'Confesso que errei'

Na política ou no futebol, seria bom se exemplos de honestidade na hora do erro fossem seguidos com mais frequência

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 22h44

Enquanto os corintianos exultavam com a recuperação e os gols de Ronaldo, no Pacaembu, domingo passado, o primeiro jogo da final do Campeonato Carioca oferecia, no Maracanã, um dos momentos mais chocantes e, com perdão da palavra, emblemáticos do atual futebol brasileiro, tão amesquinhado por faltas, passes errados, mutretas, narcisismo e dunguices.

Aos 8 minutos do segundo tempo de Botafogo x Flamengo, com 2 x 1 no placar a favor do primeiro, o lateral-esquerdo Juan levou um drible desconcertante do meia-armador alvinegro Maicosuel e baixou-lhe o sarrafo. Não satisfeito, debruçou-se sobre as costas do adversário estatelado no gramado e, de dedo em riste, ameaçou-o de agressão caso ele voltasse a "desrespeitá-lo" com outro drible igual àquele. O árbitro Rodrigo Sá, que faz pose de rigoroso distribuindo cartões amarelos e vermelhos a granel em todas as partidas que apita, deveria ter expulsado Juan, mas não o fez.

E Juan, o que deveria ter feito?

Uns acham que ele deveria ter saído de fininho e procurado esfriar a cabeça. Outros, que deveria ter ajudado Maicosuel a se levantar e pedido desculpas pela falta. Se Juan fosse um gentleman como Mimi Sodré, o legendário craque alvinegro do início do século passado, teria dito ao árbitro: "Desculpe, seu juiz, eu perdi a cabeça e mereço ser expulso". E, se o árbitro expulsasse Juan, Maicosuel deveria escoltá-lo carinhosamente até o vestiário do Flamengo, como Garrincha fez com Dalmo, lateral-esquerdo do Santos, expulso por uma série de botinadas no ponteiro alvinegro, num memorável Botafogo x Santos, no Pacaembu, na década de 60.

Incapaz de fingir e mentir, Mimi Sodré jamais catimbou uma jogada. Se achava que uma falta assinalada a seu favor pelo árbitro não procedia, era o primeiro a contestá-la, como se fosse um Salomão de chuteiras - sempre polidamente. Num jogo do escrete militar do Brasil contra a seleção chilena, parou uma jogada na cara do gol adversário, acusando um toque de mão que ele cometera e ninguém percebera.

Vez por outra me lembro das histórias de Mimi Sodré. E não apenas motivado pelas baixarias do futebol. Na segunda-feira, o correspondente do Washington Post em Moscou, Philip P. Pan, me apresentou a um Mimi Sodré da política. É o meu mais novo herói político. Vale a pena guardar seu nome: Anton Chumachenko. Anton, como Tchekov; Chumachenko, como... procurem outro da mesma estirpe no Google. Duvido que o encontrem.

Eleito vereador por um distrito de São Petersburgo, Chumachenko exigiu que anulassem o pleito por suspeitar de fraude na contagem dos votos. Candidato pelo partido de Vladimir Putin, Rússia Unida, e disputando pela primeira vez um cargo eletivo, Chumachenko, de 23 anos, rejeitou a eleição por conta própria, literalmente (pelos seus cálculos, ficara em sexto lugar), algo inimaginável em qualquer lugar, ainda mais na Rússia que tem um dos mais corruptos sistemas eleitorais do planeta. "Esse tipo de vitória eu recuso. Não quero começar minha carreira política desrespeitando cinicamente o direito, as leis e a moralidade", explicou-se o exemplar candidato, que por estas bandas seria considerado louco e possivelmente confinado a um hospício, sob aplauso entusiástico do PMDB e outros partidos da boquinha.

Mas voltemos ao mundo do Mimi Sodré original. Mais especificamente ao jogo de domingo passado. À exceção de uns poucos cínicos, flamenguistas fanáticos e jogadores com mentalidade corporativista, a seara esportiva reagiu à altura, condenando o comportamento do lateral-esquerdo rubro-negro e a incongruente leniência do árbitro. "Um gesto lamentável, de figura humana pequena", arrematou o comentarista de O Globo Fernando Calazans, depois de insinuar que o sempre nervosinho e estouvado Juan, o Tintin da Gávea (mas só por causa do penteado), deve ter horror "a quem sabe jogar essa história de futebol".

Juan até que sabe; mas não aprecia quem sabe mais do que ele, como é o caso do Maicosuel, que está "sobrando" no Botafogo (e é uma lástima que, contundido, esteja fora da final de hoje à tarde), no futebol carioca e, mesmo, no futebol brasileiro.

Um dos raros defensores de Juan foi um seu colega de time, o volante Willians, que confessou haver advertido Maicosuel para "não fazer aquilo" (isto é, dar dribles desconcertantes nos jogadores do Flamengo), por considerá-los um "desrespeito" ao adversário. Desrespeito? E Williams com ene, o que é?

OK, Maicosuel também é um desrespeito a todos os Maxwells, mas o jogador alvinegro, pelo que vem jogando, por suas fintas e seus gols, pode ter o nome que bem entender. Nome ou apelido a gente impõe. Garrincha não impôs o dele?

Por falar em Garrincha, seu forte era justamente aplicar dribles desconcertantes, então apenas considerados, na pior das estimativas, humilhantes e desmoralizantes, jamais ofensivos ou atentatórios à "honra" do adversário, como certos brucutus, acometidos da Síndrome do Corno Uxoricida, passaram a qualificá-los depois que o polêmico "drible da foca", aplicado pelo meia Kerlon, do Cruzeiro, no lateral Coelho, do Atlético Mineiro, há quase dois anos, em má hora instaurou entre nós o "futebolisticamente correto".

Não podemos permitir que estigmatizem o drible como futebolisticamente incorreto. O drible é a essência do espetáculo futebolístico, o triunfo do darwinismo do bem nos estádios e nos campos de peladas, a mais poderosa arma dos craques brasileiros. Quem sabe, dribla. Quem não sabe, faz falta. Mas só os covardes apelam, simultaneamente, para a falta, a violência e a coação.

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