Laura Hanifin
Laura Hanifin

'Confundimos a história com propaganda', afirma N.K. Jemisin

Escritora americana tornou-se a primeira pessoa negra a vencer o Hugo, principal prêmio da literatura fantástica

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2018 | 16h00

Como pode um livro que começa literalmente com o fim do mundo render uma trilogia? É o que os leitores brasileiros vão descobrir com a publicação de A Quinta Estação, da norte-americana N.K. Jemisin, pela editora Morro Branco. O livro, lançado em 2015 nos EUA, inicia a trilogia da Terra Partida, que figurou duas de suas obras nas listas de melhores do ano do New York Times.

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A história se passa em Quietude, continente acossado por terremotos em que a sociedade aprendeu a sobreviver aos cataclismos recorrentes. Ruínas de civilizações extintas são tratadas como lixo, pois vêm de pessoas que não souberam resistir ao apocalipse. Uma pequena parcela da população nasce com a capacidade de causar e interromper tremores com a mente, manipular a terra e canalizar forças da natureza. Os orogenes, como são chamados, são discriminados pela sociedade, treinados por uma instituição chamada Fulcro e utilizados como meras ferramentas para proteger as comunidades dos terremotos – isso quando eles mesmos não são os desastres ambulantes.

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O suspeito narrador conta, em segunda pessoa, a trajetória de Essun, cujo filho pequeno é morto pelo próprio pai quando se revela um orogene durante um abalo sísmico; e, em terceira pessoa, a de Damaya, criança entregue ao Fulcro pelos pais; e Syenite, jovem em treinamento que é ordenada a acasalar com outro orogene como um animal. 

Embora não goste de falar abertamente sobre questões raciais, Jemisin construiu, em um misto de fantasia ecológica, distopia e comentário social, um universo diverso, complexo e repleto de preconceitos, que coloca o leitor sempre na pele dos oprimidos sem desaguar no mero ativismo. Jemisin foi a primeira pessoa negra a receber o Hugo, principal prêmio da literatura fantástica e ficção científica, que existe desde 1953. Como se não bastasse, foi laureada duas vezes seguidas, em 2016 e 2017, façanha realizada apenas por Orson Scott Card (1986/87) e Lois McMaster Bujold (1991/92). Ao Aliás, Jemisin respondeu às seguintes questões. 

Como foi o processo de pesquisa e o quão realista é a geologia da Quietude?

Passei meses pesquisando geofísica básica antes de iniciar a escrita, questionando sobre sismologia em fóruns e falando com especialistas. Também viajei para o Havaí, onde visitei quatro vulcões. Nesse sentido, a geologia da Quietude é realista. As descrições de como os terremotos e choques entre placas tectônicas ocorrem são precisas. É claro que no mundo real ninguém pode causar tremores em suas mentes; então, a partir desse ponto, tudo é especulativo. 

O desprezo dos habitantes da Quietude por civilizações anteriores é uma crítica à nossa sociedade, que se esquece de sua história e repete seus erros?

Creio que essa seja uma característica humana. Até em sociedades que reverenciam a história, os ancestrais, existem pessoas – em geral jovens – que racionalizam o presente e desprezam o passado. Em sociedades saudáveis, há uma pressão contrária a essa opinião. Há anciãos respeitados e conhecimento suficiente transmitido por gerações para provar o valor da história. Em Quietude, a pressão pela sobrevivência é tão intensa que se permitiu que o desprezo pelo passado se tornasse a filosofia dominante. Não posso falar sobre o Brasil, mas, nos EUA, o problema é romantizar o passado – ou seja, encobrir suas falhas e fingir que o presente é pior porque confronta abertamente essas questões. Não que nós esqueçamos a história, mas a confundimos com propaganda. A história real é bagunçada e nada romântica. 

A tecnologia da Quietude não aparenta ser avançada, mas as pessoas podem, entre outras coisas, produzir penicilina. Em que ponto do nosso desenvolvimento você localizaria essa sociedade?

Essa linha do tempo é deliberadamente não relacionada à do nosso mundo. O desenvolvimento tecnológico não caminha em linha reta e nem sempre procede da mesma maneira, mesmo na vida real. Diferenças culturais e de recursos produzem ênfases distintas, outros tabus. É como a China antiga desenvolveu construções resistentes a terremotos muito antes do mundo ocidental, simplesmente porque eles precisavam. Como Quietude já foi avançada tecnologicamente antes, o que tentei retratar não foi um mundo criado do zero, mas um que perdeu a tecnologia enquanto reteve algum conhecimento científico. Sabedoria é mais fácil de transmitir do que técnicas precisas ou materiais complexos, e o conhecimento que oferece benefício imediato à sobrevivência naturalmente se sai melhor. Então eles sabem como funcionam microorganismos que causam doenças e energia geotérmica, por exemplo, mas tiveram pouco motivo para reter arquitetura decorativa. 

Desde que você começou a escrever a saga, houve alguma mudança na história para refletir questões políticas que surgiram nos EUA?

Não. Todo meu trabalho reflete as experiências de uma mulher afro-americana, descendente de escravos, que vive na América contemporânea. Às vezes essa reflexão é apenas menos abstrata. 

Sua escrita é bastante inclusiva, com personagens diversos. Qual é a importância da representatividade na ficção?

Bem, só posso dizer pela minha experiência de encontrar personagens femininas e negras na ficção quando eu era jovem, o que foi um alívio. Porque, até aquele ponto, eu havia começado a ponderar se pessoas negras existiriam no futuro ou se tínhamos algum passado que valesse a pena ser explorado, porque a ficção manifestamente ignorava nossa existência ou ativamente teorizava nossa destruição. Mas eu acredito que é estranho dizer que isso somente afeta leitores de grupos sub-representados. Isso impacta todos os leitores. Um grupo dominante não se beneficia por ser tratado como o único que importa, e que só importa por ser a maioria e não por conta de algo sobre seu caráter. Isso os torna mais fracos, rasos e frágeis. A inclusão torna a literatura melhor para todos os leitores.

O gênero fantástico está mais inclusivo?

Mais do que era há 10, 20 ou 50 anos, claro. Inclusivo o suficiente para representar a raça humana ou sociedades multiculturais modernas como elas são? Ainda não. Mas acho que vai se aprimorar à medida que mais escritores provenientes de grupos marginalizados começarem a publicar seu trabalho, e mais autores de grupos privilegiados perceberem que isso é uma necessidade da boa escrita. Na ficção científica e fantasia, escritores são constantemente estimulados a retratar a ciência ou a magia corretamente. Já passou da hora de tentarmos retratar corretamente as pessoas.

A Quinta Estação

Autora: N.K. Jemisin

Tradução: Aline Storto Pereira

Editora: Morro Branco

560 páginas

R$ 49,80

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