Cortejando o Kremlin

Em sua primeira visita à Rússia, Obama deve encontrar um país ainda angustiado pela perda do próprio império

Uwe Klussmann e Matthias Scheppe, Der Spiegel

06 de julho de 2009 | 12h29

John Beyrle, o homem de Washington em Moscou, nunca veria a luz do dia se não fosse um grupo de soldados de boa índole do Exército Vermelho. "Meu pai sempre considerou os russos como seus salvadores", disse o embaixador americano. "Eles simplesmente poderiam ter atirado nele."

 

Nos últimos meses da 2ª Guerra Mundial, o pai de John Beyrle escapou de um campo de prisioneiros de guerra alemão e fugiu para o leste. Os soldados soviéticos o encontraram escondido num monte de feno. O pai de Beyrle achou que eles o matariam. Então lhes ofereceu cigarros Lucky Strike. Passou as últimas semanas da guerra combatendo ao lado dos russos.

 

Por causa desse histórico do pai, John Beyrle é uma pessoa muito considerada nos círculos políticos da capital russa e seu domínio da língua também ajuda bastante. Ele é embaixador americano em Moscou há exatamente um ano e agora vai enfrentar seu grande teste - na próxima segunda-feira, Barack Obama viaja para Moscou, sua primeira visita à Rússia como presidente dos Estados Unidos.

 

Na Rússia, cuja política externa está tradicionalmente fixada nos EUA, há uma grande agitação, com a perspectiva de que essa visita possa melhorar as relações entre os antigos inimigos na Guerra Fria. John Beyrle, como diplomata, tem se esforçado para colocar em segundo plano esses temas de conflito. Rússia e Estados Unidos, disse ele, "têm mais interesses em comum do que desacordos".

 

Mas os interesses nacionais da Rússia são um obstáculo a uma maior aproximação. A expansão da Otan para o leste europeu, o planejado escudo antimíssil americano na Polônia e na República Checa, o problema do Irã, o desarmamento nuclear - a lista de temas contenciosos é tão longa que uma recente gafe de tradução por um membro da equipe do Departamento de Estado pareceu de mau agouro.

 

Numa reunião em março, Hillary Clinton deu ao seu colega russo, Sergei Lavrov, um presente na forma de um detonador vermelho simbolizando um convite para uma retomada das relações bilaterais. A palavra "peregruzka", gravada no detonador, seria uma tradução para o russo do termo "reset". Contudo, "peregruzka" significa sobrecarregado, como observou o próprio Lavrov.

 

Depois de anos de um distanciamento crescente, as relações entre os dois países chegaram ao seu nível mais baixo em agosto do ano passado, com a breve guerra entre Rússia e Geórgia, por causa da Ossétia do Sul. E as relações bilaterais também não foram ajudadas pelas "lições de Condoleezza Rice das quais sinto imensamente falta", zombou o presidente Medvedev em particular, referindo-se à antecessora de Hillary Clinton.

 

A opinião predominante em Moscou é que o tom mais conciliador da equipe de Obama resulta unicamente das atuais fragilidades da economia americana. "Claro que Obama também ambiciona que os EUA continuem sendo a primeira potência do mundo", diz Eugeny Bazhanov, da Academia Diplomática em Moscou.

 

O desarmamento nuclear oferece melhores chances de um avanço rápido. Numa etapa inicial, Obama deseja reduzir para em torno de mil o número de ogivas nucleares destinadas a mísseis de longo alcance. Medvedev fala em menos de 1.700 numa continuação do tratado Start I, que expira no mês de dezembro.

 

A Rússia, também atingida pela crise financeira, não conseguiu lançar seu caríssimo sistema de mísseis Topol-M tão rápido como planejava e manter seus gastos com esses mísseis a um valor estimado de US$ 3,5 bilhões por ano. O que sugere que se poderá chegar a um acordo para a redução do arsenal, mesmo que moderada.

 

Cortes mais profundos podem privar Moscou do seu último trunfo militar em relação aos americanos e chineses. Os Estados Unidos superam e bastante a Rússia em termos de armas convencionais. A China vem se armando rapidamente. A Rússia quer evitar a todo custo rebaixar sua posição e entrar para o grupo de potências nucleares com armas de médio alcance, como França e Grã-Bretanha.

 

Existe um consenso na Rússia de que o país não só perdeu a Guerra Fria, mas ficou em segundo lugar no jogo do desarmamento. Em 2002 Washington retirou-se do Tratado de Mísseis Antibalísticos que limita os sistemas de defesa de mísseis e não pretende renegociar um tratado sobre armas convencionais na Europa. E o Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermediário, de destruição de mísseis de médio alcance, beneficiou os Estados Unidos, que só podem ser atingidos com mísseis de longo alcance, afirma o premiê russo Vladimir Putin. Rússia, Paquistão e Índia já têm sistemas de armamentos equivalentes, e a Coreia do Norte e Irã podem ser os próximos.

 

Para os diplomatas russos, no melhor dos casos a visão de Obama de um mundo livre de armas nucleares é um "belo sonho", como disse Yuli Kvitisinsky, ex-embaixador soviético na Alemanha Ocidental e especialista em desarmamento. Mas o que se acha é que é mais uma armadilha para enfraquecer ainda mais a influência da Rússia no mundo.

 

Viktor Baranez, coronel aposentado e hoje conhecido comentarista de um tabloide próximo do Kremlin, deu o seguinte conselho para Medvedev: só dar alguma coisa aos EUA se a Rússia realmente receber algo em troca. "Infelizmente, temos a tendência de colocar um presente na mesa quando recebemos uma visita importante de Washington - e o agradecimento que recebemos é a Otan chegando mais perto de nossas fronteiras", diz ele. O Kremlin está condicionando um desarmamento nuclear ao abandono pelos EUA dos seus planos de instalação de um escudo de defesa antimíssil na Polônia e na República Checa - ou então que ele seja desenvolvido junto com Moscou.

 

Há um desacordo importante no caso dos ex-Estados soviéticos que conquistaram a independência nos anos 90. Os EUA querem que eles se aproximem mais do Ocidente, enquanto que, para Medvedev, eles são parte "da privilegiada esfera de influência" da Rússia.

 

Salvo o Cáucaso, a Ucrânia é a maior fonte de conflito. Se o país de 46 milhões de pessoas, cuja capital, Kiev, deu origem ao império russo, associar-se à Otan, a Rússia pode perder a base da sua frota no Mar Negro, na península da Crimeia. Moscou está contando com o ceticismo de muitos ucranianos no tocante à Otan e espera que o impopular presidente Viktor Yushchenko, amigo dos EUA, perca o poder nas eleições marcadas para janeiro do ano que vem. Portanto, são muitos os temas contenciosos que Obama deverá tratar.

 

O pai do embaixador John Beyrle foi condecorado com quatro medalhas pelo ex-presidente russo Boris Yeltsin e agora está tentando organizar uma cúpula harmoniosa entre Obama e Medvedev. Mas a reunião não deve ter um progresso substancial. As diferenças são enormes, e as elites em ambos os países estão muito acostumadas a se ver mais como oponentes do que como parceiras. Além disso, a Rússia continua atormentada pelo fato de ter perdido seu império.

 

Afinal, mesmo o Alasca pertenceu à Rússia até 1867. Nas festas na embaixada russa em Washington, os funcionários ainda gostam de cantar uma música do grupo russo de rock, Lubeh, de quem Putin é grande fã. "Não seja estúpida, América, e devolva nosso amado pequeno Alasca."

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