Corpos místicos

Corpos místicos

Hans Ulrich Gumbrecht, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: Palco dos protestos de 2014, a Praça da Independência de Kiev - ou Maidan - abrigou as lutas de independência do país em 1990 e a Revolução Laranja em 2004.

Semana passada foi a primeira vez que Paul voou para Kiev e, embora estivesse muito cansado quando chegou, notou imediatamente que alguma coisa estava diferente de todas as outras cidades da antiga União Soviética que visitara recentemente. A animação de São Petersburgo e Moscou, por exemplo, parecia exagerada e até dramática contra o pano de fundo das lembranças e restos de uma sociedade congelada quase até a morte sob o regime comunista. A animação de Kiev, ao contrário, parecia genuína e natural, quase mediterrânea, como se tudo precisasse acontecer a céu aberto, por mais cinzento e invernal que ele parecesse. Sem perguntar nada a Paul e antes de passar no hotel, os anfitriões o levaram à Maidan, a praça no centro da cidade agora normalmente movimentada onde, há um ano e dia após dia, meses a fio, centenas de milhares de ucranianos haviam se reunido, mandado um governo para o exílio, iniciado uma crise política mundial e deixado seu país num estado de instabilidade política permanente.
Mas Paul agora nota, sobretudo, como as ideias preconcebidas não se encaixam. Enquanto forças paramilitares russas controlam partes da Ucrânia oriental, outros ucranianos viajam de Kiev para a Rússia em voos regulares da Aeroflot; em vez de estarem preocupados ou mesmo deprimidos, os colegas de Paul daqui parecem se achar num estado de euforia, prontos para comemorar o que consideram ter sido um ano só de transformações positivas; e todos falam da Maidan, relembrando uma intensidade que desde aquela época não abandonou mais a cidade e discutindo obsessivamente o que exatamente pode ter havido: uma revolução fracassada, um estado de êxtase patriótico ou um carnaval com face política? No fim do dia, Paul comparece ao programa de TV mais popular do país tentando convencer uma linda comentarista política de vestido verde-claro e 1 milhão de espectadores de que Maidan foi certamente uma revolução fracassada.
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Após um jantar com estudantes que pareciam mais interessados na transmissão das partidas da Liga dos Campões daquela noite que nas preocupações políticas do convidado, Paul vai para a cama num hotel de luxo perto da Maidan, com mobiliário escuro pesado e um quarto superaquecido onde nota que, além do cansaço, havia apanhado um resfriado. 
Na manhã seguinte, a LOT-Airlines leva Paul a Varsóvia de alguma forma milagrosa, dada a densidade da cerração e o tanto que se sentia enfermo, e aí recomeça uma versão diferente, mais razoável e menos passional, do mesmo ritual. Eles o levam a um passeio a pé pela cidade velha lindamente reconstruída e, de carro, pelo museu recém-inaugurado do Gueto de Varsóvia; durante a entrevista a um jornal local num café abarrotado e uma mesa-redonda com importantes intelectuais, tudo sobre Kiev e Maidan, Paul sente uma pressão amigável para identificar sinais de um desejo ucraniano de ingressar na União Europeia e também um desejo avassalador dos poloneses de abraçar seu vizinho num aumento da solidariedade pró-Ocidente. Para que resistir? Paul está ainda mais cansado que no dia anterior, os tradutores demorando horrores para transmitir o que ele tem a dizer, e um jantar suntuoso está a sua espera. As palavras finais de que se recorda são perguntas sobre o estado atual da tradição católica da Polônia e sobre folclore judaico nas províncias do país um século atrás.
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Agora o céu está brilhando e as ruas estão cheias de gente a pé e a cavalo, falando em muitas línguas que ele sente ao mesmo tempo exóticas e fáceis de usar. Continuam a chamá-lo de Paul. Um jovem o conduz a uma vila suntuosa na periferia dessa bela cidade sem carros, aviões e um nome de que ele não consegue se lembrar. Paul nota que a reunião é secreta e muito naturalmente descobre todas as pistas e sinais que são esperados de todos que entram. As pessoas parecem ricas, todas vêm de lugares diferentes e fazem parte de uma comunidade invisível: mulheres sensuais de olhos escuros, homens graves de meia-idade com perfis aquilinos, crianças brincando e adolescentes de mãos dadas, quase se beijando. Eles o estavam esperando, e agora esperam que Paul se sente, parta o pedaço de pão que lhe dão e beba do cálice de vinho branco que circulará. “Vocês são”, ele se ouve dizer com dignidade e estranha determinação, “vocês são o corpo místico de Cristo, judeus e persas, gregos e romanos, um corpo vivo de amor num mundo de confusão, dispersão e pecado.”
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Às vezes é constrangedor recordar um sonho. Enquanto está se barbeando na manhã seguinte e se vê no espelho, Paul tenta separar Varsóvia de Kiev, e essas duas capitais orientais da bela cidade ensolarada e sem carros. Teria sido ele aquele a pregar contra o pecado em presença daqueles corpos belos? E como foi que souberam seu nome e compreenderam suas palavras? Por outro lado, não teria ele ficado muito mais seguro partindo o pão em seu sonho da vila - e muito mais convincente do que em todas aquelas entrevistas reais que dera com resfriado e escassos conceitos de uma racionalidade tacanha? Dez minutos depois, esperando por seu latte macchiato, ainda no café da manhã, e verificando o horário do próximo voo, Paul finalmente percebe que precisa fazer anotações. Maidan, o único evento de 2014 que mudou o mundo, não foi nem uma revolução fracassada nem o início de uma guerra civil - foi um corpo místico. Maidan era simplesmente centenas de milhares de pessoas querendo estar juntas, fisicamente juntas e num lugar, fisicamente juntas e sem a necessidade de uma ideologia comum ou de uma vontade política comum. Maidan não significou um desejo de fazer parte da União Europeia nem uma rejeição à Rússia; significou ser um órgão coletivo em vez de milhões de escolhas individuais num oceano interminável de mundos e sites eletrônicos; Maidan significou ocupar e ser o coração de uma cidade, em vez de eleger representantes para gerir sua burocracia; estar lá em vez de imaginar Bruxelas, Maidan era a vida em vez de estratégias políticas. 
Com sua minúscula e ilegível escrita, Paul encheu o cartão que sempre leva consigo e dessa vez as ideias são simplesmente excessivas: Maidan era um corpo místico, como foram os protestos da juventude brasileira de 2013 e a Primavera Árabe. Eles todos pertencem a um tipo diferente e novo de evento político ou, talvez e mais radicalmente, podem ser a realidade de um novo e forte desconforto que não tem solução política real. “E menos ainda uma solução religiosa”, pensa Paul, já que não sobrou espaço no cartão. Enquanto isso, um táxi o espera para levar ao aeroporto para o voo a Frankfurt, e dali de volta para Washington - ou seria de volta a São Paulo, onde tem prazo para entregar um texto sobre Maidan na próxima semana? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

PROFESSOR DE LITERATURA EM STANFORD, NASCEU EM WÜRZBURG, ALEMANHA. É AUTOR, ENTRE OUTROS, DE DEPOIS DE 1945 (UNESP) 

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