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'Conhecimento Humano' sintetiza o pensamento de Bertrand Russell

Livro ganha nova tradução e trata do problema da inferência não-demonstrativa na filosofia e na ciência

Rodrigo Petronio*, Especial para o Estado

31 de agosto de 2019 | 16h00

A vida e a obra de Bertrand Russell (1872-1970) são admiráveis. Russell se notabilizou por seus trabalhos seminais em filosofia da ciência e em epistemologia (teoria do conhecimento). E também como um dos mais consistentes divulgadores de ciência e de filosofia do século 20.

Autor de obras essenciais sobre a Teoria da Relatividade de Einstein, sobre a física atômica e sobre os conceitos de matéria e de mente, bem como de monografias, como uma análise minuciosa do sistema de Leibniz. Publicou uma história da filosofia. E foi também um expoente da lógica, área da filosofia dedicada aos princípios de validação dos enunciados. Junto ao filósofo, matemático e cosmólogo Alfred North Whitehead (1861-1947), seu professor em Cambridge, foi um dos criadores da lógica formal, também conhecida como simbólica, cujo objetivo é incorporar a matemática à lógica e assim resolver algumas aporias do cálculo, da álgebra e da geometria. Os três tomos dos Principia Mathematica de Whitehead-Russell, o primeiro redigido a quatro mãos por Russell e os dois seguintes escritos por Whitehead, são um opus magnum da reflexão formal da Filosofia. Uma das obras mais importantes da história da matemática e referência para as ciências naturais e humanas. Não bastasse, Russell também se destacou como pacifista, educador, defensor dos direitos humanos e das liberdades intelectual, sexual e social. Por fim, a excelência ensaística e o conjunto dessa trajetória lhe conferiram o Prêmio Nobel de Literatura em 1950.

A despeito dessa multiplicidade transdisciplinar de conhecimentos, saberes e domínios, Russell procurou ao longo da vida escrever uma obra que sintetizasse seu pensamento. A obra mais próxima de cumprir essa tarefa é Conhecimento Humano: Seu Escopo e Seus Limites que a Editora da Unesp acaba de lançar em uma nova e excepcional tradução de Renato Prelorentzou e com apresentação de John Slater.

Ao longo da vida de Russell, a obra teve reveses, alterações e interrupções. Uma delas motivadas pelas críticas de Wittgenstein. Felizmente essa hesitação não o levou a abandonar o projeto. E o tempo de maturação ajudou-o a consolidá-la. A obra é dividida em seis partes: O Mundo da Ciência, Linguagem, Ciência e Percepção, Conceitos Científicos, Probabilidade e Postulados da Inferência Científica. Russell persegue em cada uma dessas partes um problema nuclear de toda Filosofia: o problema da inferência não-demonstrativa.

Esse problema foi proposto pelos empiristas (Berkeley e Locke), mas adquiriu uma dimensão abissal por meio das abordagens de Hume e de William James. Desde então continuou sendo denegado ou enfrentado com maior ou menor sucesso por muitos pensadores. Pode-se dizer que este é o calcanhar de Aquiles da filosofia e da ciência.

A indução é um tipo de conhecimento baseado na estabilização de padrões e de sucessões causais. Em outras palavras: se em determinadas condições A, um evento B gera C, duas perguntas surgem: 1. Quais as chances desse nexo entre A, B e C se repetir e de se manterem as mesmas condições? 2. Quais as possibilidades de extrapolar as relações A, B e C para outras condições e relações causais? Para se obter as respostas, é necessária a observação constante de eventos e a determinação de seus comportamentos a partir de critérios relativos. A inferência é a verificação pragmática e contingente desses processos indutivos. Estes, por sua vez, são a pedra-angular da ciência experimental. Qual o problema desse tipo de conhecimento? Toda indução depende da experiência. E o campo da experiência é contingente, situado e limitado. O campo de experiência que gerou certas inferências indutivas não pode ser extrapolado para outros campos de experiência. A verificabilidade de uma sentença e de um enunciado depende em última instância de outro enunciado e de outra sentença inferidas a partir de um campo de experiência inacessível.

Como assegurar a demonstração de uma proposição se todas as proposições em alguma medida são derivadas de outras proposições? Esse é o dilema. Todas as inferências precisam se apoiar em outras inferências, egressas de outras esferas da experiência, para serem demonstradas. Isso produz um ponto cego na cadeia de produção de todo nosso conhecimento do mundo e da vida. A investigação de Russell reconstrói todas as variantes, horizontes e implicações dessa natureza não-demonstrativa das inferências indutivas, indo da Astronomia à Física, da Cosmologia à Lógica, da Filosofia da Linguagem à Psicologia. 

O grande desafio dessa investigação é compreender como essas linhas causais inferidas da experiência podem ser elevadas à condição de leis do espaço e do tempo, tanto na dimensão da Terra quanto do universo. À medida que não existe uma substância universal regendo todos os eventos do universo, da matéria e da mente, essas linhas causais da experiência não podem ser elevadas à condição de leis. Nesse contexto, a probabilidade passa a desempenhar um papel central.

O filósofo e semioticista Charles Sanders Peirce respondeu a esse problema da inferência não-demonstrativa com o conceito de abdução: generalização de uma situação particular ambivalente. Um problema semelhante se encontra patente no teorema da incompletude do matemático Kurt Gödel, que implodiu as condições de validade dos axiomas (eixos dos sistemas). O pragmatismo de William James o explorou e o aprofundou a partir das noções de empirismo radical e de pluriversos. Whitehead o solucionou por meio de uma síntese entre entidades atuais e objetos eternos.

Russell o encaminha na chave do pensamento analítico. Ou seja: perspectiva os conceitos e condições de possibilidade da verdade a partir de cada condição experiencial. Nesse sentido, a investigação metafísica de Russell recusa o apriorismo (esquemas transcendentais) de Kant. E recusa a solução parcial do ceticismo de Hume. Opta por um caminho do meio mais pedregoso, tendo sempre como pano de fundo a parcialidade, os limites e a precariedade constitutivos de todo conhecimento. Nesse sentido, ao longo de suas oitocentas páginas, não se afasta em nenhum instante da humildade, coração da verdadeira Filosofia. 

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