Contra a manipulação do medo Em 3 dos 10 filmes italianos apresentados no Festival de Veneza, os cineastas usam a arma de que dispõem para desconstruir a política indutora do repúdio ao imigrante

LUIZ ZANIN ORICCHIO

ENVIADO ESPECIAL / VENEZA, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h08

Em Terraferma, de Emanuele Crialese, um velho capitão salva um grupo de clandestinos na costa italiana e os abriga em sua casa, contrariando a legislação que o obrigava à denúncia. Em Il Villaggio di Cartone, o veterano diretor Ermano Olmi imagina uma igreja abandonada na qual um velho padre (Michael Lansdale) esconde da polícia um grupo de refugiados. Em L'Ultimo Terrestre, Gian Alfonso Pacinotti fala de uma suave invasão de alienígenas na Itália. Seres sensíveis, os ETs não aguentam muito tempo os hábitos brutais do país e tratam de dar o fora.

Coincidência temática? Nada disso. Esses são três dos dez filmes italianos que participaram do recém-encerrado Festival de Veneza a falar, direta ou indiretamente, do problema da imigração dita "clandestina" no país. Todos com parti pris claro em favor dos imigrantes e contra as forças mais cavernícolas da direita italiana, que tentam fazer da questão social mero caso de polícia.

Um tanto surpresos com a frequência do tema, alguns jornais falaram em "fixação dos cineastas pelos imigrantes". "Ora", responde Crialese, "os filmes refletem apenas o país em que vivemos." De acordo com o cineasta, romano de nascimento, basta um mínimo de sensibilidade para simpatizar com essas pessoas que tentam buscar nova vida na Itália e se dispõem a arriscar a pele para isso.

O trabalho cinematográfico com esse tema pode vir no registro realista e emocionado de Terraferma, sob a forma da consciência cristã de Il Villaggio de Cartone ou ainda da ficção científica de L'Ultimo Terrestre.

Pode vir também na chave da sátira cruel, como é o caso de Cose dell'altro Mondo, do napolitano Francesco Patierno. O ator Diego Abatantuono faz um pequeno empreendedor do Vêneto, racista e desbocado. Numa cena polêmica, ele dá uma entrevista a uma TV local e recomenda aos estrangeiros que "peguem seus camelos e voltem para casa". Na ficção de Patierno, os imigrantes, tantas vezes "convidados" a se retirar, deixam de vez a Itália. O que aconteceria se isso se concretizasse? O caos no mercado de trabalho.

O filme causou tanta polêmica que Luca Zaia, presidente da região vêneta, uma espécie de governador de Estado no modelo italiano, acusou: "Fomos retratados como racistas, mas isso não é verdade". Ele é um político jovem, nascido em 1968, membro da Liga Norte, o partido de ultradireita, separatista, que faz parte da coalizão de apoio a Berlusconi.

Outros filmes, como Là Bas e Io Sono Li também colocam os imigrantes no centro da trama. Là Bas, de Guido Lombardi, relata o encontro entre um jovem africano que desembarca na Itália e seu tio, traficante de drogas. Já Io Sono Li, de Andrea Segre, escolhe uma chave poética, narrando o caso de amor entre uma mulher de Chioggia, província do Vêneto, e um imigrante chinês. "Esses filmes servem para resgatar a dignidade humana dos estrangeiros", diz o diretor. "A demagogia do medo apenas serve para perdermos a ocasião de um crescimento da nossa civilidade", acredita.

Os números reais da imigração para a Itália podem ajudar a compreender o fenômeno. A entrada de estrangeiros aumentou 1.000% nos últimos dez anos. Já representam 7% da população do país, e esse número aumenta para até 20% em regiões mais desenvolvidas e industrializadas do norte e do nordeste. Desse modo, notícias e comentários relativos à imigração passaram a ocupar posto privilegiado nos veículos de comunicação (14% do tempo de telejornais é consumido no assunto).

No entanto, em sondagens de opinião pública, imigrantes são a preocupação principal apenas para 6% dos cidadãos, enquanto a economia, o emprego e o custo de vida respondem por 55% das inquietudes da população. Outro dado: a questão da segurança, tão associada aos imigrantes, ocupa 55% do noticiário televisivo, mas só é a principal preocupação para 10% da população.

Tal disparidade entre os assuntos eleitos como prioritários pela mídia e as preocupações reais dos cidadãos faz um ensaísta como Ilvo Diamanti escrever no La Repubblica (12/9/2011) que se trata de "clara tentativa de construção política e mediática da insegurança, de modo a provocar o medo dos outros".

Enfim, não é nada original eleger um bode expiatório em tempos difíceis. O que há de novo é a percepção dos cineastas, talvez inconsciente, de que a manipulação do medo é uma questão política a ser enfrentada e desconstruída. Através do cinema, que é a arma à sua disposição.

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