Jodi Hilton/The New York Times
Jodi Hilton/The New York Times

'Competição para lucrar com vacinas é ultrajante', diz Noam Chomsky

Filósofo e linguista americano publica no Brasil livro em que externa preocupação com a extinção humana por guerra nuclear ou mudança climática

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2020 | 16h00

Um dos mais longevos e prolíficos intelectuais do mundo hoje em dia é o linguista e filósofo norte-americano Noam Chomsky. Nascido em 1928, ele escreveu seu primeiro ensaio– sobre a ascensão do fascismo após a derrocada catalã na Guerra Civil Espanhola – com apenas dez anos de idade e, desde então, vem produzindo consistentemente. Seu mais recente livro, Internacionalismo ou Extinção, é fruto de uma palestra proferida em outubro de 2016, às vésperas da eleição presidencial dos EUA, e conta com um prefácio em que Chomsky discorre sobre os desdobramentos provenientes da pandemia do novo coronavírus. 

Para o pensador, apesar da gravidade da atual situação, as reais ameaças para a humanidade, reiteradas diversas vezes ao longo da obra, são outras: nuclear e ambiental. Após sete décadas de crítica aos armamentos nucleares, Chomsky reitera ao longo do livro que a cooperação internacional é imprescindível se quisermos mitigar a possibilidade de um conflito nuclear. Do mesmo modo, quanto às mudanças climáticas, ele afirma: “Sempre foi evidente que quaisquer medidas eficazes para conter a ameaça de catástrofe ambiental teriam que ser tomadas em âmbito global”.

Apesar do cenário desolador para o qual Chomsky alerta, o filósofo pode ser considerado um otimista. Na palestra, ao ser questionado, ele dá o segredo para se manter firme diante dessa situação: “É fácil: simplesmente pense na alternativa. Suponha que um indivíduo desanime e deixe as coisas acontecerem… Como o mundo vai ficar?” É com esse espírito combativo e sem rendição que o autor segue por todo o discurso, transcrito em um livro curto e impactante.

Em isolamento social, Chomsky respondeu às seguintes questões do Estadão:

No livro, o senhor fala brevemente sobre conversar com quem se discorda. O que se vê atualmente é que as pessoas estão cada vez mais relutantes a ouvir o “outro lado”, seja lá quem ele for. Como podemos restaurar o diálogo na sociedade?

Nós temos que encontrar as raízes desse problema e tratar delas. Está acontecendo um grave colapso na ordem social durante o período neoliberal, deliberadamente. Margaret Thatcher reconhecidamente declarou que não há sociedade, apenas indivíduos cuidando de si próprios em isolamento. Reagan ecoou o mesmo discurso, e seus seguidores buscaram políticas que levaram a ainda mais isolamento e atomização, também criando um “precariado” de pessoas com pouca seguridade ou estabilidade. É claro que lideranças políticas não inventaram essas ideias. Na verdade, Thatcher, inconscientemente, estava parafraseando Marx, que condenou os tiranos autocráticos da Europa de sua época por querer transformar a sociedade em um “saco de batatas”, indivíduos isolados que são vulneráveis e fáceis de controlar. Hoje, tudo isso a serviço de poderes corporativos que dominam amplamente a sociedade e enriqueceram graças às medidas implementadas por seus servos no sistema político.

Com o intuito de conquistar algo politicamente, é necessário formar alianças com quem pode ter ideais diferentes (no Brasil, isso fica ainda mais claro, tendo em vista que temos mais de 30 partidos políticos). O quão distante de seus próprio ideais é seguro ir em busca de alianças para salvar a democracia?

Não há como dar uma resposta genérica. Depende de circunstâncias e metas específicas. 

Poderíamos ter uma resposta melhor à crise do coronavírus no mundo se tivéssemos uma cooperação entre países mais consistente?

Sem dúvida. Esta é uma crise global, sem fronteiras, e deveria ser enfrentada dessa maneira. Pegue as vacinas, por exemplo. Competição para produzir — e lucrar com — uma vacina é ultrajante. Deveria haver esforços em comum, e o que é descoberto deveria ser um recurso público, como a vacina de Salk para a poliomielite. A China, na verdade, propôs isso, e garantiu que tornaria qualquer vacina produzida por cientistas chineses livremente disponível para o mundo. Em contraste, as ricas sociedades ocidentais estão planejando agora monopolizar qualquer coisa que possam para si mesmas. Nós veremos como isso vai se desenrolar. O mesmo deveria valer para outras áreas. É vergonhoso que quando a Itália estava sofrendo severamente com a pandemia, ela não recebeu auxílio dos países ricos ao seu norte.

O que mudará, se algo, após a pandemia?

Cabe a nós determinar. Há forças trabalhando por objetivos muito diversos. A pandemia, como outras crises com as quais nos deparamos, tem profundas raízes em instituições de poder, em particular na ordem neoliberal que foi imposta pelos últimos 40 anos pelo poder privado e pelos governos que servem aos seus interesses. Eles estão trabalhando duro para garantir que o que emergirá será uma versão mais austera e autoritária do que eles criaram. Forças populares por todo o mundo estão tendo dificuldades para superar a crise e criar uma ordem social mais livre e justa. Quem vai prevalecer é uma questão de ação, não de especulação. 

Como podemos defender a democracia em um mundo tão repleto de desinformação?

O único meio que conhecemos: educação, organização, ações apropriadas às circunstâncias. 

Seu livro manifesta várias vezes a preocupação com uma ameaça nuclear. O quão próximos o senhor acredita que estejamos de um conflito nuclear acontecer no mundo?

A ameaça é real e crescente, particularmente enquanto Trump rasga o regime de controle de armamentos que ofereceu alguma proteção pelos últimos anos. Essa é a principal razão pela qual o famoso Relógio do Juízo Final foi mudado em janeiro para marcar segundos em vez de minutos. Está agora apontando para cem segundos para meia-noite: extinção. É por isso que analistas sóbrios e com ampla experiência em questões nucleares, como o ex-secretário de Defesa dos EUA William Perry alertou que a atual ameaça é maior do que durante a Guerra Fria, acrescentando que ele está “assustado” tanto pela escala da ameaça quanto pela falha geral em reconhecê-la.

O senhor está confiante de que possa haver um governo mundial funcional em algum tempo no futuro? 

Já é difícil o suficiente conquistar alguma medida de cooperação entre as unidades nacionais e os centros de poder que as dominam. Sem um progresso significativo nessa direção, a experiência humana chegará a um fim inglório — e não em um futuro distante. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.