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Comuna de Paris completa 150 anos

Ela foi a réplica da arraia-miúda à revolução burguesa de 1789, que alguns confundem com as agitações sociais de 20 anos antes

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

03 de abril de 2021 | 16h00

O delegado do Dops quis saber se eu era comunista. “Não”, respondi. “Gostaria de ter sido communard”, complementei. O beleguim, apesar de visivelmente desconcertado pelo complemento, não deu o braço a torcer, e foi dormir sem perguntar e muito menos saber o que diabos eu queria dizer com “comu...comunar”. Se mais instruído e safo, teria perguntado: “E por que não foi isso aí?” Ao que eu responderia: “Porque não tinha idade.” 

Não tinha mesmo. Um século então nos separavam, a mim e ao delegado, da insurreição dos communards parisienses, em 1871, a cujo sesquicentenário, rolando até o dia 28 de maio, nossa mídia não tem dispensado a devida atenção. 

Pois é, os franceses brindando ao aniversário da mais espetacular rebelião popular europeia do século 19 e os militares daqui encanados em mais um aniversário da maior desgraça por eles infligidas ao País no século passado: o golpe de 64, que, aliás, o novo ministro da Defesa prefere chamar de “movimento”, eufemismo combinado entre seus pares para maquiar a história. 

Maquiar, perdão, é outro eufemismo; a palavra certa é falsificar. 

Sou velho entusiasta da Comuna de Paris, que foi a réplica da arraia-miúda à revolução burguesa de 1789. Alguns a confundem com as agitações sociais de 20 anos antes, celebrizadas por Marx (O 18 Brumário de Luís Bonaparte) e Flaubert (A Educação Sentimental). Compreende-se. A sarrafusca de 1848-51 foi uma espécie de trailer ou ensaio geral do que explodiria em 18 de março de 1871. 

Lembrei-me da Comuna de Paris ao ler que, na manhã do último dia 23, motoboys e motoristas de aplicativo, autoidentificados como “Frente Povo Sem Medo”, interditaram as avenidas João Dias e Marginal Tietê, na capital paulista, exigindo auxílio emergencial decente, vacinas já e o fim da barbárie imposta ao Brasil por Bolsonaro.

Povo sem medo e decidido era o parisiense. Melhor dito, a classe operária de Paris da segunda metade do século passado. Derrubaram o governo, ocuparam durante 72 dias a cidade previamente evacuada, e implantaram o primeiro autogoverno de caráter proletário e popular, em plena ascensão do capitalismo e floração dos ideais socialistas. Derrotado na guerra contra a Prússia e com tropas de ocupação rufando tambores por todo canto, o caótico Estado francês caiu nas mãos de trabalhadores e camponeses, as classes sociais mais a perigo, sempre, daquela vez apoiadas por setores da burguesia insatisfeitos com o governo de fachada de Napoleão 3º.

Sem medo, a frente popular impôs uma série de medidas de tremer as bases de qualquer república. De cara, adotou novamente o calendário revolucionário implantado em 1793 e abolido em 1805. (Por ele, os parisienses estariam agora em pleno germinal, não na primavera). Separada do Estado, a Igreja deixou de ser subvencionada pelo erário. Espólios sem herdeiros passaram a ser confiscados pelo Tesouro. 

Tem mais: a pena de morte foi abolida, assim como o serviço militar obrigatório, dissolveu-se o exército regular, instituiu-se a igualdade entre os sexos, extinguiu-se o trabalho noturno. Residências vazias foram desapropriadas e reocupadas, e em cada residência oficial foi instalado um comitê para organizar a ocupação de moradias. 

Ainda não acabou. Todas as finanças foram reorganizadas, incluindo os correios, a assistência pública e os telégrafos. A educação tornou-se gratuita, secular e compulsória. Além de revitalizar o ensino noturno, a Comuna adotou turmas mistas em todas as escolas e duplicou o salário dos professores. 

Todos os descontos nos salários foram abolidos e a jornada de trabalho reduzida, mas não às oito horas por muitos pleiteadas. Os artistas passaram a autogerenciar os teatros e editoras. Oficinas que estavam fechadas foram reabertas para instalação de cooperativas.

Casamentos, testamentos, adoções e a contratação de advogados deixaram de ser cobrados. O monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários também viraram letra morta, e o cargo de juiz tornou-se eletivo. 

Qualquer estrangeiro podia fazer parte da Comuna, com igualdade de direitos. Nela havia belgas, italianos, húngaros, poloneses, e outros mais, da Europa e do resto do mundo, teria atraído se tivesse durado mais tempo ou se consolidado como um Estado permanente. 

Por que o utópico regime da Comuna não vingou? Por inexperiência dos communards, que nem tiveram tempo de estendê-lo e testá-lo no resto da França, e por erros em questões estratégicas envolvendo a proteção da cidade contra as tropas de Adolf Thiers, comandante do poder estabelecido, em seguida reforçadas por pelotões prussianos. O imaginário ocupou-se menos da Comuna do que se podia esperar. Os personagens da novela Bola de Sebo, de Guy de Maupassant, filmada algumas vezes e que até um western (No Tempo das Diligências) inspirou, não fugiam de Paris e seus communards, mas de Rouen e das tropas invasoras. De todo modo, Maupassant retrata à perfeição os burgueses que, na mesma época, se escafederam da capital francesa, com medo da plebe empoderada. 

O russo Ilya Ehrenburg escreveu um romance ambientado na Comuna, O Cachimbo do Communard, que também virou filme, na Rússia. Os russos sempre foram, et pour cause, fascinados pela Comuna de Paris. A dupla Grigori Kozintsev-Leonid Trauberg dirigiu um dos dois melhores filmes sobre a Comuna, A Nova Babilônia (1929). O outro é La Commune (Paris, 1871), do inglês Peter Watkins. 

Curiosamente, o personagem egresso da Comuna e em fuga dos prussianos mais conhecido do cinema ainda é a mestre-cuca Babette, que se exilou e deu bem numa cozinha da Dinamarca.

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