Contrariando previsões, a Irmandade deve se ater mais à reorganização do Egito que a cortar mãos

ALDO CORDEIRO SAUDA

ALDO CORDEIRO SAUDA É CIENTISTA POLÍTICO RESIDENTE NO CAIRO DESDE O INÍCIO , DA REVOLUÇÃO EGÍPCIA, MARCIA CAMARGOS É JORNALISTA COM , PÓS-DOUTORADO EM HISTÓRIA PELA USP, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h07

MARCIA CAMARGOS

Depois de 83 anos de espera, ela finalmente chegou lá. Maior, mais antiga e importante organização islamista do Oriente Médio, a Irmandade Muçulmana alcançou a presidência do Egito. Em meio a uma semana de golpes e contragolpes, que incluiu a dissolução do Parlamento, a imposição de lei marcial e um suspeito adiamento do anúncio do vencedor das eleições presidenciais, o mais populoso país árabe enfrenta sua primeira experiência com um governo ao mesmo tempo civil e islâmico.

Apesar da vitória nas urnas, nem tudo são flores para os islamistas. Cercados por um ambiente hostil composto por militares pouco habituados a divergências políticas, uma elite altamente secular e um movimento de massas radicalizado e disposto a protestar, os irmãos terão pela frente seu mais duro teste de pragmatismo político. Não que o grupo tenha mau desempenho no quesito "adaptação ao status quo". Descontando os últimos meses de tensa disputa eleitoral, a organização tem se provado, desde a revolução, a mais estável e importante aliada da junta militar que comanda o país.

A própria candidatura do insosso Mohamed Mursi, figura monótona e pouco instigante, derivou mais da intransigência quase infantil dos militares do que de um desejo da Irmandade. Não poucas vezes seus porta-vozes declararam falta de pretensão em disputar a presidência da república. Reiteradamente deixaram claro que preferiam apoiar um candidato de consenso entre eles e o Exército.

Apesar de tal fórmula agradar à junta, os generais entenderam como "candidatura de consenso" o apoio irrestrito da Irmandade aos seus antigos carrascos. Insistindo para que os islamistas respaldassem figuras como Omar Suleiman, ex-vice presidente de Hosni Mubarak, a aliança inevitavelmente desabou na véspera das eleições. Após 12 meses mobilizando sua base para endossar o regime militar, não raro entrado em confronto físico com os revolucionários da Praça Tahrir, a Irmandade sentiu-se jogada para escanteio.

Na verdade, estabelecendo as regras do jogo, alteradas no meio do caminho de acordo com a necessidade do momento, as Forças Armadas egípcias fizeram todo o possível para intimidar os irmãos. Não por acaso, o primeiro Parlamento democraticamente eleito da história do país, cuja presidência coube à Irmandade, foi abolido para evitar uma concentração de poder em mãos islamistas. O próprio presidente eleito, Mursi, correu o sério risco de ganhar as eleições e não levar. O adiamento do anúncio de sua vitória, já sabida por todos, foi usado como instrumento de barganha pelos militares. Seus objetivos eram claros: reduzir ao máximo a possibilidade de um governante civil atacar os privilégios políticos, econômicos e sociais dos generais.

Nesse contexto, não causará estranheza se a Irmandade ceder o controle do Ministério do Interior e da Defesa às Forças Armadas. Surpreendeu, sim, a interessante interlocução com alguns setores laicos da Praça Tahrir. Pouco antes do anúncio da vitória, os irmãos divulgaram a formação de uma "Frente de Salvação Nacional", criada para supostamente reforçar o caráter pluralista do novo governo. Assim, figuras fortemente associadas ao secularismo liberal, como o executivo da Google Wael Gomin, deram seu selo de aprovação aos recém-eleitos dirigentes.

Estabelecido para nortear os futuros governantes, o projeto para os primeiros cem dias de gestão é indicativo do revitalizado perfil dos islamistas. Os que temem um retorno do califado podem dormir tranquilos. Ao menos nesta fase, a Irmandade está mais preocupada em organizar o caótico trânsito da cidade do Cairo do que restabelecer a sharia.

No melhor espírito Bolsa Família, Mursi anunciou que pretende reestruturar toda a política de subsídio do pão, visando a melhorar sua qualidade, distribuição e valor nutricional. A medida, que afetará uma das principais bases de sobrevivência da população, sem dúvida será capitalizada nas próximas eleições.

À proposta de "instalação de modernos faróis de trânsito" e de incentivos financeiros aos padeiros, soma-se a promessa de remover as montanhas de detritos que submergem a capital do país. Além de investir em cooperativas de coleta e proibir o despejo de entulho em espaços públicos, os irmãos pretendem, nos sermões das sextas-feiras, alertar os fiéis sobre "o pecado de machucar as pessoas ao atirar lixo nas ruas". Contrariando as previsões de cenários catastróficos diante de uma eventual vitória da Irmandade, possivelmente no futuro a organização será lembrada mais pela instalação de latas de lixo do que por cortar as mãos dos pecadores.

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