Mariana Vieira
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Contos da psiquiatra Natalia Timerman tratam das neuroses cotidianas

'No exato instante em que uma mãe está escrevendo, ela não está cuidando de seus filhos. É uma escrita culpada', afirma a escritora em entrevista ao 'Estado'

Mateus Baldi*, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2020 | 16h00

Em Desterros, sua estreia na literatura, a psiquiatra Natalia Timerman foi bastante elogiada pela forma como humanizou as prisioneiras do sistema carcerário de São Paulo. Rachaduras, seu novo livro, o primeiro de ficção, subverte essa ideia e parte rumo ao oposto – nos contos frenéticos, cheios de fluxo de consciência e vozes sobrepostas, Timerman aguçou o olhar da cidade e pôs uma lente de aumento nas neuroses cotidianas. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Natalia fala de seu processo criativo e explica sua reconciliação com São Paulo.

Os personagens de ‘Rachaduras’ parecem o tempo todo expostos aos problemas da vida cotidiana, como se a fissura estivesse no banal, e não no extraordinário. Como foi o seu processo de escrita? 

A escrita deste livro se deu ao longo de muitos anos. Percebi que se tratava de uma unidade – rachada – quando notei se repetir o tropeço, o não pertencimento. A própria estrutura do livro remete a isso, dividindo em três eixos a recorrência de apelos de personagens que tentam com urgência fazer parte das coisas como são: a vida banal, transcorrendo como “deve” ser. Mas assumir a impossibilidade, as rachaduras, é, como no poema de Leonard Cohen, entender que é pela quebra que pode entrar a luz.

Você começou escrevendo sobre a realidade das mulheres encarceradas e agora se volta para a ficção. Como é transitar por esses eixos? O que a ficção pode aprender com a não ficção, e vice-versa?

A escrita literária me parece ser dos poucos meios de que dispomos para acessar a complexidade do real; e a ficção consegue aumentar a abrangência desse acesso, porque inventa a si e se dá de volta ao real. A não ficção exige um freio, uma certa reverência às pessoas que nasceram, que existem; a ficção pede uma entrega por meio da qual os personagens passam a existir e falar por si.

O fluxo de consciência é uma das estratégias narrativas mais presentes no livro. A forma precede o conteúdo ou é um encaixe? Como foi encontrar a voz de cada personagem?

Como cada conto surgiu de uma maneira, talvez não haja uma precedência, mas um acontecer simultâneo de forma e conteúdo servindo-se reciprocamente. O ímpeto de escrever pode servir a algo vago até que seja escrito: uma ideia esfumaçada, uma frase isolada que pede amparo de quem a possa dizer. Me parece que foram perguntas feitas pelos personagens, por sua voz, e a resposta, se existe, se dá em seu dizer.

São Paulo é quase uma personagem do livro. Que cidade é essa e qual a sua relação com o caos urbano?

São Paulo é minha matriz, meu repertório de imaginação, onde cresci e de onde sempre quis sair. Curioso é que, depois que comecei a escrever, minha vontade de morar em outro lugar se apaziguou. Parece que as palavras me conciliaram com ela, me permitindo sair de mim e então da cidade – escrevendo sobre e a partir dela.

Sheila Heti, em ‘Maternidade’, diz que ‘Só duas pessoas ficam ao lado do réu — sua mãe e seu advogado’. Em ‘Desterros’, as mães exercem um papel fundamental no documento que você pretendia construir, e muitos dos contos de ‘Rachaduras’ são protagonizados por mães em profunda agonia. Qual é o principal desafio de narrar a maternidade?

No exato instante em que uma mãe está escrevendo, ela não está cuidando de seus filhos. É uma escrita culpada: mãe é culpa, é insuficiência, pois uma mãe é sempre também uma mulher, que, já dizia Simone de Beauvoir, não encontra nas funções de engendrar e aleitar uma afirmação da sua existência, e sim a passividade de suportar seu destino biológico. Escrever sobre maternidade é, apesar e por meio da culpa, superar o que há de passivo no mero cumprimento de um fato biológico: é conciliar o chamado desse destino com a possibilidade de realização de si como mulher.

RACHADURAS

AUTORA: NATALIA TIMERMAN

EDITORA: QUELÔNIO

152 PÁGS., R$ 37,40

*MATEUS BALDI É ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO, FUNDADOR DA PLATAFORMA ‘RESENHA DE BOLSO’

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