James Ramsay
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Controverso, Almirante Cochrane ganha biografia

Conhecido como ‘Lobo do Mar’, oficial ganhou poema de Pablo Neruda e virou monstro no folclore nacional

Elias Thomé Saliba, Especial para o Estadão

05 de fevereiro de 2022 | 16h00

Foi apelidado de “lobo do mar” por Napoleão Bonaparte. Em Valparaiso, no Chile, ganhou estátua, museu e até hoje é reverenciado como herói local. Pablo Neruda dedicou-lhe um poema, cantando o seu “errante destino de almirante libertador dos povos”. “Foi o primeiro grande condottiere naval da consolidação da independência brasileira, anunciada em 1822”, segundo o historiador Oliveira Lima. Já outros historiadores e políticos chamaram-no de “herói maldito”, “corsário”, “guerreiro de aluguel” e outros epítetos desabonadores.

Parte da tradição popular maranhense chegou a compará-lo ao cruel Marechal francês Pierre Labatut – aquele que no folclore brasileiro, acabou transmutado no horrendo monstro Labatut, de olho na testa e dentes de elefante. 

Seja como for, reverenciado como herói ou vilão, ele é figura obrigatória no capítulo que alguns manuais de História do Brasil costumam chamar nomear como “guerras de consolidação da independência”. É este personagem controverso e polêmico, o escocês Lorde Thomas Cochrane, que ganha a sua mais alentada e bem documentada biografia, escrita por George Ermakoff – que vasculhou arquivos estrangeiros e compulsou relatos que, em sua grande maioria, foram escritos fora do Brasil. 

O livro revela detalhes de alguns eventos da conturbada trajetória de Cochrane que, senão contradizem, pelo menos atenuam muito do que já foi escrito a respeito daquele que primeiro comandou a Marinha Brasileira. Eleito deputado a partir de 1806, Cochrane era muito popular em alguns distritos ingleses, atacando sobretudo o establishment político e o tratamento desprezível que o Almirantado Real dava a comandantes, marinheiros e heróis de guerra. Coragem e gênio militar foram bastante ressaltados, mas o que mais pesou foi a sua excessiva cupidez argentária. Lembre-se que foi uma época em que um oficial naval conseguia acumular uma riqueza razoável com os “prêmios” das presas de guerra, principalmente aquelas obtidas nas guerras napoleônicas. 

 Mas o episódio que mais pesou na biografia de Cochrane e que já desenhou a sua má fama quando veio para comandar frotas no Chile e depois, no Brasil, foi seu envolvimento numa fraude da Bolsa de Valores de Londres, em 1814. O caso começou com uma fake news: sim, elas já existiam, mas demandava muito tempo para desmascará-las, pois as comunicações eram lentas. O boato, afirmando que os aliados haviam entrado em Paris e Napoleão tinha sido morto e esquartejado, foi escrito num bilhete por Charles de Berenger, com o qual Cochrane havia supostamente se encontrado alguns dias antes. O lorde, que também era investidor na Bolsa, foi acusado e preso. Na verdade, o que as diversas fontes sugerem é que o provável autor da manipulação foi o tio de Thomas, Andrew Cochrane – o qual, chegou a ser denunciado como réu no processo, mas fugiu do país antes de ser preso. Outra razão apontada por Ermakoff, é que a notícia que embasou a fraude era demasiado primária e incompatível com a personalidade ardilosa e detalhista de Cochrane. Julgado e condenado, Cochrane foi preso, perdendo todos os seus títulos e só conseguindo escapar da prisão, alguns meses depois. Foi recapturado e cumpriu a pena de um ano, escapando da pena de ficar exposto por algumas horas no pelourinho, defronte à Bolsa de Londres – um castigo cancelado pela justiça, provavelmente por temor de uma revolta popular. 

Já com idade mais avançada e depois de suas tempestuosas missões marítimas em vários países, Cochrane também foi uma espécie de inventor, investindo em desenhos e protótipos de navios a vapor, com boilers e motores rotativos e até tornando-se pioneiro na pavimentação de ruas, ao utilizar-se, pela primeira vez do asfalto, numa rua de Westminster. Como interessante capítulo da história militar da época, a bem documentada biografia do polêmico almirante fornece ainda descrições detalhadas de fragatas, brigues e corvetas, com seus respectivos canhões, armas giratórias e poder de fogo.

A personalidade obstinada de Cochrane, indômito e, por vezes, inflexível esbarrou com o cenário histórico complexo e ambíguo daquela época. A difusa ideologia do comércio livre, que sustentava a construção de um “informal império inglês”, incentivou o governo da Inglaterra a fazer vista grossa às muitas incursões e batalhas marítimas na América do Sul e aos seus respectivos ganhos dos súditos ingleses em butins, soldos e presas. Outro cenário complicado era o Brasil, logo após o 7 de setembro: o primeiro acordo financeiro com Cochrane foi feito por meio de José Bonifácio. Contudo, com a crescente interiorização da metrópole e dos interesses das cortes no Rio de Janeiro –- que se concretizaram politicamente com o domínio do Gabinete Português –, os acordos com Cochrane desandaram, transformando-se numa pendenga jurídica resolvida apenas em 1874, 14 anos após a morte do escocês, quando o império brasileiro, sob o comando de D.Pedro II e cumprindo ordem de uma arbitragem internacional, pagou com juros a dívida referente a soldos e presas de guerra. Em face deste cenário histórico ambíguo, certamente a polêmica sobre Cochrane deve continuar. Mas a primorosa e equilibrada reconstrução biográfica realizada por Ermakoff deve contribuir para esclarecer pontos controversos de um importante evento da história brasileira – aquele que verá sua efeméride centenária comemorada em 2022.

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