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Corrupção de base: na Espanha, as armações impunes no futebol se ensinam desde o juvenil

Na Espanha, o padrão Fifa de gerir o futebol se mostra desde o juvenil:mesmo com vídeos que comprovam armações, todos saem impunes

Jamil Chade / BARCELONA, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2016 | 16h00

Era 30 de maio de 2015, e o mundo do futebol acabava de ter sido alvo de um terremoto com a prisão de alguns dos cartolas mais poderosos do planeta. Longe do luxo da Fifa em Zurique, num campo modesto no interior da Catalunha, uma partida entre jovens promessas do futebol local terminaria em uma enorme polêmica: a compra de resultados, o pior crime que o esporte pode produzir contra seus atletas e torcedores.

Times de base servem para ensinar aos eventuais futuros craques as técnicas que os diferenciarão dos jogadores regulares. E para criar indivíduos competitivos e capazes de aliar técnica, ambição e espírito coletivo. Nesse caso, também escancaram um outro lado do futebol a jovens que ainda acreditam na pureza do espetáculo.

Não são novas as suspeitas em relação aos times de base. Em 2008, a Tivoli Cup, envolvendo times de jovens na Dinamarca, foi tomada por um escândalo depois da revelação de que chineses operadores de apostas ilegais estavam observando as partidas. No interior de alguns países, não são raras as alegações de que clubes cobram para que jovens entrem em suas equipes de base.

No caso de Barcelona, a corrupção era mais primitiva. Tratava-se de uma partida entre dois times da categoria até 15 anos. No último jogo da temporada, se eles empatassem, ambos seriam elevados à Divisão de Honra dos Cadetes. Dali, a profissionalização estava a um passo, junto com o sonho de entrar para um grande time.

A denúncia é que houve um acordo: os times UE Cornellà e o Gimnastic Manresa entrariam para empatar. Quem organizava a partida era a Federação Catalã de Futebol. O terceiro colocado estava muito próximo na tabela dos líderes do campeonato. Se o CE Europa ganhasse sua partida, poderia ainda terminar em segundo, caso o Manresa perdesse o seu jogo final. O Europa fez sua parte e venceu seu confronto por 4 a 0.

Mas, quando o jogo principal começou, o constrangimento atingiu em cheio a arquibancada. Alguns dos pais começaram a filmar o teatro, para demonstrar que o jogo não estava de fato sendo disputado, e a bola era apenas passada de um lado a outro do campo. A revolta chegou aos garotos. Um deles, no intervalo, tirou as chuteiras e se recusou a voltar ao jogo. Foi alertado que, se fizesse isso, seria suspenso do time na próxima temporada. Outro chegou a chutar uma bola no gol adversário. Imediatamente, foi retirado de campo pelo treinador.

Num dos vídeos, um atacante de uma das equipes tinha chance clara de gol. Mas optou por devolver o passe ao meio de campo, enquanto os demais tocavam a bola na intermediária. A pessoa que gravava não escondia a surpresa: “Esse vídeo vai para a federação”. Num outro vídeo, escuta-se uma voz: “Que descarado”, quando um dos jogadores faz um passe do campo de ataque de volta ao seu goleiro. E o juiz só observa.

Ninguém chutava a gol e a partida terminou zero a zero. O Cornellà sagrou-se campeão, o Manresa subiu de divisão e o CE Europa amargou a terceira colocação e a desclassificação.

Quem primeiro trouxe a denúncia foi um garoto chamado Malachai, que estava no time excluído do acordo. “Muitos de nós nos conhecemos”, disse ao Estado. “Logo após o jogo, os pais dos times envolvidos no esquema começaram a mandar mensagens aos pais dos nossos jogadores para pedir desculpa”, contou o garoto, que joga na zaga. “Todos sabiam o que tinha ocorrido.”

Nos dias seguintes à partida, segundo Malachai, os jogadores dos times que fecharam o acordo apareceram para pedir desculpas aos colegas. E revelaram que a ordem para empatar havia sido dada dias antes, no último treino. Da parte da direção dos times. Os treinadores ainda ameaçaram punir o jogador que fizesse um gol.

Naquele momento, Malachai reuniu os vídeos feitos pelos pais e mandou o material a dirigentes locais. Eram cartolas que, durante o campeonato, insistiam que os jovens deveriam promover o “jogo limpo”. Mas a queixa nem sequer foi aceita.

Pelas regras, os jogadores não têm direito de apresentar a denúncia. O clube teria de encampá-la. Isso até acabou ocorrendo, da parte do CE Europa. Mas, poucas semanas depois, os dirigentes da Federação informaram que não abririam investigações, e eles próprios avisaram os times suspeitos.

Ao Estado, membros do Europa disseram que não recorreram do arquivamento por temor de represálias nos próximos campeonatos.

Quando o caso foi revelado, pelo El País, os dois clubes implicados negaram corrupção e disseram que as alegações eram “difamatórias”. Num comunicado, o Manresa disse nunca ter participado “de esquemas em 70 anos de história sem incidentes”. O Cornellà afirma que “nem a Federação e nem o árbitro viram irregularidades”. De fato, ninguém afirmou ter visto. Os vídeos, porém, mostram que ninguém ali estava de olhos vendados. Com as revelações, a Federação Catalã de Futebol reconsiderou e agora declara que vai rever o processo.

Enquanto se desenrola a burocracia, as vítimas são quem estava ali para aprender a jogar limpo. Malachai resolveu deixar o futebol. “Ninguém fez nada. Nem o juiz da partida, nem os pais das crianças, nem a federação e nem os clubes.”

Arturo Ramirez, vice-presidente do CE Europa, também lamentou a situação. “Que isso ocorra entre os adultos é uma coisa. Mas vendo isso ocorrer entre os jovens, trata-se de uma péssima mensagem que estamos mandando à próxima geração”, disse. “Se hoje existe a corrupção e os escândalos na cúpula do futebol mundial e na Fifa, é porque de algum lugar eles aprenderam e acharam que era normal”, disse.

Para ele, tão nefasto quanto a corrupção é o silêncio dos dirigentes. Mark Freeman, o pai do delator, diz que tentou mobilizar pessoas contra a suposta armação. “Mas o que escutei era que nada mudaria se fizéssemos a denúncia e que, no fundo, o que tinha ocorrido era uma boa lição aos nossos filhos de que a vida não é justa”, disse. Com exemplos como esse a seguir, ninguém pode dizer que mentia.

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