RONEN ZVULUN/REUTERS
RONEN ZVULUN/REUTERS

Convívio por um fio

Nova lei de Bibi Netanyahu e o ataque à escola mista em Jerusalém sinalizam a institucionalização do racismo em Israel, diz educadora

Gabriela Korman, Especial para O Estado

06 Dezembro 2014 | 16h00


A apresentação, dia 23 de novembro, de um projeto de lei que define Israel como “o Estado-Nação do povo judeu”, sobrepondo o caráter judaico a princípios democráticos, gerou críticas entre juristas, intelectuais e políticos no país. Ao se oporem a sua formulação, Yair Lapid, ministro das Finanças, e Tzipi Livni, ministra da Justiça, foram demitidos pelo primeiro-ministro Binyamin “Bibi” Netanyahu - o que causou a dissolução do Parlamento na quarta, dia 3. Com isso, as eleições, que só deveriam ocorrer em dois anos, foram antecipadas para março próximo. 

A controvérsia acirrou ainda mais os ânimos na sociedade israelense, que vive dias de violência. No dia 18, um ataque de dois palestinos a uma sinagoga em Jerusalém deixou cinco mortos. Dia 29 foi a vez da escola mista Max Rayne Hand in Hand, incendiada por extremistas judeus que picharam em suas paredes: “Não existe coexistência com um câncer”. Preocupados com a escalada de intolerância, centenas de pessoas marcharam pela cidade na sexta-feira, em apoio à escola atacada e pedindo a coexistência pacífica entre árabes e judeus. 

A professora de educação na Universidade Hebraica de Jerusalém, Nurit Peled-Elhanan, vislumbra um futuro sombrio. “Este país está se transformando em um desastre, uma completa catástrofe.” A história de vida da educadora judia ajuda a entender seu pessimismo. Nurit é filha de Mattityahu Peled, proeminente general do Exército israelense que, após atuar na Guerra dos Seis Dias, tornou-se um crítico da ocupação israelense. O irmão dela, o escritor Miko Peled, é autor do best seller O Filho do General (Just World Books, 2012), que segue os passos do pai na crítica às políticas israelenses. E a morte, em 1997, de sua filha de 13 anos, Smadar, em um ataque suicida, deu tintas trágicas às convicções da educadora. “Ataques terroristas como esse são consequência direta da opressão, escravidão e humilhação imposta aos palestinos”, disse ela aos repórteres, logo após o atentado. 

Autora de Palestine in Israeli School Books: Ideology and Propaganda in Education (I. B. Tauris, 2012), análise linguística de mais de 20 livros didáticos israelenses de geografia e história publicados entre 1994 e 2010 para uso em escolas seculares e ultraortodoxas, Nurit demonstra que essas obras retratam os palestinos como “refugiados, fazendeiros primitivos e terroristas” e não contribuem para uma cultura de inclusão. Ganhadora do Prêmio Sakharov para Liberdade de Pensamento, concedido pelo Parlamento Europeu a pessoas ou grupos que dedicam a vida à defesa dos direitos humanos e liberdade de pensamento, Nurit Peled-Elhanan diz que vida e obra são a mesma coisa: “Eu trabalho com educação e milito para que mais nenhuma criança seja morta”. 

Que consequências a aprovação do projeto que define Israel como ‘Estado-Nação do povo judeu’ traz para a democracia no país?

Em primeiro lugar, não há democracia verdadeira em Israel. A lei não vai mudar a situação atual, pois somente formaliza uma discriminação que já existe. Na prática, os árabes já são cidadãos de segunda classe. E, apesar de o árabe ser língua oficial, não há nada de árabe em Israel. Não há universidades, escolas de qualidade, e boa parte da sinalização em ruas, hospitais ou no aeroporto não está em árabe. Cidadãos árabes recebem muito menos dinheiro do Estado para educação e saúde que judeus. O que a lei fará é institucionalizar essas diferenças - o que só serve para deixar os árabes mais inconformados e com mais vontade de sair do país. O objetivo de Netanyahu é dar um sinal vermelho para os árabes e mostrar ao mundo que faz o que quer. A lei permitirá muito mais racismo que o existente. Hoje, o Estado não permite que você seja racista, apesar de existirem cerca de 25 leis consideradas racistas em Israel aprovadas no Parlamento nos últimos três ou quatro anos - como as que não permitem aos árabes adquirir um terreno ou viver com o cônjuge em Israel caso ele, cônjuge, seja de território ocupado. 

No parlamento, o centro, representado por Tzipi Livni, do HaTnuá, e Yair Lapid, do Yesh Atid, ainda defende a solução de dois Estados. Bibi está se afastando do centro?

Não existem partidos de centro ou políticos de centro. Tzipi Livni e Yair Lapid são de direita, menos que outros políticos, mas não deixam de ser. O único motivo para esse partidos e políticos falarem na solução de dois Estados é porque ela é inviável hoje em dia. Mais de 60% da Cisjordânia está ocupada por assentamentos judaicos, com meio milhão de colonos. Esses políticos são como criminosos da máfia, fazem o que for melhor para o próprio bem e o bolso. A maioria deveria estar presa, são criminosos de guerra, cometeram crimes contra a humanidade. Netanyahu é um fascista que cada vez mais anda com fascistas. Ele realmente se leva muito à sério, acredita que é a reencarnação de César. Não se importa com ninguém, muito menos com os palestinos. A população de Israel está empobrecendo, nunca houve tanta pobreza no país, e ele não se importa. Não é que se importe apenas com judeus, ele não se importa com nada, a não ser com o seu poder.

Discursos de partidos como o União Nacional (Ichud HaLeumi) e o Força Judaica (Otzmat Ha Yehudit) lembram o de agremiações europeias como a Frente Nacional francesa e a Força Itália. A direita israelense está cada vez mais próxima da extrema direita?Com certeza. E cada vez mais parecida com o fascismo. Após as próximas eleições, as pessoas podem esperar um holocausto palestino. E com isso vem o holocausto israelense, o fim desse país. Quando digo holocausto me refiro a uma grande catástrofe, um lugar consumido por fogo. Isso já está acontecendo. Se os palestinos caírem, Israel vai cair também.

O ataque à escola mista em Jerusalém fez lembrar a advertência de seu livro sobre a cultura intolerante dos livros didáticos israelenses. É possível relacionar atos de racismo como esse ao modelo educacional do país?São consequência da educação também, mas, mais do que isso, consequência do incitamento político, que parte de gente do alto escalão, ministros, primeiros-ministros, membros do Parlamento. Eles fomentam o ódio na população, dando aval a esses criminosos para fazerem o que quiserem nas ruas. Muito da falta de conhecimento sobre quem são os palestinos vem da educação tradicional. Claro que há correntes diferentes, umas melhores, outras piores. Há também escolas inclusivas, democráticas, mas são exceção. Daí a importância de atos como o de sexta-feira, em apoio à escola. Apesar de o discurso acadêmico ser livre em Israel, o assunto não costuma ser tratado nas universidades e escolas, nem nas faculdades de educação.

Aparentemente, há uma diminuição nos movimentos pacifistas e pró-dois Estados, a esquerda não chega ao poder desde 1977 e os trabalhistas deixaram de lado a questão palestina. Mesmo a ‘nova esquerda’, dos protestos de 2009, tinha como mote melhorias para as classes baixas israelenses. A solução para o conflito saiu da pauta do país?

Os protestos de 2009 não têm relação com nenhuma esquerda que já existiu neste país. Eles pediam melhorias sociais e econômicas, diminuição do custo de vida, melhores condições para estudar nas universidades, mas nunca tocaram na pauta palestina. Quando perguntados “mas e os palestinos?”, respondiam: “Não têm nada a ver com este protesto”. Não há nada de “nova esquerda” neles. Propunham melhorias sociais para eles mesmos. A maioria nem sabe que há uma ocupação. Ao mesmo tempo, há muitos movimentos no país que trabalham com a questão palestina. O Tenda das Nações, que busca unir pessoas de diferentes culturas para construir pontes de compreensão e reconciliação; o Combatentes pela Paz, que organiza encontros entre ex-combatentes israelenses e ex-guerrilheiros palestinos; o Quebrando o Silêncio, projeto no qual soldados israelenses relatam sua experiência nos Territórios Ocupados; e o Coalizão de Mulheres, grupo que trabalha para o fim da ocupação. Apesar disso, esses movimentos não têm força política porque não conseguem apoio de nenhum grande partido. Por todos esses motivos, a solução do conflito saiu completamente da pauta. É um assunto que não existe na cabeça nem no dia a dia dos cidadãos comuns. 

Na última ofensiva em Gaza morreram cerca de 70 israelenses, a maioria militares, e 2 mil palestinos, quase todos civis. O argumento do ‘mal necessário’ para os bombardeios prevaleceu na opinião pública?

A sensação de pânico e medo assombra os israelenses. Junte pânico, medo e ignorância e você pode plantar o que quiser na cabeça das pessoas. A mente fica impermeável ao sofrimento alheio. E a imprensa defendeu a importância de mandar filhos para a guerra, para “lutar pelo país”.

Em meio à onda de violência em Jerusalém, Netanyahu responsabilizou o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e o Hamas por ataques com machados, facas e atropelamentos. Israel retaliou derrubando casas nos territórios ocupados. É um método eficaz? 

O objetivo do governo é “desarabizar” Jerusalém. (Na cidade, há cerca de 250 mil árabes. Somente na Cidade Velha são mais de 36 mil, e cerca de 4 mil judeus). Com o implemento dos incentivos para a criação de bairros judaicos em Jerusalém Oriental, a ideia é transformar toda essa área. Por isso, a raiva dos palestinos só cresce. A demolição de casas, a diferença de investimentos urbanos e a instalação de colonos nessa área árabe são métodos eficazes para o que o governo pretende - já que ninguém, a não ser os palestinos, contesta isso. São eficazes para calar os palestinos e fazer com que saiam de Jerusalém. E assim a violência só se eleva a níveis insuportáveis. Este país está se transformando em um desastre, uma completa catástrofe. 

Diante desse quadro, o que pode ser feito para colocar a região no caminho da paz?

Primeiro, os EUA precisam parar de enviar a Israel uma quantidade absurda de dinheiro para a guerra. É cerca de US$ 1 milhão por dia, um dinheiro destinado à violência. Os países europeus também precisam parar de lucrar com a guerra. Acredito que o boicote a produtos e bens israelenses seja uma maneira de impedir que a situação piore. E, acima de tudo, deter a ocupação. Israel precisa parar de construir assentamentos na Cisjordânia, e tem que se retirar de lá. Os palestinos não estão pedindo para os israelenses saírem de Israel, eles estão pedindo para saírem da Cisjordânia, de Gaza. A partir daí, os palestinos terão que decidir como vão conviver com os israelenses. Não posso falar por eles. Depende de como vão se organizar. Aí então a vida por aqui pode recomeçar.

Que tipo de educação pode contribuir para esse recomeço?

Uma educação não segregada. Não somente entre judeus e árabes, mas entre os próprios judeus. As escolas seculares têm um currículo e as religiosas, outro. Deveríamos ter uma educação para todos, universal. Judeus não aprendem sobre a história do Oriente Médio nos livros escolares. Aprendem sobre a Europa, principalmente história da Europa Oriental, quando deveriam aprender sobre o lugar em que vivem. Não há nenhum livro didático que trate da narrativa palestina. As escolas não são autorizadas a ensinar sobre a Nakba (a “catástrofe”, ocorrida na guerra de 1948, quando 700 mil palestinos fugiram ou foram expulsos de seus vilarejos). Há uma eliminação simbólica da narrativa palestina na educação e na cultura. Precisamos, em suma, de uma educação igualitária. Poderiam seguir o exemplo da escola incendiada essa semana, que tem uma visão inclusiva. Esse é o sonho. 

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Nurit Peled-Elhanan é educadora e professora da Universidade Hebraica de Jerusalém

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