Lauren Field/The New York Times
Lauren Field/The New York Times

Comunidade queer vive à parte da sociedade no interior dos EUA

Em algum lugar de Washington, eles decidiram fundar uma utopia independente do Estado

Molly Walls, The New York Times

20 Janeiro 2018 | 16h00

PENÍNSULA OLÍMPICA – Washington – Em uma área da Península Olímpica, que se estende pela costa noroeste de Washington, uma comunidade decidiu viver independente do fornecimento público de água, energia elétrica e outros serviços dos quais muitos moradores dependem. Ligados por uma rede difusa de amigos em que a terra é compartilhada, seria impossível para eles ali se instalarem sem conhecer intimamente o local. Florestas densas cobrem suas moradias – pequenas cabanas, trailers, barcos que servem de casa em terra firme – muitas vezes  acessíveis apenas por estradas enlameadas ou trilhas.

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Água e neblina cercam a península, com o Oceano Pacífico a oeste, o estreito de Juan de Fuca ao norte e o Canal Hood a leste. A comunidade que ali reside ressalta a importância do meio ambiente para sua subsistência. Não só extraem a água para lavar os pratos e tomar banho do riacho na colina, mas muitos se sustentam trabalhando como agricultores, pescadores e jardineiros.

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Embora todos os membros da comunidade se conheçam, eles moram distantes um do outro – em habitações algumas compartilhadas, outras individuais. Alguns se consideram de esquerda ou anarquistas, mas não há nenhuma ideologia explícita governando os moradores do local. Mas eles seguem regras não escritas para um espaço que é compartilhado emocional e fisicamente.

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Segundo Chris Gang, 30 anos, “isso equivale a dizer que você pode urinar onde quiser e a qualquer hora. O que significa que  você não sente vergonha do que ocorre com seu corpo, que existem partes do seu corpo que supostamente deveriam ser privadas”. O banheiro, à plena vista da casa principal, ilustra sua afirmação (embora exista uma porta para os que preferem mais privacidade).

Chris, que tem uma testa enorme que faz contraponto com o cabelo branco, acredita que essa resistência à vergonha do corpo se harmoniza com a longa história de comunidades projetadas e planejadas em torno de uma visão social, de valores e interesses coletivos.

Maxfield Koontz, 28, fazendeiro e artista fabricante de cestos, gay, também menciona a história, rechaçando a ideia equivocada de que “rural” e gay são identidades incompatíveis. Koontz é adepto do movimento Radical Faeries,  organização de contracultura fundada por Harry Hay nos anos 1970. O movimento defendia a formação de santuários gays em zonas rurais, muitos dos quais ainda existem.

Ezra Goetzen, 35 anos, namorado de Koontz, vive em uma pequena casa, em uma encosta com vista para um vale exuberante.  Psicoterapeuta transgênero, ele divide seu tempo entre a minúscula cabana e a casa de família em Seattle. Ele nasceu na Polônia e se expressa muito bem para alguém que aprendeu o inglês como segunda língua. Goetzen disse que o que faz com que as pessoas continuem em busca de um estilo de vida autossuficiente é “a vida extremamente estéril, realmente puritana”. As pessoas acham, disse ele, que “ficarão doentes só de ver um contêiner de compostagem”.

Para muitos, a decisão de abandonar aquele tipo de vida nasceu da necessidade econômica: as áreas urbanas se tornaram inabitáveis, ao passo que os recursos e o número de pessoas que podem ter acesso a eles tem diminuído.

A chegada de pessoas ricas de Seattle e outros lugares à Península  criou uma crise de habitação para os moradores que não podem se permitir comprar a terra que os tem sustentado. Essa desigualdade afeta também os que vivem uma vida convencional, como Lex Helbling, 29 anos, agricultora que foi forçada a desistir de um acordo de compra da área alugada da sua fazenda feito com o proprietário das terras.

“O dinheiro é muito poderoso. Dinheiro, poder e classe influíram na decisão do proprietário. E as pessoas  pensam em uma fazenda como a que viram numa embalagem de leite – bela, com a grama verde,  um lugar ensolarado o tempo todo”, disse ela.

Durante a duração do chamado Fields’ Project, a falibilidade da descrição do “desconectado da rede” ficou aparente. Além do fato de as pessoas envolvidas terem acesso limitado a vários suprimentos de água e energia, a frase sugere um abandono total da sociedade e uma vida de isolamento.

Emmy Maday, 31 anos, pelo contrário enfatizou as formas intensas, e até ásperas de intimidade que viver dessa maneira implica: “É divertido porque muitas pessoas acham que viver no campo é algo totalmente isolado, e muitas vezes eu me sinto tragada e excessivamente empolgada com o número de pessoas nessas casinhas”.

Outros falam dos sistemas de privilégio que permitem a eles viver deste modo. Goetzen admitiu que existe uma negação do  genocídio indígena inerente em alguns movimentos emigratórios modernos: “é importante notar o que as tribos nativas fizeram aqui antes, que elas ainda estão aqui, que estamos construindo essa semi-utopia em terras colonizadas, habitadas”.

Oito tribos reconhecidas pelo governo federal residem na península, relegadas a estreitas faixas de terra marcadas como reservas, na região oeste. Os vestígios da violência colonial estão sinalizados: exploradores ocidentais renomearam vários pontos de referência com versões em inglês dos nomes indígenas tradicionais.

Sacha Kozlov, 35 anos, é ferreiro e vive em uma pequena cabana que construiu, isolada com peles de animais. Ele contou como cresceu dentro de um grupo religioso na zona rural de Montana. Durante sua juventude os líderes do grupo pregavam o mito da Atlântica, submersa no oceano quando sua população cortejou a homossexualidade. Seus primeiros anos como um garoto transgênero ignorante do fato, ele revela hoje a crueldade da alegoria, a ameaça que está no âmago de qualquer “semi-utopia”.

“Utopia vem do grego “ou-topos”, ou “lugar que não existe”. Ela promete um paraíso perdido, definido pela não existência. Muitas das pessoas fotografadas no Field’s Project enfatizavam a natureza temporária de viver desta maneira, que tem algo a ver com liberdade, permite a construção de utopias efêmeras, lugares que não existem, desaparecem logo em seguida. / Tradução de Terezinha Martino

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