Editora 34
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Contos de Liudmila Ulitskaia trazem prosa inconformista, mas jamais rancorosa

O estilo da escritora russa em 'Meninas' é intimista e elegíaco, mas por vezes agridoce e bastante mordaz

Paulo Nogueira, Especial para o Estadão

06 de novembro de 2021 | 15h00

A literatura russa, de Pushkin a Brodsky uma das melhores do mundo, continua a todo vapor. Só no quesito “Liudmila” temos duas opções convidativas: a Petruvskaia (que roubou a cena na Flip 2018) e a Ulitskaia, autora do volume de contos Meninas, um dos melhores lançamentos de 2021 no Brasil.

Hoje com 78 anos, autora aclamada e intelectual pública, Ulitskaia vegetou décadas no limbo plúmbeo da sociedade soviética. Os pais dela eram judeus secularizados, ambos da área científica: a mãe bióloga e o pai, engenheiro. A futura escritora formou-se em Genética na Universidade de Moscou. Não era um campo fácil: Stalin vociferara que o darwinismo não passava de ciência burguesa, e promovera o picareta agrônomo Trofim Lyssenko e sua “biologia proletária”, desmascarada somente na década de 1970 como reles charlatanismo. Como desgraça pouca é bobagem, Liudmila foi demitida do Instituto de Genética por ler e distribuir “samizdat” (a literatura clandestina, muitas vezes copiada à mão, que driblava a censura da Cortina de Ferro). 

Só com 40 anos Ulistakaia se dedicou plenamente à escrita. O primeiro passo foi como diretora do Teatro Hebraico de Moscou (hoje ela divide seu tempo entre Israel, a Rússia e a Itália). Na medida em que o conceito soviético de “nacionalidade” estava desvinculado da religião, Liudmila professou o cristianismo: ela e muitos outros identificavam-se cultural e etnicamente como judeus, e religiosamente como cristãos. Não era uma contradição (mais tarde ela rompeu com a Igreja Ortodoxa, cooptada por Putin). 

Providencialmente, Ulistakaia atingiu a maturidade literária com a Perestroika e a Glasnost. Escreveu mais de 20 obras, traduzidas para 25 idiomas. Embolsou inúmeros prêmios internacionais de alto pedigree e foi a primeira mulher a ganhar o Booker Prize russo. Foi em 2001 com o romance O Caso Kukóstki, sobre um médico que ajudou milhares de russas a engravidar e a dar à luz, mas também a abortar (o aborto era proibido na URSS).

Já sob Putin (de quem é uma nêmesis), Liudmila virou uma voz de imensa autoridade moral, participando da Liga dos Escritores e sendo caluniada pelo Kremlin, em jornais oficiais como o “Izvestia” e até em outdoors nas avenidas de Moscou, em que a foto de Ulitskaia apareceu ao lado de dois roqueiros, um jornalista e outro escritor, sob a legenda: “Vendidos aos EUA”. Para sorte dela, Liudmila se tornou popular demais para lhe servirem chás indigestos. 

Porém, se tem uma coisa que a obra de Ulitskaia não é, é panfletária. Sim, ela aborda tópicos tabus na URSS – o Gulag, o Holocausto, os judeus, a KGB, a ditadura stalinista. Contudo, essas alusões urdem o pano de fundo para as vidas privadas e cotidianas de personagens comuns, mas profundamente exuberantes e  idiossincráticos. A ficção dela segue a mesma abordagem assumida pela Nobel bielo-russa Svetlana Aleksiévitch: “Agora, que o mundo mudou irrevogavelmente, essa nossa vida tornou-se interessante para todos – não importa como ela fosse, era a nossa vida. Procuro nos grãozinhos, nas migalhas da história do ‘socialismo doméstico e interior’, como ele vivia na alma humana.” 

Assim, nos contos de Meninas Liudmila descreve uma caleidoscópica galeria de pré-adolescentes moscovitas das décadas de 1950 e 60, por vezes contrastada com a afetuosa senescência de avôs e bisavôs.  Desfilam os nichos familiares, as brincadeiras possíveis, a primeira menstruação (em No dia 2 de Março Daquele Mesmo Ano, a protagonista tem seu primeiro período no dia da morte de Stalin, em 1953, nunca mencionado nominalmente), as perplexidades da infância acossada pela puberdade da iminente mulher. 

O estilo é intimista e elegíaco, mas por vezes agridoce e bastante mordaz – mesmo às referências históricas e oblíquas ao totalitarismo (como a última farsa de Stalin, em 1952, quando acusou médicos judeus de um plano para assinar líderes soviéticos). No conto A Dádiva Prodigiosa, um moça sem braços obtém privilégios por bordar o retrato do Pai dos Povos com... os pés. 

A prosa de Ulistakaia, se é inconformista, jamais é rancorosa, denotando o otimismo da esperança, da sabedoria humana e da paixão pela existência. Vira e mexe, como uma verve requintada: “Os fatos são os seguintes: primeiro nasceu Gayané, sem causar à mãe nenhum sofrimento acima do esperado. Quinze minutos depois, veio ao mundo Viktória, provocando duas grandes lacerações e muitos pequenos estragos nos portões sagrados, pelos quais é tão doce e fácil entrar, mas tão difícil e doloroso sair.”

Meninas é de leitura deliciosa e contém no mínimo uma obra-prima: Filhas de Outro, uma versão russa da machadiana DR icônica entre Bentinho e Capitu, com menos ambiguidade mas não inferior na voltagem dramática, só viável para quem conhece o espírito humano de cor e salteado: “Na juventude temera as mulheres, considerando-as seres baixos e depravados. Abrira exceção para a finada mãe e para a esposa. Mas agora sua fé em Margarita como uma criatura elevada e irrepreensível desmoronara de vez. Todas, todas, todas eram... E proferiu aquela palavra trivial, calva, rosada como vômito, com uma satisfação sádica e um sotaque inextinguível. Putas — essa era a palavra.”

Em sua recente biografia de W. G. Sebald, Carole Angier diz que o autor alemão aplicava “uma espécie de periscópio, para capturar da imobilidade subaquática de seus mundos um ângulo de visão desconcertante.” Ulistakaia faz mais ou menos o mesmo, porém substituindo o periscópio por um estetoscópio, que encosta ao desafinado coração humano. 

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