Imagem Filmes
Imagem Filmes

Contos de Jorge Ialanji Filholini abordam o universo cinéfilo

'Somente nos Cinemas' une linguagem experimental às referências fílmicas do autor

Donny Correia*, Especial para o Estado

04 de janeiro de 2020 | 16h00

Enquanto George Méliès testava suas trucagens lúdicas naquilo que mais parecia um espetáculo de alguma Lanterna Mágica de última geração e Thomas Edison levava para dentro de seu rudimentar estúdio a reconstituição de um ritual Sioux talhado ao melhor estilo exportação, outros visionários se preocupavam em encontrar a coerência narrativa da qual precisava o cinema em seus primeiros anos para se tornar um entretenimento dramatúrgico. Foram a literatura e o teatro os responsáveis pelo feito de oferecer ao filme a possibilidade de se tornar o veículo fabular do século 20, ao ponto de ele mesmo, o cinema, anos depois reverberar sua eficiência influenciando o teatro, como em Beckett, e a literatura, como em Joyce. A constante tensão entre a palavra e a imagem é o alicerce que sustenta o livro de contos Somente nos Cinemas (Ateliê, 2019), do escritor e produtor cultural Jorge Ialanji Filholini, cuja obra anterior, Somos Mais Limpos pela Manhã (Demônio Negro, 2016) já o fizera finalista do Prêmio Jabuti, consolidando uma nova voz na escrita contemporânea.

A tentativa de unir prosa experimental e linguagem cinematográfica, que Filholini persegue ao longo dos quatorze contos que compõem Somente nos Cinemas, já se apresenta ostensivamente ao leitor logo na abertura, Ilha de Edição, uma colagem neo ou pós dadaísta que surge de uma lista de jargões, citações, menções a clássicos do cinema, ao mesmo tempo que denuncia ironias e um profundo conhecimento da área. “Responda rápido. O que vale mais: um filme bom com o final ruim ou filme ruim com aquele belo final? Já viu Ben-Hur? Não. Oito e Meio? Nem. O Piano? Nunca. Serpico? Oi? Gritos e Sussurros? Nem faço ideia. E por que raios você quer dirigir o meu filme?”. O conto é um trailer para as atrações principais que desfilariam diante do leitor-espectador a partir de então.

Tal qual num cinema de repertório, há espaço não somente para a cinefilia, mas para a crítica social a partir da escrita e do universo dos profissionais do audiovisual. Em Projeto: Favela, Filholini insere uma ácida crítica ao fetichismo involuntário criado pela onda de filmes de favela, que perduram no cinema brasileiro desde o fenômeno Cidade de Deus (2001). No conto – narrado a partir do ponto de vista de um diretor de arte brasileiro – um produtor americano, para quem a favela é o ápice do que há de mais pitoresco nos trópicos e bom pretexto para capitalizar em cima da desgraça alheia, vê seu projeto majestoso ruir quando a grande favela cenográfica construída num amplo terreno é invadida por moradores despejados de uma comunidade próxima dali. Na catarse final, enquanto o produtor assiste a tudo pensando nos milhões que acabam de ser jogados na lama, o narrador encarna a voz de uma consciência que escarnece a moral predatória que envolve a industrial cultural: “Ele me pede ajuda. Ajoelha-se. Quer explicações. Whata fuck? Pego no seu braço, levanto-o. Ajeito a sua camiseta e limpo as mangas sujas de barro. Aproximo de sua orelha esquerda e digo. Aqui está a sua favela. Pronta para ser filmada”. A prosa de Filholini é assim, sem claquete, montada a partir do corte seco, dos planos curtos, como queria Eisenstein para o cinema dos anos 1920.

Mas, Somente nos Cinemas vai além do procedimento estritamente estético dado à palavra para representar a imagem. Os filmes também são pretexto para tramas divertidas e melancólicas, como em Bianca Movies, talvez o mais tocante conto do volume – e o mais pessoal, segundo seu autor – em que Gustavo, um rapaz de comportamento normótico acentuado parece não se comover com nada que o rodeia, até encontrar Bianca. Ele, um estudante das Exatas; ela, das Humanas. Lá no longínquo início dos anos 2000, ambos se conhecem na Ufscar (local que reaparece diversas vezes em outros contos do livro). Bianca, ao contrário da apatia de Gustavo, carrega uma vontade de potência, amparada pelo amor ao cinema, que chega a desestabilizar a relação. Para a garota, tudo é uma cena icônica de algum filme, por mais esquecido que esteja na memória dos cinéfilos: “Que delícia, Gustavo. Você beija bem, man. Fiquei até com vontade de imitar o orgasmo da Meg Ryan em When Harry Met Sally”. Por seu turno, a imobilidade emocional de Gustavo é sempre a marreta que destrói os possíveis finais apoteóticos imaginados pela garota: “Bianca gargalhou. Eu nunca entendia suas referências”. Embora Gustavo conserve a apatia pelas coisas e tente agir normalmente diante do antigo affair, confessa-nos ao final, num misto de saudade e arrependimentos.

A polifonia de uma metrópole afoita por novidades cinematográficas encontra seu espaço no excelente Fila de Cinema, em que diversas vozes sobrepostas em diálogos soltos e anônimos denunciam as várias relações das pessoas e seu meio. É como se a fila de um cinema fosse um espaço para rituais sociais como queixas, comentários preconceituosos, aversões políticas etc, e por isso merecem um entretenimento imagético que funcione como anestesia para as mazelas que ficam do lado de fora da sala escura. Exatamente o que queria o cinema hollywoodiano desde seu nascimento.

Os contos de Filholini transitam, ainda, pela violência banalizada, que lembra o cinema de Beto Brant, como em Fuligens, e pelo universo lúdico da criança que precisa crescer e entender que os invencíveis heróis dos universos Marvel, DC e outros tantos são arquétipos que não podem sair da tela para a vida real, como acontece em Pablo Tentou Ser Super-herói. Ainda, em Desfecho, há espaço para a crítica da ignorância institucionalizada, com a qual somos confrontados a cada meio segundo: “Josias pensou que, se votasse no Capitão, finalmente o país entraria em uma Nova Era. Josias continua no vermelho. Devendo para o banco e sendo perseguido por agiotas”.

Essa estética híbrida, que perpassa a obra como todo, também experimenta a possibilidade da síntese no microconto Diálogos, um curtíssima-metragem, que também é um poema piada, ou uma anedota de salão: “Saindo da sessão do filme pornô, quis saber: – Foi bom pra você?” Jorge Ialanji Filholini se define como um cineasta frustrado. “Queria muito fazer cinema, mas enveredei para as Letras”, diz. Uma troca nada ruim.

 

*DONNY CORREIA É CRÍTICO DE CINEMA, MESTRE E DOUTOR EM ESTÉTICA E HISTÓRIA DA ARTE PELA USP E MEMBRO DA ABBRACCINE

Tudo o que sabemos sobre:
cinemaliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.