no sétimo capítulo. As mulheres, quando aparecem, servem para desencaminhá-los; ou para divagarem sem sair do lugar, como Molly Bloom, que passa o dia na cama. 

Quando o livro fala de mulheres, é para lembrar que são facilmente esquecidas, como Anne Hathaway, mulher de Shakespeare: “Parece que nos esquecemos dela como Shakespeare ele próprio a esqueceu” (Bernardina). 

O pouco entusiasmo pela tradução de Bernardina leva a pensar que, talvez, ainda vivemos no mundo descrito por Joyce em Ulisses. As redações dos jornais, o mundo das letras, das artes, etc. ainda estão repletos de Myles Crawford, J. J. O’Molly, O’Madden Burke, e são eles que continuam decidindo, na grande maioria das vezes, sobre o que se vai falar e destacar (com frequência, o trabalho dos homens).

No Dia de Bloom, que bem poderia ser o dia de Molly Bloom, colocar em cena novamente a tradução da Bernardina Pinheiro é como tirar Molly da cama, sem precisar, obviamente, envenenar ninguém, como o fez a “Sra. Maybrick que envenenou o marido para quê eu me pergunto ” (Bernardina).    

Eventos do Bloomsday pelo Brasil:

Casa Guilherme de Almeida – SP

Palestras de Maria Teresa Quirino, sexta (15), 19h, e Amara Moira, sábado (16), 15h. R. Cardoso de Almeida, 1943.

Universidade Federal Fluminense – RJ 

Palestras de Barry Tumelty e Dirce Waltrick do Amarante. Quarta (13), às 14h30. Campus Gragoatá. R. Prof. Marcos Waldemar de Freitas Reis, Niterói.

Fundação Cultural Badesc – SC

Leitura de textos, oficinas, performances e exibição de ‘Bloom’. A partir de 15h. R. Visc. de Ouro Preto, 216.

*Dirce Waltrick do Amarante traduziu e organizou, entre outros, 'Finnegans Wake (Por um Fio)', de James Joyce 

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