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Contos de F. Scott Fitzgerald satirizam a Hollywood dos anos 1930

Pastiche da coletânea 'As Histórias de Pat Hobby' começa bem e se torna irregular

Mateus Baldi*, Especial para o Estado

11 de abril de 2020 | 16h00

Publicadas entre janeiro de 1940 e maio de 1941 na revista Esquire, As histórias de Pat Hobby são uma faceta menos conhecida, porém não menos inquietantes de F. Scott Fitzgerald. Lançados pela Todavia com tradução, prefácio e notas de José Geraldo Couto, os dezessete contos mostram-se irônicos e reveladores na mesma medida: irônicos porque Hobby poderia ser um personagem dos estúdios Keystone, de tão atrapalhado e sem sorte que é – e a pena de Fitzgerald faz questão de deixar isso claro; reveladores na medida em que dão testemunho de uma época que se fundiu em si mesma.

No final dos anos 1930, o cinema já estava consolidado como uma indústria – “aquilo não era uma arte” – e a revolução sonora caminhava para o início de sua segunda década. Atores pouco adaptados aos talkies já haviam sido substituídos e o star system reinava absoluto, mas não muito: por trás de todo o glamour, escondiam-se figuras decadentes que batalhavam por um nomezinho nos créditos que fosse. Figuras essas que já haviam sido grandes em algum momento. Figuras como Pat Hobby, 49 anos, roteirista.

Fruto dos anos de Fitzgerald em Hollywood, Hobby surge no primeiro conto, “O pedido de Natal de Pat Hobby”, ganhando 350 dólares por semana, em contraste com os vultosos 2.000 de outras épocas. Desempregado e dirigindo um carro caindo aos pedaços, ele parece carregar o leitmotiv do caos: está sempre procurando emprego, rondando os estúdios atrás de trabalho, e quando está empregado dá um jeito de ficar desempregado. Seus coadjuvantes habituais, para completar, são sempre ranzinzas que aparecem bissextamente e ocupam altos cargos.

Habilidoso em explorar seu personagem como fosse protagonista de um romance, Fitzgerald emprega tramas que espicham conforme as histórias avançam. Problemas podem ser resolvidos alguns contos mais tarde, ou até mesmo seguir acontecendo de acordo com o demonstrado na história anterior. Essa serialização, esse espírito de continuidade, entretanto, acaba por ser o calcanhar de Aquiles do livro. Visivelmente animado em escrever as novas aventuras de Pat Hobby, Fitzgerald inventou tramas cada vez mais rocambolescas. O melhor exemplo é “Pat Hobby, pai putativo”, em que o roteirista descobre ser pai de um garoto que é herdeiro de um rajá indiano. Embora divertida, com os habituais toques de humor, a história foge completamente da alçada que Fitzgerald vinha se embrenhando. Aumentando o escopo, saem os personagens da Hollywood cotidiana – Orson Welles, por exemplo, que se torna alvo da ira de Hobby – e o mundo age feito uma espécie de agente contaminador.

Mesmo que seja divertido de ler, angariando empatia genuína do leitor, Pat Hobby é um homem tão incompetente que os contos começam a se repetir numa equação: Pat Hobby desempregado + Pat Hobby arruma serviço e encrenca + Pat Hobby tenta sair da encrenca passando a perna em alguém = Pat Hobby se dá mal ou é salvo milagrosamente no último minuto. Por mais que haja uma intenção legítima de denotar a empáfia dos magnatas hollywoodianos – um bom exemplo é quando passam por Hobby no corredor e o tratam sem nenhum glamour –, o tiro do pastiche sai pela culatra: não é possível que esses homens sejam tão burros de contratar alguém que faz tudo errado, mesmo que na melhor das intenções – porque Hobby é bem intencionado, o tipo de pessoa que você encontraria num bar ocasionalmente, só não funciona muito: o excesso de imperfeição, no saldo final, mais atrapalha que ajuda.

No prefácio, explicando os anos de F. Scott Fitzgerald em Hollywood, José Geraldo Couto menciona uma anedota que Billy Wilder, admirador do escritor, contava: ele atribuía o insucesso do amigo ao fato Fitzgerald parecer um “escultor que é contratado para fazer um serviço de encanador”: ”ele não sabia conectar os canos de modo a fazer a água fluir”. Essa inaptidão para o ofício de roteirista resume bastante o resultado de As histórias de Pat Hobby. Individualmente, são protagonizadas por um sujeito metido a esperto, que lembra uma versão mais velha e cômica de Arturo Bandini, personagem de John Fante que também zanzava pela Los Angeles dos anos 30 e 40 à procura de emprego enquanto se julgava um escritor dos bons; por outro lado, em conjunto, as dezessete histórias parecem caminhar bem, mas basta uma leitura atenta para perceber que há algo de desajeitado, algo que tem lá seu charme até acabar incomodando pelo caráter desnecessariamente formulaico. No fim das contas, há boa diversão nestas páginas, mas não espere o mesmo gênio de O Grande Gatsby, ainda que ele dê algumas piscadelas para nos dizer que nunca sumiu.

*Mateus Baldi é escritor e crítico. Em 2016, fundou a Resenha de Bolso, plataforma de críticas de literatura contemporânea.

 

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