Vanessa Haigh/Estadão
Vanessa Haigh/Estadão

Contos de José J. Veiga retratam Brasil rural extinto pelo progresso e assombrado pela fantasia

Na obra do autor goiano, o elemento mágico ou insólito sempre se insere como ruptura no mundo arcaico regido pela lei do costume

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2021 | 15h00

“Quando eu era menino e morava numa vila do interior, assisti a um episódio bastante estranho”, começa a contar José J. Veiga em Professor Pulquério, um conto quase arquetípico em sua obra e que exemplifica os principais fatores presentes na maior parte de suas narrativas: a normalidade de um lugarejo interrompida por um acontecimento insólito, inexplicável ou extraordinário; o olhar infantil para o mundo sertanejo; e um passado idílico ou imemorial, perdido para sempre em prol do progresso e da urbanização. Boa parte do universo regionalista fantástico de Veiga está agora embalado em Contos Reunidos, volume lançado pela Companhia das Letras com posfácio de Socorro Acioli.

O tomo traz seus três livros de contos, Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), A Máquina Extraviada (1967) e Objetos Turbulentos (1997), além de textos esparsos jamais publicados em livro e escritos entre 1941 e 1989. 

Embora o autor não se admitisse filiado a nenhum nicho, a obra de Veiga (1915-1999) é comumente situada entre dois gêneros literários, o regionalismo e a fantasia. Suas narrativas dialogam com as dos contemporâneos Mário Palmério, Murilo Rubião, Silvina Ocampo e Julio Cortázar na ambientação, no trato com a linguagem e no escopo insólito dos acontecimentos, mas Veiga guarda certa distância desses autores.

Toda essa vertente literária, incluindo Veiga, é tributária do choque ficcional provocado pela literatura do escritor judeu checo Franz Kafka, que, a partir de Praga, observava a opressão antissemita e a rápida industrialização do período entreguerras. O tradutor e crítico Modesto Carone dizia que o narrador kafkiano é insciente, ou seja, “sabe tanto quanto o personagem e o leitor, ou seja, nada ou quase nada”. E o filósofo judeu alemão Günther Anders cunhou a seguinte expressão: “O espantoso, em Kafka, é que o espantoso não espanta ninguém”. Assim como na prosa kafkiana, em José J. Veiga, os eventos mais tresloucados são relatados por narradores que parecem não se espantar ou não compreender a magnitude dos testemunhos. 

“Pequenos e grandes mistérios são apresentados por serenos narradores, quase sem susto (...) Contam como se estivessem sentados em uma cadeira, falando em prosa mansa diante de nós”, descreve Acioli em luminoso posfácio. Por vezes, essa serenidade advém da natureza interiorana, mas não é raro que o extraordinário seja tratado como prosaico pelo fato de ser narrado sob a ótica onírica ou do ponto de vista infantil.

Essa característica, aliás, é um aspecto que diferencia Veiga de outras autorias regionalistas ou fantásticas. O narrador veiguiano típico é integrante de uma geração que nasceu em um Brasil em transição do mundo rural para o urbano. Em 1959, quando Veiga publicou seu primeiro livro de contos, o país se urbanizava rapidamente sob o lema dos “50 anos em 5” e às vésperas da inauguração de Brasília, uma capital moderna e planejada que endossava o mito do país do futuro. É justamente nesse momento de choque entre tradição e modernidade que se colocam as narrativas fantásticas de Veiga.

A exemplo de seus romances A Hora dos Ruminantes e Sombras de Reis Barbudos, um dos contos mais exemplares de sua lavra, A Usina Atrás do Morro, tem início com a chegada de forasteiros que perturbam a rotina de um povoado pacato do interior. Trata-se de um casal de estrangeiros cuja recusa a se integrar à comunidade é lida como hostilidade. Como ninguém sabe suas intenções (como o título sugere, instalar uma usina), os habitantes da região confabulam a respeito deles. O medo do desconhecido fornece a proporção do perigo que eles representam e, como de costume na obra de Veiga, o progresso representado pela usina acaba por provocar uma ruptura no tecido social, uma oposição entre os cidadãos aliciados pelos estrangeiros e os demais, que sofrem toda sorte de abuso por parte dos funcionários da usina – da zombaria ao atropelamento intencional. É notável que a premissa do filme Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, siga o protótipo veiguiano, com a cisão entre colaboracionistas e membros da resistência.

Em A Máquina Extraviada, é a chegada de um aparato misterioso que rompe com o cotidiano de um vilarejo. Ninguém sabe qual é sua finalidade ou quem a encomendou, mas a engenhoca rapidamente se transforma no centro da vida dos aldeões. “Você se lembra que antigamente os feriados eram comemorados no coreto ou no campo de futebol, mas hoje tudo se passa ao pé da máquina”, relata o narrador. O único personagem que não cede à sedução da máquina é o vigário, que vai se tornando um pária naquela sociedade subjugada pelo encanto da tecnologia. A clara analogia da sedução do progresso que corrói as relações sociais sedimentadas ao longo de séculos só ganhou força desde que o conto foi publicado, há mais de meio século.

É comum que, nos contos do escritor, os dilemas coletivos se sobressaiam aos individuais. Apesar disso, nem sempre a comunidade é vítima. Não raro, Veiga mostra o povo como algoz alheio ou cúmplice das tragédias que se abatem sobre eles próprios. No conto que dá início a este texto, o professor Pulquério, incapaz de convencer seus conterrâneos a embarcar em uma expedição atrás de um suposto tesouro enterrado na crista do morro por um austríaco, decide se exilar em um poço, evento que é acompanhado pelas pessoas com crescente expectativa, à moda dos atuais reality shows. A perversidade latente nas massas está lá quando o delegado ameaça usar a força para extrair o professor do poço: “Todos estavam ali para ver alguma coisa fora do comum, e não haviam de querer estragar o desfecho com um gesto de piedade fora de hora”.

Essa mesma perversidade coletiva se vê em Era Só Brincadeira, conto no qual Valtrudes – uma espécie de Joseph K., de O Processo, de Kafka – é investigado e indiciado por um pretenso investigador sem ter cometido crime algum. Diferente, porém, do protagonista kafkiano, Valtrudes não acredita que as acusações contra si passem de mera brincadeira para assustá-lo e assume tudo o que lhe imputam. O narrador, um amigo de Valtrudes, assiste à execução com uma ingenuidade vil: “Por mais que pensasse, eu não podia atinar como iriam eles soldar novamente a cabeça de Valtrudes, quando a brincadeira acabasse”.

O expediente onírico é uma tônica na obra de Veiga, especialmente em contos narrados por crianças. Em Os Cavalinhos de Platiplanto, a frustração de uma promessa não cumprida faz com que o protagonista sonhe com cavalinhos coloridos mágicos que suprem o desejo inconcluso de ganhar seu próprio animal; já em A Invernada do Sossego, a morte do cavalo Balão é o gatilho para uma aventura em sonho na qual dois irmãos não apenas reencontram a montaria perdida, mas combatem malignos capadócios matadores de cavalos. Já em A Espingarda do Rei da Síria, um caçador perde sua arma e se torna a chacota do vilarejo. Desmoralizado, ele vê o objeto de desejo ser restituído – mas apenas depois de fumar um misterioso cachimbo trazido por um caixeiro-viajante.

Com a instauração da ditadura militar, Veiga abordou temas mais delicados do Brasil, em seu segundo livro de contos: Domingo de Festa aborda o extermínio dos povos indígenas ao mostrar a trágica jornada de Aritakê, que decide viver na sociedade do homem branco, mas acaba marginalizado, escravizado, preso e, por fim, morto. A figura da autoridade também passa a exibir uma face mais severa: “Era muito perigoso criar questão com um soldado que tem uma brecha na testa e morte nas costas”, pondera o protagonista de Uma Pedrinha na Ponte, que se engraça com Geny, mulher do militar Constantino.

“A obra de Veiga revela o contexto de medo e opressão dos anos 70, com o AI-5 chegando a extremos de proibições e cerceando a liberdade dos brasileiros. Uma das marcas da ditadura brasileira era esconder a opressão por trás da ideia de progresso, como está muito bem representado em toda a obra desse escritor”, escreve a pesquisadora Irene Severina Rezende em sua tese de doutoramento O Fantástico no Contexto Sócio-Cultural do Século 20. “Embora essa denúncia do real seja feita por meio do insólito, o autor expõe os problemas sociais que imperam numa sociedade em transformação, como foi aquela da década de 1960, quando o temor da invasão tecnológica e a superioridade da máquina assustavam a todos.”

Não surpreende, então, que em seu derradeiro volume de contos, Objetos Turbulentos, o ambiente rural tenha sido quase totalmente substituído pelo urbano e as temáticas antes regionalistas ganhem aspecto cosmopolita, sintoma de um país já totalmente integrado à globalização.

Na obra de José J. Veiga, o elemento insólito sempre se insere como ruptura em um mundo arcaico regido pelas leis do costume e ameaçado – ou já extinto – pelo avanço do progresso. Esse evento disruptivo sempre se impõe alterando relações sociais, rotinas e códigos de conduta, deslocando situações corriqueiras para o terreno do absurdo. É como disse o próprio Veiga em uma entrevista a Antonio Arnoni Prado publicada em 1989: “Um mundo fantástico? É o nosso mundo”. 

Tudo o que sabemos sobre:
José J Veigaliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.