The Criterion Collection
The Criterion Collection

Contos de D.H. Lawrence sobre mulheres desmistificam pecha de misógino

Livro reúne narrativas do polêmico escritor inglês que já foi tachado de 'falocrata' pela escritora feminista Kate Millett

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

07 de março de 2020 | 16h00

Nesta altura do campeonato, em que por vezes parece importar mais a militância dos escritores do que a qualidade da respectiva obra, editar D.H. Lawrence é cutucar todas as onças do mundo com um cotonete. Pois é o que faz a Carambaia com um volume de contos, que já no título vira do avesso uma das trocentas ignomínias grampeadas no contista (“Misógino!”): As Mulheres Contam.

Lawrence foi acusado de tudo, menos de procrastinação: escreveu 12 romances, inúmeros contos, 800 poemas, peças de teatro, livros de viagem, traduções, ensaios críticos e milhares de cartas. Nascido na Inglaterra, viveu na Alemanha, Austrália, Itália, Sri Lanka, EUA, México e França, onde morreu aos 44 anos. Antes que me esqueça: também foi um bom pintor. 

Verdade seja dita, as opiniões sobre Lawrence já colidiam antes do século 21 (quando os terráqueos degeneraram em santos dos últimos dias). Foi aclamado como “intelectual proletário” (o pai era mineiro), paladino contra aquilo que Heidegger estigmatizou como “o mundo da técnica”, e profeta do desbunde da libido. Já Bertrand Russell, que o ciceroneou em Cambridge, resmungou que escritor era um “protofascista”. Num texto de 1924, Lawrence denunciou o fascismo (e o leninismo) como “um mero culto à força”. Em outro, classificou o slogan da Revolução Francesa - liberdade, igualdade e fraternidade - como “a serpente de três presas”. T. S. Eliot disse que o autor era “incapaz de pensar”, mas convidou-o para ser colunista da sua requintada revista Criterion

Na década de 1970, a feminista Kate Millett espinafrou – espirituosamente, aliás – DH como um “falocrata”. Por outro lado, vários dos protagonistas do autor são mulheres independentes e prismáticas, com desejos legítimos (inclusive sexuais), e ele sempre apoiou o voto feminino (aprovado no Reino Unido em 1918, mas só para eleitoras com mais de 30 anos). Aliás, a capa desta edição da Carambaia celebra os cartazes das sufragistas inglesas. Lawrence viveu a vida toda com a alemã Frieda, que quando conheceu era casada e tinha três filhos pequenos (era também prima do ás da aviação alemã, Manfred von Richthofen, mais conhecido como Barão Vermelho). 

Com o romance O Amante de Lady Chatterley, Lawrence protagonizou uma cause célèbre da literatura. Impresso em Florença em 1928 e logo proibido por “obscenidade”, o livro só foi publicado na Inglaterra em 1960, depois de absolvido em tribunal. O promotor cobriu-se eternamente de ridículo ao bufar, como se estivesse em Roraima: “Será esse o tipo de obra que gostaríamos que nossas esposas ou criados lessem?” Pelo menos, a treta gerou um icônico e irônico poema (Annus Mirabilis) do grande Philip Larkin: “As relações sexuais começaram em 1963/(o que foi um pouco tarde para mim)/Entre o fim da proibição de ‘Chatterley’/E o primeiro LP dos Beatles”.

Às vezes rotulado de “pornógrafo”, mas sempre contraditório, Lawrence professou “detestar a sexualidade”, porém expressou ficcionalmente uma espécie de sensualismo pagão, tipo Rousseau, prometeico e extático. Para Jenny Turner, em The Sexual Imagination from Acker to Zola: A Feminist Companion, com o rala-e-rola explícito Lawrence “quebrou os tabus num romance de grande energia libertária e beleza erótica”. Pessoalmente, prefiro os ensaios, os poemas e contos do autor.

Quando Lawrence morreu, E. M. Foster ungiu-o “o maior escritor da nossa geração” (talvez a melhor geração da melhor literatura). E o papa da crítica britânica, F. R. Leavis, entronizou-o de mala e cuia no cânone, de onde desde então não parou de ser apeado e recoroado. O narrador de The Magus, romance de John Fowles, não deixa por menos: DH Lawrence foi “o maior ser humano do século”. Visitando o santuário de DH no Novo México, em 1939, o poeta WH Auden observou como “carros de mulheres peregrinas chegam todos os dias para ficar ali reverentemente, se perguntando como teria sido dormir com ele”. No influente Anti-Édipo, Gilles Deleuze e Félix Guattari subscrevem as críticas de Lawrence ao inconsciente freudiano. Já George Orwell, para mim sempre valioso, suspirou que “algumas das ‘obras-primas’ dele são difíceis de acabar.”

Como muitos autores, Lawrence achava que o romance era “o teste supremo”. Mas a meu ver ele foi melhor no conto, talvez porque o formato curto exclua retóricas (ou pelancas) doutrinárias. Pois, quando a cortina sobe, o conto já está perto do fim – é ou vai ou racha.

Os sete textos de As Mulheres Contam desconstroem o clichê do ogro misógino (assim como o conto que é considerado a obra-prima dele, O Oficial Prussiano, atesta que o suposto machista sabia das ambivalências de Eros). Bilhetes, Por Favor expõe a consolidação da mão-de-obra feminina no mercado de trabalho. E, mesmo na promiscuidade do transporte coletivo, a mulherada já se empodera: “Elas não serão enganadas, não. Não temem a ninguém – e todos as temem.” 

O cobrador de bonde chama-se John Thomas – em O Amante de Lady Chatterley, “John Thomas” e “Lady Jane” são os nomes que o casal de amantes usa para seus respectivos órgãos sexuais. No conto, o rapaz é um pegador serial, mas verá o que é bom para a tosse, num UFC com suas mênades – as ninfas da mitologia grega que fizeram picadinho de Orfeu. 

Em Odor de Crisântemos, Lawrence evoca as comunidades mineiras de Notthinghamshire, que conhecia como a palma da mão. Numa escalada emocional excruciante, observamos a angústia de Elizabeth, enquanto ela espera que o marido chegue da mina de carvão onde se enterrava durante o dia (ou do pub onde tomava todas durante a noite). No fim, uma epifania na veia, e no maior capricho, excluindo a ilusão de que os amantes, por compartilharem rituais e gerarem um novo ser, possam também compartilhar experiências. Somos mônadas arrolhadas. Ou, com Bandeira, os corpos se entendem, mas as almas não. 

Paradoxalmente, a revolução dos costumes, pela qual tanto esperneou, tornou Lawrence às vezes antiquado. Por exemplo: comparado com Cinquenta Tons de Cinza (hoje lido no metrô e assistido na Sessão da Tarde), O Amante de Lady Chatterley parece A Galinha Pintadinha. E Lawrence sabia disso: “Se você tenta pregar alguma coisa no romance, você mata a ficção, ou a literatura se levanta e vai embora”.

Não se trata de passar o pano. Lawrence demonstra como o ser humano pode conter o zero e o infinito, o médico e o monstro, um moralista e um porra-louca. Como devemos ser avaliados pelos nossos atos, e não pelos pregões que pavoneam nossa santimônia nas redes sociais. Ele é instrutivo, numa época em que virou modinha colarmos QR Codes ideológicos na testa dos outros, para depois os “cancelarmos”. Como notou Diana Trilling, “Lawrence devassa tanto as nossa fraquezas que corremos para atacar as fraquezas dele.”

D. H. Lawrence morreu de tuberculose em 2 de março de 1930, pesando 38 quilos. Foi sepultado em Vence, França, assistido apenas por Frieda, Aldous e Maria Huxley. Segundo Frieda, foi um enterro “simples como o de um pardal”. Enfim algo simples na vida dele.

AS MULHERES CONTAM

AUTOR: D.H. LAWRENCE

TRADUÇÃO: PATRICIA FREITAS

EDITORA: CARAMBAIA

288 PÁGINAS

R$ 79,90 

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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