FOTOMONTAGEM: Danilo Freire/AE
FOTOMONTAGEM: Danilo Freire/AE

Confissões de adolescentes

Acossados por bullying, jovens de diversos países encontraram uma janela para compartilhar segredos, histórias e angústias suicidas: o YouTube

JULIANA SAYURI, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h08

Sem palavras. Às vezes ficamos assim, simplesmente sem palavras, diante de dramas que nos fazem pensar que a grama verde do vizinho pode esconder uma casa comum, uma sala de estar tradicional, uma cozinha modulada - e um adolescente inebriado por pensamentos suicidas no quarto ao lado. Poderia ser a história de um jovem solitário em metrópoles como Melbourne, Nova York, Rio. E de outros em cidades esquecidas como Lake Forest, na Califórnia, e Port Coquitlam, na Colúmbia Britânica. Na verdade, o endereço nem é tão importante, pois esses adolescentes angustiados instituíram um novo confessionário desterritorializado para narrar seus segredos e temores: o YouTube. Nesses depoimentos íntimos, como que destinados a um "querido diário" de outros tempos, meninos e meninas compartilham histórias de bullying em narrativas tristes e silenciosas - literalmente sem dizer uma palavra.

Uma dessas histórias conquistou mais de 7 milhões de voyeurs nessa semana. Era o depoimento de Amanda Todd, uma canadense de 15 anos encontrada enforcada no dia 10 de outubro na sua casa em Port Coquitlam. No vídeo My Story: Struggling, Bullying, Suicide, Self Harm, postado no dia 7 de setembro, com 73 cartazes mostrados ao longo de 8 minutos e 55 segundos, Amanda contou como uma cheerleader do Vancouver All Stars se transformou em um poço de ansiedade, depressão e síndrome do pânico: aos 12, na sétima série, ela fez um topless na webcam a pedido de um desconhecido em um chat. As fotografias logo vazaram para amigos e familiares e, um ano depois, o estranho voltou a persegui-la - dessa vez, no Facebook. Ali, Amanda se tornou alvo de brincadeirinhas perversas, chacotas, humilhações violentas, intimidações e provocações cruéis. Em uma palavra: bullying.

No mundo "real", a garota foi espancada por 50 estudantes na saída do colégio. Tragou cândida, teve overdoses, tentou cortar os pulsos. Não satisfeitos, muitos alunos voltaram ao Facebook para trolar a menina: "O mundo seria melhor sem você. Por que não tenta um alvejante de outra marca?", dizia um recado impiedoso. Amanda mudou de escola diversas vezes, tentou recomeçar e fazer novas amizades, mas não adiantou. "Todo dia penso: por que ainda estou aqui?", questiona num dos pôsteres mostrados no filme. "Não tenho ninguém. Preciso de alguém =( Meu nome é Amanda Todd", desliza o último cartaz, como um bilhete de despedida. Amanda vivia com a mãe em Port Coquitlam, enquanto o pai mora a 15 km de distância, em Maple Ridge. "Ela queria deixar um legado com esse vídeo", disse o pai, Norm Todd, desolado, ao Vancouver Sun.

Meus segredos

Amanda não foi a primeira jovem a postar um depoimento assim. Eles pipocam no YouTube com rubricas como Confession Cards, My Secrets e My Story desde 2010, talvez 2009. São relatos melancólicos - uns melodramáticos, outros singelos, muitos em preto e branco - filmados amadoramente por adolescentes, que se expressam apenas por pequenos pôsteres, escritos à mão ao estilo de Bob Dylan em Subterranean Homesick Blues, mas com coraçõezinhos, emoticons, letras infantis e licença poética para gírias e pequenos erros gramaticais. Como trilha sonora, canções sentimentais, principalmente do pop rock adorado por teens dos tempos de Demi Lovato e Robert Pattinson. Amanda Todd escolheu Hear You Me, de Jimmy Eat World, e Breathe Me, de Sia - esta, aliás, uma das músicas preferidas para embalar tais narrativas. Em silêncio diante da webcam, os jovens mostram as cartas, uma a uma, sem pressa, revelando suas traumáticas experiências.

Enquanto muitos desses depoimentos foram assistidos milhares de vezes, outros receberam meros 16 visitantes. É a história de Brandon, Brittany, Ellouise, Nikki, Tyler, além de milhares de crianças que não postaram vídeos e, muitas vezes, nem sequer revelaram aos pais o transtorno vivido. Assim quis se expressar a australiana Olivia Penpraze, de 19 anos, que se suicidou no dia 3 de abril após anos de bullying que lhe causaram anorexia, depressão e psicose, com alucinações e delírios. "É como se eu estivesse vivendo um pesadelo, mas não consigo despertar", Olivia conta no filme, gravado dias antes de sua morte.

No post My Suicide Story, a pequena Hannah Novak, 17, lembra como foi diagnosticada com depressão e transtorno pós-traumático: "Eu era uma menininha, tentando me encaixar. Mas era muito 'esquisita'. E as pessoas não queriam ser minhas amigas porque... Eu fui molestada =( Eu nunca tive uma melhor amiga". Hannah tentou se matar e passou dias enclausurada na ala psiquiátrica.

Perseguido desde a primeira série, Jonah Mowry, de Lake Forest, também quis gravar sua história: "Todo mundo me odeia. Não sei por quê. Quer dizer, talvez eu saiba. Porque eu me odeio também..." Com os olhos marejados e as bochechas coradas, o garoto gay de 13 anos ainda mostra à câmera as cicatrizes que colecionou desde a infância.

Nesses relatos, adolescentes contam como foram agredidos por valentões, ridicularizados pela panelinha dos "populares", perseguidos dentro e fora dos muros da escola. E como pensaram, por um momento, em sumir deste mundo. Mas muitas dessas histórias tiveram finais felizes. Muitos lembram como superaram o bullying e encontraram novos amigos, tentando inspirar outros jovens. "Se você está pensando em suicídio, repense. Há outras pessoas lá fora que se sentem assim como você. Você não está sozinho", diz um pôster de uma das meninas.

O confessionário que abrigou as últimas palavras de Amanda Todd também se tornou uma ferramenta para campanhas antibullying e contra o suicídio. Assim a estudante Kaitlin Brand quis fazer um tributo a sua mãe, que se enforcou dias antes do seu aniversário de 16 anos. "Você deve estar se perguntando por que estou sorrindo e não chorando. Porque minha mãe gostaria de me ver feliz", diz um dos cartões. "Se você está tendo pensamento suicidas, peça ajuda. A vida melhora. Eu prometo =)", postou Kaitlin.

Molly Doyle, 19 anos, compartilhou o luto pelo pai suicida - por esse motivo, aliás, também foi perseguida na escola. "Sim, às vezes a vida é difícil, e a gente se sente perdida. Mas a depressão não me dominou. Essa é minha história feliz", escreveu a americana. Molly recebeu mensagens de muitos adolescentes, admirados com a sua trajetória. Entre as correspondências, a de Amanda.

Forever alone

"Essas crianças se sentem sozinhas, mesmo numa multidão. Esses vídeos são um pedido de socorro", diz Allan Beane, diretor do Free Bully Program. São retratos de jovens solitários - ou forever alone como ironizariam os bulliers. "Às vezes isso é tão traumático que muitos jovens não conseguem conversar sobre isso sem chorar. Os cartões podem ser uma alternativa para poder dizer o que querem dizer", considera Beane.

"Os adolescentes querem compartilhar muitos sentimentos e ideias nas redes sociais. É um espaço íntimo para eles, mesmo sabendo que poderão ser observados por milhões de pessoas", pondera o psiquiatra Bennett Leventhal, que estudou as relações entre bullying e suicídio (causa mortis das mais frequentes entre jovens de 10 a 24 anos).

Facebook, Twitter e YouTube abriram brechas para campanhas antibullying, mas também são arenas para cyberbullying. "Com tantas tecnologias disponíveis para os jovens atualmente, o bullying ultrapassa os quintais de casa e o pátio da escola. Na internet, uma pessoa pode ser alvo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os pais precisam ficar atentos ao cotidiano dos filhos - on e offline", alerta Monika Wierzbicki, porta-voz do movimento canadense Stop A Bully.

Na sexta, mais de 40 cidades ao redor do mundo acenderam velas em memória de Amanda Todd. Desde a semana passada, a menina está sendo lembrada em memoriais e vigílias, tanto em cidadezinhas canadenses quanto no Facebook e no Twitter. As redes sociais que lhe infernizaram a vida agora lhe prestam homenagens carinhosas e mensagens quase angelicais.

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