Convergência para encarar a desigualdade

Depois do teste sem sobressaltos da ?presidência de esquerda?, PT e PSDB podem, enfim, se aproximar

Fábio Wanderley Reis*, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2008 | 23h58

Dias atrás, em evento devidamente fotografado e divulgado que reunia o prefeito petista Fernando Pimentel e o governador tucano Aécio Neves, vimos o presidente Lula manifestar-se claramente contra a decisão da direção nacional do PT que proibiu a aliança com o PSDB na disputa da prefeitura de Belo Horizonte. Na percepção de muita gente, a leitura do significado dessa manifestação se combina com a do comovido e comovente abraço entre Lula e Fernando Henrique no velório de Ruth Cardoso. Seja qual for a propriedade de juntar as duas coisas (afinal, nas dolorosas circunstâncias do encontro dos dois, são muitos os que gostariam de poder abraçar Fernando Henrique da mesma forma calorosa, à parte qualquer assunto político), a manifestação de Lula em Belo Horizonte redunda em tornar vividamente explícito o afastamento entre o presidente e seu partido. O afastamento já se evidenciara pelo menos desde a turbulência de 2005. Se o capital eleitoral do PT lhe permitiu ainda, apesar de seu papel na turbulência e das dissensões acarretadas, bons resultados nas últimas eleições, é inegável a crise em que o partido se debate desde então, concomitantemente com a força adquirida pelo fenômeno do lulismo, o apoio pessoal a Lula. Por outro lado, com o lulismo vitorioso em 2006 e fortalecido, a crise do PT acaba por transformar-se em crise ampla dos partidos. Sem falar da oposição em geral à espera de um novo mensalão (que fosse, ademais, capaz de dar certo como tema eleitoral...) e do intenso revés do PFL, condenado à procura de novas bases e até a carregar seu desajeitado nome novo, temos o PSDB outra vez vencido na disputa da Presidência, além de enredado na abjurante campanha de Alckmin e exposto, agora, a riscos menores e maiores de divisão talvez fatal. Mais importante, porém, é que se vê comprometido o protagonismo conjunto de PT e PSDB, os dois partidos de maior consistência, cuja prolongada disputa de hegemonia no quadro político nacional parecia justificar a expectativa de que viessem a repartir entre si a identificação e o apoio firme e duradouro de parcelas majoritárias do eleitorado e criassem, assim, as bases estáveis de um sistema partidário mais simples e forte.O quadro em que a manifestação de Lula se inscreve pode ser apreciado de alguns ângulos distintos. Um deles envolve problemas de economia interna do PT "realmente existente". É compreensível, naturalmente, que o partido, empenhado em reafirmar-se, não queira envolver-se em arranjos que possam resultar em favorecer um potencial candidato tucano à Presidência em 2010. Essa perspectiva, entretanto, é desatenta à crise, e pouco diz a quem se preocupe com a consolidação institucional do sistema partidário no País, se necessário, reestruturado. São circunstanciais, ao cabo, as razões que levaram a que o protagonismo PT-PSDB se desse com o enfrentamento entre eles. De outro lado, se o PT representou uma experiência singular na história política do País, a singularidade se deve à combinação que pôde realizar do esforço de construção institucional de um partido supostamente orientado por idéias e princípios com o simbolismo popular e o fator de atração representado, nas condições que distinguem a maior parte do eleitorado brasileiro, pela figura de Lula. Comprometida na crise a imagem de peculiar adesão a princípios; realizado no governo o aprendizado de moderação e equilíbrio (e continuidade) na política econômico-social; reconhecida a importância do êxito do realismo econômico e do esforço na política social ao estilo Bolsa-Família para o fortalecimento do apoio a Lula e superado no processo, presumivelmente, o liminar rechaço "socialista" a qualquer coisa que sugerisse "social-democracia", não parece haver razão, normativamente, para que os fatores circunstanciais do enfrentamento entre os dois partidos continuem a prevalecer sobre a idéia de um campo social-democrático em que eles, em vez de enfrentar-se, colaborem. Por certo, se deixamos o plano normativo, a própria história de enfrentamento redunda em obstáculos importantes a que se viabilize a aproximação. Mas Lula e o lulismo, de relevante papel potencial já na próxima eleição para a Presidência, trazem talvez um componente de realismo às negociações e acomodações necessárias a eventualmente reestruturar o quadro partidário de modo propício - de modo, vale dizer, a substituir a luta entre uma esquerda que um dia sonhou com a revolução que agora sumiu do horizonte e um centro de bons quadros e menor apelo eleitoral pela frente comum em torno de idéias que surgem elas próprias, na atualidade mundial, como alvo de disputas encarniçadas em que até as conquistas do estado de bem-estar são postas em xeque.Isso indica outro ângulo a partir do qual apreciar o quadro geral. Discussões clássicas sobre partidos e sistemas partidários costumam recorrer, com fórmulas diversas, a certa oposição básica: A. Pizzorno contrapõe a mobilização pelos partidos ideológicos de massa de "identidades políticas irredutíveis" a situações de democracia consolidada em que partidos eleitoralmente orientados se dispõem à negociação; G. Sartori fala de formas polarizadoras e "centrífugas" de competição política que põem em risco a democracia e de formas convergentes ou "centrípetas". No Brasil, sem termos passado, dadas nossas condições sociais gerais, pela experiência amadurecida com partidos ideológicos, penamos longamente com a instabilidade institucional ligada às mudanças que experimentamos juntamente com a inserção num cenário internacional de conflito. Com nossa democracia agora aprovada no teste de uma Presidência originalmente "de esquerda" e popular, que caminha para o desenlace sem sobressaltos institucionais, o desafio é o de como construir a convergência que garanta substrato político-eleitoral ao avanço consistente e persistente na luta contra a desigualdade social. E não há por que resignar-se a que estreitezas sectárias ou interesses menores comprometam o objetivo. * Fábio Wanderley Reis, cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais, é autor de Política eRacionalidade (UFMG)DOMINGO, 29 DE JUNHOAliança em Belo Horizonte Márcio Lacerda, ex-secretário no governo Aécio Neves, foi confirmado na convenção municipal do PSB para disputar a prefeitura de BH. O vice é Roberto Carvalho, do PT. A candidatura foi costurada entre Aécio, do PSDB, e o atual prefeito petista, Fernando Pimentel.

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