Conversa fiada ambiental

Contra o aquecimento global, Hu e Obama ficam só em vagos objetivos

Sérgio Augusto,

21 de novembro de 2009 | 17h45

Porque esperavam das conversas de Obama com o presidente chinês, Hu Jintao, muito mais do que eles podiam ou estavam dispostos a oferecer, os ambientalistas foram os que mais se decepcionaram com o encontro dos dois em Pequim, no início dessa semana. Eles tinham e têm muito o que conversar.

 

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Responsáveis, juntos, pela emissão de 40% dos gases de efeito estufa, Estados Unidos e China são os maiores poluidores do planeta, os dois países que mais contribuem para o aquecimento global. Daí a expectativa geral de que os dois presidentes oferecessem algo além de vagos compromissos de combate às causas do aquecimento global, até porque só faltam 15 dias para o início da Convenção de Mudanças Climáticas da ONU, em Copenhague.

 

"Cada país fará sua parte de acordo com sua capacidade", prometeu o presidente chinês. "Precisamos convocar o mundo para encontrarmos uma solução para o aquecimento global", exortou o presidente americano. Mera parolagem protocolar. No dia seguinte, a revista Nature Geoscience atualizaria os dados sobre as emissões de CO2: aumentaram 2% no ano passado. Se as providências recomendadas pelos mais confiáveis estudiosos do assunto não forem tomadas, esse índice poderá chegar a 39% em 2020.

 

Ainda em Pequim, mas já de olho na cúpula climática da ONU, Obama manifestou sua preferência por decisões que tenham "efeito operacional imediato", mas não sejam impositivas. Ou seja, medidas práticas, mas facultativas. Quase um oxímoro.

 

Mesmo operando de forma acanhada e com atraso (investiu o melhor do seu tempo na reforma do plano de saúde e discutindo as guerras no Iraque e Afeganistão), Obama parece agir com mais rapidez que o Congresso americano. A Câmara aprovou uma redução nas emissões de 17% (sobre os níveis de 2005), que o Senado pensa em ampliar para 20%, mas os 80% agendados para 2050 enfrentam tenaz resistência da oposição.

 

Os republicanos insistem que uma ação isolada dos Estados Unidos não resolverá o problema climático. Claro que não, mas ninguém duvida que até os relutantes e evasivos chineses se sensibilizariam com uma demonstração de firmeza da parte dos americanos.

 

Mas até agora, nada. Nem de Pequim, nem de Washington.

 

Todd Stern, o principal negociador dos americanos em discussões ambientais, continua empurrando o negócio com a barriga e prometendo para breve um "número provisório". Seria lógico que os 20 países que mais contribuem para o efeito estufa fizessem um acordo entre si. Isso, porém, é impensável. Alguns países ricos ou em desenvolvimento não querem perder suas vantagens nem comprometer seu crescimento econômico. Não será fácil salvar a Terra dos que ajudam a destruí-la.

 

De qualquer modo, diversos países já puseram suas cartas na mesa. O Brasil comprometeu-se a reduzir suas emissões em quase 40% até 2020. Líderes da União Europeia, reunidos na Bélgica, fecharam com 20%. A Rússia, que antes divulgara uma redução de 15%, aumentou sua quota para 25%. Há dias, a Coreia do Sul anunciou um corte de 30% e prometeu manter-se fiel àquela meta ainda que nada seja decidido em Copenhague.

 

O Brasil, salve, salve, fez bonito. Ao menos da boca para fora, demos um exemplo de "compromisso voluntário" a ser seguido pelos que figuram, ao nosso lado, entre os maiores emissores de gases-estufa. A redução do desmatamento da Amazônia também encheu nossa bola e nos assegurou uma generosa fatia do fundo de US$ 275 milhões que os Estados Unidos prometeram investir na preservação de florestas tropicais em 2010.

 

Fizemos bonito, mas, até para não empanar nossa performance, devemos evitar bravatas e gestos de triunfalismo como o sugerido pela senadora Ideli Salvatti (PT-SC) na quinta-feira, quando ficou acertado que o compromisso do Brasil de diminuir suas emissões de CO2 seria transformado em lei. Pela vontade da senadora, os delegados brasileiros desfilariam pela convenção climática de Copenhague com uma cópia da lei debaixo do braço, para hostilizar os americanos.

 

Estes, aliás, prometem roubar a cena. Não os americanos da delegação oficial, mas os do movimento Climate Justice Action (Ação Justiça Climática). Seus integrantes defendem ardorosamente uma discussão mais ampla e profunda da questão ambiental, que leve em consideração todos os fatores ecológicos, sociais e econômicos que sobre ela incidem; desde a emissão de gases-estufa aos abusos da agroindústria.

 

No dia 30 deste mês, os militantes da Climate Justice Action farão um ensaio geral em várias cidades americanas, com palavras de ordem do tipo "se o clima fosse um banco, já teria sido salvo". Em 16 de dezembro, dois dias antes do encerramento da Convenção da ONU, invadirão a capital dinamarquesa montados em centenas de bicicletas, "as irresistíveis máquinas da resistência ecológica". Não pretendem tumultuar o encontro, apenas expandir sua pauta de discussões.

 

Nem a ONU acredita que o encontro de Copenhague produza um tratado capaz de controlar as emissões de gases-estufa. Um acordo, talvez. Possivelmente em duas etapas, se vingar a proposta do primeiro-ministro dinamarquês, Lars Rasmussen. Mais pragmático do que cético ou otimista, Rasmussen vê a cúpula da ONU como um ponto de partida para futuras decisões. "Será um fórum crucial para comprometer 192 países com as mudanças climáticas, discutir números, trocar ideias e estabelecer compromissos", estima o anfitrião da maior reunião sobre a questão climática dos últimos 12 anos.

Há 12 anos, em Kyoto, combinou-se que 37 países industrializados reduziriam suas emissões de gases-estufa 5% abaixo dos porcentuais de 1997. A China ficou isenta dessas obrigações por não ser, ainda, uma superpotência econômica; e os Estados Unidos de Bush simplesmente não as acataram. Deu no que deu. O Protocolo de Kyoto expira no final de 2012. Que coincida com o fim do mundo previsto no calendário maia é mera coincidência.

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