Delfim Vieira/Estadão
Delfim Vieira/Estadão

Contos de 'Formigas no Paraíso' desconstroem cariocas da gema

Volume é obra de estreia do jornalista carioca Mateus Baldi

Matheus Lopes Quirino, O Estado de S. Paulo 

19 de maio de 2022 | 10h00

Um livro de estreia é também um expurgo. Um descarrego verbal que, saído da gráfica, traz ao autor uma paz momentânea, ensaio para a próxima história. Nesse epílogo, entre a agonia do futuro e o gozo do presente.

E a chuva castiga os cariocas, frase que acompanha o jovem jornalista Mateus Baldi, 27, que lança seu primeiro livro, a seleta de contos Formigas no Paraíso (Faria e Silva), pois até mesmo os seres menores têm direito à paz celestial. No conto que abre o volume, De Cair a Chuva, Baldi constrói uma mãe paranoica que sai para correr na chuva. Ato libertador, feito paradoxo, que a tortura. Ainda mais com o Pão de Açúcar enevoado à sua frente. O inferno é logo ali, como no ditado popular. O Rio de Janeiro já não é tão lindo. 

Névoa é uma personagem independente que trafega entre os contos, embora os cenários sejam chuvosos, metaforicamente, como tempestuosas crises conjugais, colocando a dor individual em primeiro plano. A dor psicológica das personas que têm a mente enevoada, uma sensação que pensada em inglês faz sentindo aqui: Blues. Para falar de tristeza. 

O azul do Rio de Janeiro não é tão azul, pelo menos não como a canção da Gal (Eu não sei se vem de deus o céu ser tão azul/ou virá dos olhos teus, essa cor que azuleja o dia). Ainda que grandes mestres do conto tenham colorido o céu com tonalidades exuberantes de azul, o livro de Baldi é pintado por uma garoa fina e persistente. Há um resquício de noir em sua prosa, haja vista a influência dos romances policiais (gênero que o autor é especialista), além da influência evidente do mestre Luiz Alfredo Garcia-Roza (Baldi foi o editor de um dos últimos livros do escritor, que morreu em 2020). 

Um dia nublado que emerge toda uma cidade na névoa como se ela ficasse pequena para as formiginhas que ali vivem. As personagens voltam para seus problemas e caem em angústia. Como em Antes que O Sol, em que um pai sai desesperado em busca do filho em plena tempestade. 

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Baldi expõe as hipocrisias do casamento, os detalhes da infidelidade, os seios caídos e os prazeres secretos, como no conto homônimo que dá nome ao livro. A doença aparece naturalmente, como na vida, quando as marcas vão ficando mais aparentes.
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Mães tortuosas se apresentam em Tigre de Bengala e De Cair a Chuva, empoderadas, embora experimentem o gosto amargo do patriarcado, a revolta é sentimento, para elas, que busca justificativa. Elas se revoltam em pensamento, e o conflito é silencioso. Mantém-se em salto alto, como a sociedade espera das mulheres da classe média. 

Engula, seria o verbo, mas Baldi expõe as hipocrisias do casamento, os detalhes da infidelidade, os seios caídos e os prazeres secretos, como no conto homônimo que dá nome ao livro. A doença aparece naturalmente, como na vida, quando as marcas vão ficando mais aparentes. Fala-se muito em corpo decrépito, como se a chuva (tristeza) corroesse a pele das personagens para mostrar como a tristeza é indelével.

Tristeza, um obstáculo intransponível e vital, como é a chuva, ela regenera plantas e vidas, mas também fere e mata. São personagens maduras que molham os sapatos e saltos nas poças de água lodosas da cidade que carrega o estigma de paraíso, ainda que as formigas (habitantes) roam carne de pescoço. Ficam as sobras do fim de festa, migalhinhas de uma cidade que já viveu muita farra. O autor busca desconstruir esse lugar lendário com seus monumentos faraônicos e normatividade que circunda a palavra 'carioca'. Colher tempestade, sobreviver no mundo dos homens, é primordial para quem não quer ser pisoteado. 

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