Corpos roubados

Todos morrem. Nós, argentinos, não somos exceção à regra: todos morremos. O extraordinário é o que fazemos com os corpos.

MARTÍN CAPARRÓS, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h17

A história argentina transborda de corpos roubados, içados, negociados. A história argentina propriamente dita teve início quando o marinheiro espanhol Juan Díaz Solís, navegando pelo Rio da Prata pela primeira vez, chega às costas argentinas e os nativos o comem: a primeira interação entre europeus e nativos, a origem de nossa cultura e o início da gastronomia crioula. Desde então, corpos argentinos jamais deixaram de ser manipulados de maneira estranha. Mas nunca em tamanha quantidade, com tanta força, com tantas consequências, como nos anos 1970, quando desapareceram com eles.

Entre 1976 e 1980, os militares argentinos, com o apoio de boa parte da sociedade argentina, dedicaram-se a matar militantes de esquerda e ocultar seus corpos. Foi o que o general Videla chamou, numa linguagem invejável, de "desaparecidos". O termo vingou e foi retomado em muitas línguas, Nossa contribuição para o léxico global. Jorge Luis Borges confessou muitas vezes que sua maior ambição era deixar uma locução verbal, uma palavra nova, para o idioma. Aquele que o conseguiu foi o mais brutal dos seus comensais.

Desaparecer com os corpos era entregá-los a um futuro negado. Os generais da ditadura argentina acreditavam no aqui e agora, no momento presente - ou seja, acreditavam num presente permanente, num tempo sem mutação no qual ninguém estaria em condições de exigir que eles prestassem contas. Achavam que, se naquele momento exato não precisavam assumir a responsabilidade, nunca o deveriam. E preferiram não assumir e ocultar os corpos: apostar no presente interminável.

Foucault deixou muito claro: o poder mostra seu poder sobre o corpo do delito - o corpo do delinquente - para ensinar a lei. Castiga, mata em público para impor suas leis. Embora, às vezes, esses mortos possam se rebelar e se tornar estandartes - ou vergonhas.

Na época aqueles poderosos argentinos, sempre medíocres, sempre a meio pau, preferiram não encarar seus atos, não educar por meio desses mortos, apenas desfazer-se de alguns milhares que os molestavam. Os militares renunciaram à ostentação da morte e desmoronaram na pequenez do furto, das pequenas trapaças medíocres.

O desaparecimento é a morte que não se responsabiliza por sua força educativa, legalizadora. O desaparecimento tenta uma espécie de colocação entre parênteses, ilusória no sentido de que todo morto deve ter seu lugar e sua função. Pesadelos e horrores sempre estiveram povoados de mortos errantes.

E nunca foram os mortos que enterraram seus mortos.

O desaparecimento criou ainda outros equívocos: naqueles dias os familiares - as mães - dos mortos não choravam por eles, mas rogavam por vivos atípicos, os "desaparecidos". Para pedir por eles, pedir aos carrascos que procurassem suas vítimas, precisaram mudar a identidade delas, a história. Não podiam dizer "viemos para saber de nossos filhos guerrilheiros". Tinham que dizer "viemos procurar uns bons rapazes, tão tranquilos...".

Assim foi se construindo uma visão da história. Em consequência dos desaparecidos, da inexistência desses mortos, por muito tempo os militantes assassinados não foram o que de fato haviam sido: rapazes e moças que escolheram um caminho na vida. A história não os registrou pelo que fizeram, mas pelo que foi feito com eles: sequestrados, assassinados, escamoteados, desaparecidos.

Para a história, eles não foram os sujeitos das próprias decisões, mas objeto das decisões - violentas, criminosas - de outros, de seus verdugos. Aqueles rapazes e moças perderam, com suas vidas, sua história. Suas mães, os bondosos, os que os amavam, com seus relatos voltaram a desaparecer com os desaparecidos. E também, de algum modo, demonizaram e despolitizaram os militares: como carrascos de bons rapazes inocentes já não eram soldados com o objetivo político de matar seus opositores, mas loucos e ávidos assassinos, perturbados. Assim, as razões verdadeiras de seus atos permaneceram, por muitos anos, nas sombras.

Durante décadas, a maioria dos argentinos aceitou, de algum modo, a decisão dos militares: preferiu não saber exatamente o que se passara. Por isso também todos aqueles jovens - suas histórias, suas vidas - continuaram ocultos sob o nome comum de "desaparecidos".

O tempo das lembranças é confuso; passaram-se mais de 20 anos até formar-se uma massa crítica - além dos desconhecidos de sempre - que procurou saber mais a respeito. Isso começou no final dos anos 1990 e agora, pouco a pouco, aqueles rapazes e moças vão recuperando suas identidades de jovens que não foram vítimas passivas, mas militantes, pessoas decididas. E isso tem gerado discussões, revisões, mesmo confrontos. Que não tornam as vítimas menos vítimas nem inocentam seus assassinos, mas lhes devolvem a sua história.

E assim, pouco a pouco, vamos deixando de chamá-los de desaparecidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO *MARTÍN CAPARRÓS É UM ESCRITOR ARGENTINO,  AUTOR,  ENTRE OUTROS,  DE A QUEM DE DIREITO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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