Eddie Alvarez/The Washington Post
Eddie Alvarez/The Washington Post

Conversar por vídeo é enlouquecedor; aprenda com os autores de grandes diálogos na literatura

A interação no ambiente digital se tornou mandatória com a pandemia, mas o diálogo nem sempre é dos mais fluidos em uma videochamada

Sebastian Smee, The Washington Post

18 de julho de 2020 | 16h00

A coisa que mais me faz falta - só consigo admitir isto agora porque, devagar, quase aos trancos, ela começa a voltar - é a conversação. Não aquelas conversas intermináveis e cansativas pelo Zoom. Sem esperar no 'mute', enquanto sua expressão assume uma neutralidade forçada, e a sua personalidade vai se tornando quase descorada e enrugada como os dedos dos pés quando ficam muito tempo no banho. Sinto falta do tempo real, do espaço real, da proximidade, das conversas fiadas personalizadas, incrivelmente longas e divertidas.

Sinto saudade - talvez, você também - da companhia dos meus amigos mais próximos, James, que me abraça e bate no meu peito quando me conta alguma coisa que eu preciso saber, em geral gritando, sempre que nos encontramos, uma vez por mês, em nosso bar preferido. Sinto saudade também da cara do meu amigo Jeremy quando as ironias da história que ele está contando - e ele sabe que eu percebo sem precisar de explicação -  se tornam pesadas, e o monte de desgraças fica tão hilário, que as reações sonoras o atrapalham ao concluir a história e nós caímos nas maiores gargalhadas.

Ou a expressão de Ben, que tem 82 anos e passa pelos momentos mais difíceis com uma incrível graça, ao lembrar de um episódio a respeito de um dos seus filhos quando tinham a idade dos meus agora. O rosto de Ben é malandro, carinhoso, melancólico e cheio de carinho. Tudo isto ele diz com sua expressão perspicaz, com seu corpo, com a relação entre os olhos lacrimejantes e as sobrancelhas que mudam de posição. Você precisaria estar lá, precisaria sentar ao lado dele, para ver tudo isto junto.

Neste momento, já percebeu? - a conversação ficou difícil. Parece que as pessoas gritam, falando por slogans. Um lado afasta o outro. Se você fica mergulhado no efeito feedback da sua fonte de notícias favorita ou em sua bolha de mídia social, poderia  parecer até a sua causa, ou sua ideia de realidade, é reforçada ou mesmo evoluiu. Você pode sentir a confirmação de que você e o seu lado, estão certos.

E talvez você esteja. Mas é também verdade que estar certo (como o pintor Franz Kline disse certa vez) "é a condição pessoal mais terrível em que ninguém mais está interessado". Quando os pais brigam diante dos filhos, ambos querem estar certos. Mas a vitória de um ou de outro não interessa aos filhos, e por uma boa razão. A melhor estratégia, como todos sabem, é parar de gritar, evitar tuitar em maiúsculas ou escrever cuidadosas mensagens polidas que respingam sarcasmo como o sangue de uma arma assassina, e tentar encontrar outras maneiras de conversar.

A conversação que me falta é sobre simpatia mútua, acho, mas nem sempre sobre a compreensão perfeita. Porque mesmo com seus amigos mais queridos, vocês sempre sentem falta um do outro, não é? Vocês não consegue compreender, e entende mal o que é mais evidente.

Mas talvez isto seja perfeito. Porque mesmo que você entenda errado, acho, está sempre se aproximando de uma cumplicidade mais profunda. Toni Morrison escreveu em "Amada" a respeito daquelas conversas carinhosas, malucas, cheias de meias sentenças, fantasias e incompreensões mais emocionantes do que a compreensão em si". E Pushkin parece comemorar algo semelhante em Eugene Onegin quando sugere que a conversação é mais interessante quando é inquieta, espasmódica: "Não, a conversa incorreta, descuidada,/ Palavras mal pronunciadas, pensamentos mal expressados/ Evocam o tamborilar da emoção,/ Agora como antes, dentro do meu peito".

Um dos relatos entre os meus favoritos de uma conversação é o do romancista inglês Ian McEwan depois de conhecer Philip Roth. McEwan, autor de Reparação, era jovem e até então só tinha publicado contos. Roth já era o famoso autor de numerosos romances, como O Complexo de Portnoy. Depois dos preliminares, escreveu McEwan, os dois embarcaram "em uma longa conversação em que curiosamente se mesclavam intimidade e abstração".

Roth admitiu que estava experimentando uma crise criativa e, em geral, se sentia confuso. Em resposta, escreveu McEwan, 'Digo a ele quanto é difícil para mim, escrever um romance. Talvez nunca venha a escrever. Ele diz, Claro que vai. Você não tem outra escolha".

O jeito de Roth, prosseguiu, "é debochado, provocador, vagamente paternal. Gentil, cortês, mas com um brilho adoidado,  um gosto pelo caos. Falamos sobre sexo. O ciclo de relações, a paixão que se desintegra em amizade. Como harmonizar o amor e o trabalho. Conto para ele que estou apaixonado. Ele pergunta se isto interfere na minha escrita. Digo, Claro. Conversamos sobre o medo da solidão".

Roth, "disse que decidira acabar com um caso", prosseguiu McEwan, porque não podia se imaginar com filhos. Digo que eu também não consigo me imaginar como pai. Ele diz que me imagina facilmente como um pai..."

Nas melhores conversações, uma coisa leva a outra dessa mesma maneira. O relato de McEwan é prosaico, mas ele capta o sentido das conversações realmente memoráveis -  densas, continuam por várias horas e têm suas próprias texturas e ritmos. Cada coisa dita parece flutuar sobre um lago profundo de coisas não ditas.

"É muito fácil gostar de Philip Roth", concluiu McEwan. " A inteligência é calorosa, com um toque de crueldade que nos mantém alerta. E fácil imaginar que as mulheres se apaixonem por ele. O seu travesseiro provavelmente é mágico - engraçado, obsceno, carinhoso."

É fácil imaginar que durante algum tempo Roth e McEwan tenham parado de falar completamente e que isto, longe de ser algo embaraçoso, teria selado a sua intimidade.

Algo semelhante aconteceu certa vez entre o filósofo Michel Foucault e o cineasta suíço Daniel Schmidt. Quando Schmidt o visitou (eles não se conheciam), "descobrimos após alguns minutos que na realidade não tínhamos nada a dizer um ao outro", escreveu Foucault. 

"Então ficamos juntos desde aproximadamente as três da tarde até a meia-noite. Bebemos, fumamos haxixe, jantamos. E acho que durante estas dez horas não falamos mais do que vinte minutos. A partir daquele momento, daquele comportamento estritamente silencioso originou-se uma forte amizade".

O silêncio é uma das formas que uma conversação pode tomar. Outra pode desenrolar-se sem qualquer interlocutor. Toni Morrison (em Amada novamente) falou nos "sons internos de uma mulher quando acredita estar sozinha, inobservada no seu trabalho: "um 'zeh' quando ela não acha o buraco da agulha; um leve gemido quando percebe mais um canto lascado da sua melhor travessa; a conversa amistosa com a qual ela saúda as galinhas. Nada feroz ou ameaçador. Simplesmente aquela eterna conversa particular que ocorre entre as mulheres e suas tarefas".

Morrison nos lembra de que a verdadeira função da conversação é deslindar a ideia de fechamento". O diálogo continua - este é o seu principal atributo. "A coisa importante, mais do que o tema ", escreveu John Updike em um dos seus contos, "era a conversação em si, as concordâncias rápidas, os lentos acenos com a cabeça, o entretecer de diferentes memórias; é como um daqueles cestos de Panamá que são formados debaixo d'água ao redor de uma pedra inútil".

As melhores conversações se desenrolam em um clima de concordância. Em The Comfort of Strangers, um dos vários romances que McEwan continuava escrevendo, era a concordância como "um maneira retórica" que permitia que os dois personagens, Mary e Colin - o casal de férias em Veneza - "se movessem através de tantos tópicos com tal paciência, que fazia com que ficassem parados conversando em voz baixa na sacada às quatro da manhã".

Antes de sua viagem, com o casamento já naufragando, Mary e Colin sempre assumiam pontos de vista opostos na conversação, pressupondo que isto os levaria a um rigor analítico. Mas o que costumava acontecer era que "os temas não eram tão explorados quanto reiterados de maneira defensiva, ou forçados em elaboradas irrelevâncias, e impregnados de irritabilidade.

Agora, entretanto, "liberados por um encorajamento mútuo, eles vagavam como crianças entre piscinas naturais à beira mar, de um assunto para outro".

Esta mesma característica infantil é captada em Anna Karenina de Tolstoi, quando Levin e Kitty finalmente estão prestes a superar os obstáculos à sua união amorosa. É uma das maiores descrições de uma conversação jamais escritas. Mas quando Levin e Kitty chegam  aos poucos breves minutos de conversa da qual o resto de suas vidas dependerá, o que se passa entre eles não é enunciado. Ou não plenamente. 

No momento crucial, quando tudo está em jogo, sua promessa de amor se torna como um jogo de crianças, que se joga com giz à mesa. Levin não consegue traduzir em palavras o que precisa perguntar a Kitty, por isso escreve as primeiras letras de cada palavra, e deixa que ela descubra o significado.

Quando ela escreve "s, v, p, p, e, e, o, q, a." (significando "se você puder perdoar e esquecer o que aconteceu"), Levin intui o significado imediatamente. Arranca dela o giz "com dedos trêmulos e nervosos" e escreve imediatamente a sua resposta. "n, t, n, p, e, e, p; n, d, d, t, a.)": "Não tenho nada para esquecer e perdoar; nunca deixei de te amar".

"'Compreendo', ela disse em um sussurro". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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