Conversa entre Trump e Kim Jong-un remete a outros encontros históricos

Conversa entre Trump e Kim Jong-un remete a outros encontros históricos

Aperto de mão tem tudo para ser o evento mais pitoresco do ano

Sérgio Augusto , O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 16h00

“Pan-mun-jom! Coreia. O presidente do Estados Unidos, Dwight Eisenhower, teve um encontro com o líder norte-coreano Kim Il-sung, na zona desmilitarizada da Coreia.”

Não, isso não aconteceu. Poderia ter acontecido, em 1952, quando o recém-eleito mas ainda não empossado sucessor de Harry Truman visitou a Coreia, com a ideia fixa de pôr fim ao primeiro conflito armado da Guerra Fria, iniciado dois anos antes e até hoje sem um desfecho lavrado em ata. 

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Sessenta e seis anos e uma dezena de presidentes americanos depois, o impasse continua. De todo modo, se não houver mais spoilers, Donald Trump deverá se consagrar como o primeiro presidente dos EUA a apertar a mão de um líder norte-coreano e oficializar a paz na península. Para compensar o retardo, a garantia de que o tão aguardado encontro de Trump com Kim Jong-un, neto daquele cuja mão Eisenhower não apertou, tem tudo para ser o evento mais pitoresco do ano, o confronto de duas insânias iguais e contrárias e dois bizarros topetes. 

Os republicanos têm um currículo de encontros históricos mais satisfatório que os democratas. Foram esses, porém, que inauguraram o filão, no século passado, com Franklin Delano Roosevelt acertando os ponteiros com Stalin, em Teerã. A inexperiência e os efeitos colaterais do coquetel de remédios que o democrata John Kennedy tomava diariamente impediram-no de lidar em igualdade de condições com Kruschev, em Viena, no verão de 1961. Dois anos antes, o então vice (do republicano Eisenhower) Richard Nixon se saíra bem melhor ao peitar o sucessor de Stalin numa feira de produtos americanos em Moscou. 

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Em 1972, já presidente, o anticomunistíssimo Richard Nixon foi à China e apertou a mão do Camarada Mao, a quem, aliás, causou boa impressão. O momentoso encontro até gerou uma ópera de John Adams, Nixon in China. O também republicano e anticomunistíssimo Ronald Reagan acabou ficando amigo do último líder soviético, Mikhail Gorbachev, seu parceiro no desmonte da URSS. 

Foi na voz mítica de Heron Domingues, locutor oficial do noticioso radiofônico Repórter Esso, nacionalmente transmitido pelas ondas curtas e médias da Rádio Nacional, que ouvi pela primeira vez, fascinado, as palavras Panmunjom, Seoul e Paralelo 38. A televisão (Tupi) mal fora inaugurada, só transmitia parte do dia; o rádio era a nossa única antena com o mundo. 

O conflito na Coreia foi a primeira guerra que acompanhei, com algum tirocínio, na vida. Colegas de escola e rua a confundiam com a guerra do Pacífico, encerrada poucos anos antes. Não sabiam distinguir Iwo Jima de Inchon, nem coreano de chinês e japonês. Eu sabia, mas levei muitos anos para descobrir que não havia mocinhos nitidamente definidos naquela carnificina, ao contrário do que ocorrera nas duas guerras mundiais. Hollywood e a mídia nos vendiam uma visão tendenciosa das hostilidades. Propagandística, mesmo. O Homem do Ano de 1950 da revista Time foi o soldado americano, o anônimo G.I. que lutava pelo “mundo livre” a 11 mil km do solo pátrio. 

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Oficialmente, a guerra durou três anos, de 1950 a 1953. Foi mais uma guerra civil, patrocinada pelos interesses americanos na Ásia, não simplesmente a invasão de um país (Coreia do Sul) por outro (Coreia do Norte). I.F. Stone, meu guru jornalístico, publicou o primeiro ensaio controverso sobre o conflito. Levantou questões fundamentais a respeito de suas origens, de como os EUA manipularam a ONU, a cúpula militar americana e a oligarquia sul-coreana sabotaram as negociações de paz, forçando a guerra a arrastar-se indefinidamente, até chegar-se a uma trégua, sem rendição, mas já envolvendo, como agora, ameaças nucleares – exclusivamente da parte dos americanos. O avô de Kim Jong-un não possuía um isótopo. 

Publicado em 1952, em pleno macarthismo, The Hidden History of the Korean War foi um ato de bravura jornalística. Os documentos secretos liberados 40 anos mais tarde confirmaram a maior parte das revelações de Stone, este sim merecedor do título de O Homem do Ano. 

Em seu reputado estudo sobre a guerra, Hugh Deane acrescentou-lhe cinco anos: The Korean War, 1945-1953. Truman, não Eisenhower, estava fresquinho na Casa Branca quando o conflito, segundo Deane, começou a ser urdido. O livro saiu no ano (1999) em que o governo americano admitiu haver cometido atrocidades na Coreia. Centenas de civis foram mortos pelos bravos G.I.s perto do vilarejo de Nogun, em julho de 1950, ou seja, seis meses antes da capa da Time glorificá-lo. Nogun foi uma espécie de My Lai coreano.

E nós aqui – falo por mim e meus colegas de escola e rua – a torcer, ingenuamente, pelos heroicos personagens interpretados por Robert Mitchum, Gregory Peck, William Holden, Rock Hudson e outros menos condecorados. Contra inimigos sem rosto e sem alma.

Hollywood não se sentiu lá muito motivada a badalar o esforço de guerra. Produziu meia centena de filmes ao longo de sete décadas, uma dezena apenas com algum atrativo, que às vezes nem era a guerra em si, como nos casos de Suplício de uma Saudade, Sob o Domínio do Mal e, mais recentemente, a telessérie Mad Men e Gran Torino, de Clint Eastwood. Destaque para Samuel Fuller, que em 1951 estreou como diretor com o primeiro filme ambientado na matança coreana (Capacete de Aço) e emendou com outro, Baionetas Caladas!, e ainda faria No Umbral da China. Era uma ideia fixa de Fuller. 

Nenhum dos citados fez tanto sucesso quanto a comédia Mash, que depois virou série de TV. Apesar de ter como pano de fundo a guerra na Coreia, Mash, de Robert Altman com roteiro de Ring Lardner Jr., pretendia mesmo abordar, obliquamente, outra guerra, a do Vietnã, ainda em curso em 1970. Deu para notar pelo inapropriado penteado de sua soldadesca. Na Coreia os G.I.s usavam cabelo escovinha, não tinham aquela aparência quase hippie dos oficiais lotados no Hospital Cirúrgico Móvel do Exército (Mash, na sigla em inglês). 

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