Metropolitan Museum of Art
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Corte nas universidades reflete dicotomia entre humanas e exatas

Rivalidade entre as áreas do conhecimento já estava na raiz das birras de Sócrates com os sofistas

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2019 | 16h00

Cultura clássica ou científica? Essa dicotomia imemorial já estava na raiz das birras de Sócrates com os sofistas e também contribuiu para a condenação do filósofo a beber cicuta. Com a revolução industrial, ela ressuscitou no século 19, ganhou fôlego na Alemanha (com a “Controvérsia do Método” entre Carl Menger e Gustav Schmoller), ressurgiu nas teorias de Benedetto Croce e T.S. Eliot, atingindo seu apogeu numa palestra do cientista e romancista britânico C.P. Snow, que depois virou livro (As Duas Culturas) e referência mundial.  

Isaac Newton valeu-se da filosofia de Robert Boyle para revolucionar a ciência. Einstein, devotado leitor de Sófocles e Cervantes, adorava mergulhar na filosofia e até criou uma academia de amigos para estudar David Hume e seu Tratado da Natureza Humana e a Ética de Espinosa. O racha entre os dois saberes existe, mas é menos adstrito do que se pensa e diz. 

Faz 60 anos na próxima terça-feira que  Snow expôs, na Universidade de Cambridge, o seu incômodo pela divisão entre as ciências e as culturas ditas humanas, a seu ver, “um obstáculo à solução dos problemas mundiais”. Embora condenasse tanto o analfabetismo literário e artístico dos cientistas quanto a ignorância científica dos intelectuais literários, propugnando uma espécie de conciliação de sensibilidades, Snow acabou acusado de bajular o establishment científico, e não apenas por seu contemporâneo F. R. Leavis. O paleontólogo Stephen Jay Gould considerava o conceito de Snow (recauchutado em 1963 e aqui traduzido pela Edusp há quatro anos) furado, míope e daninho. 

Daninho por reavivar, segundo Gould, uma polêmica desnecessária e potencialmente tóxica. Disso tivemos prova dias atrás, quando nosso atual presidente e seu ministro da Educação soltaram os cães contra as disciplinas “humanas”.  

Reclama-se, injustamente, que o governo Bolsonaro está parado. Não está parado quem para trás anda. Entre as inúmeras e mais recentes evidências da regressão – censura à publicidade, reiterado desprezo à cultura, incentivo ao turismo sexual, à espionagem macarthista em sala de aula e ao genocídio campesino, indulgência com as milícias paramilitares – a indicarem que a grande questão brasileira é, hoje, a recuperação de uma civilização mínima, nenhuma me escandaliza mais que o descalabro da educação, a maior vítima da preamar obscurantista da semana passada. 

A ditadura de 64 investiu militarmente contra as universidades, invadiu-as, nelas fez prisões, saques a bibliotecas e laboratórios, e ameaças, como a do coronel Darcy Lázaro, ao ocupar a UnB (“Se essa história de cultura vai-nos atrapalhar a endireitar o Brasil, vamos acabar com a cultura pelos próximos 30 anos”), que, para o bem de todos, não se cumpriu. Como agora vivemos numa democracia, nada daquilo, por enquanto, aconteceu. Mas os indícios adversos são preocupantes.

O atual ministro da Educação Abraham Weintraub ainda não promoveu expurgos em universidades, ao estilo Gama e Silva, fugaz responsável pela área após o golpe de 64 e algoz de FHC, Florestan Fernandes e outros professores quando reitor da USP, mas, pelas invectivas que tem feito, vontade não lhe deve faltar. A exemplo do engenheiro Suplicy de Lacerda, sucessor do jurista Gama e Silva no ministério, Weintraub, egresso do mundo financeiro, tem uma visão tecnocrática do ensino. Lacerda montou o famigerado Acordo MEC-Usaid (agência norte-americana para desenvolvimento internacional) visando privilegiar a criação de cursos técnicos e profissionalizantes em detrimento dos cursos de humanidades (ciências humanas, filosofia, línguas etc) mais voltados para a formação crítica do cidadão. 

O pretexto, hoje, como ontem, é “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte”. Até parece que o mercado de Uber não está cheio de engenheiros, arquitetos e cientistas desempregados. Essa balela utilitarista nem mais disfarça suas reais intenções: anestesiar a estudantada e sufocar o espírito contestatório de alunos e professores, que o ministro e seu chefe consideram perigosos agentes do “marxismo cultural”, este idoso espantalho ideológico cujo antissemitismo de origem deveria ser motivo de repulsa por alguém minimamente decente e bem informado.

O cordão sanitário não funcionou meio século atrás e deverá ser outro fracasso agora. 

Para justificar os anunciados cortes nos recursos nas universidades, o ministro invocou a realização, nas dependências das três, de eventos políticos, por ele reduzidos à categoria de “balbúrdias”. Ou seja, foi uma punição, que não teria ocorrido se, em vez de uma manifestação de repúdio ao fascismo, como uma delas foi, em 2018, tivesse sido uma balbúrdia qualquer contra a, digamos, internação num manicômio do filósofo da Virginia, que, por sinal, até o momento não deu um pio sobre o raide contra as “humanas”. 

Para dar algum peso à vendeta, o governo providenciou duas novas “mamadeiras de piroca”: a existência de orgias nos campi e uma queda de desempenho da UnB, UFBA e UFF. As patranhas foram logo desmistificadas. “Nunca vi ninguém pelado em 20 anos de vida acadêmica”, disse uma professora, “mas laboratórios sem insumo, aluno sem bolsa e paredes ruindo, sim”. Consultado o ranking da Times Higher Education, verificou-se que as universidades na berlinda até melhoraram suas performances. No Bolsonaristão, a mentira não tem pernas curtas, é perneta.

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