Country club da vida
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Country club da vida

Os biliardários não se preocupam em entrar no reino dos céus; querem o reino da imortalidade

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

20 Junho 2015 | 16h00

Os pobres e remediados sonham com a casa própria; os ricos, com jatos particulares; e os muito ricos, com uma longevidade de Matusalém e a vida eterna. A desigualdade econômica, que sempre existiu no mundo dos vivos, com índices cada vez mais obscenos, ameaça estender-se ao mundo dos mortos. Se vingarem as quimeras de multimilionários e biliardários (8% dos quais já embolsam metade da renda do planeta), em algum ponto do futuro somente eles conseguirão sobreviver completamente aos achaques da velhice. 

Eles, não os humildes, herdarão a Terra. E sem precisar se preocupar com aquela ameaça bíblica envolvendo um camelo e uma agulha, pois no reino dos céus não ambicionam mais entrar. Estão em outra. 

Pesquisa de Larry Schwartz para a AlterNet, serviço noticioso alternativo, revelou há dias que quem mais se esforça para manter eterna distância do reino dos céus é a aristocracia tecnológica do Vale do Silício, a maior concentração de bilionários da atualidade. Seus antepassados analógicos tentavam embromar a senectude e adiar a morte com transfusões de sangue, transplantes de testículos de animais e as poções gerovitalizadas da romena doutora Aslan; agora a aposta se concentra nos prodígios, aparentemente inesgotáveis, da nanomedicina, da ciberbiologia e de ciências análogas. Só eles poderão arcar com as despesas. Congelar criogenicamente a cabeça, apenas a cabeça, enquanto se espera a cura da doença que levou ao óbito o resto do corpo, não sai por menos de US$ 200 mil. 

Inútil lembrar aos Prometeus da era digital que a morte é igual para todos, a única coisa indiscutivelmente democrática que existe, a correção pela natureza das desigualdades deste mundo. Otto Lara Resende dizia que a morte é “o clube mais aberto do universo”. Os nababos da internet não parecem acreditar que estão criando o clube mais fechado do universo, uma espécie de country club da vida. 

Larry Page e Sergey Brin (Google), Mark Zuckerberg (Facebook), Sean Parker (Napster, Plaxo, Spotify), Pierre Omidyar (Ebay), Peter Thiel (PayPal)-todos eles investem fortunas em pesquisas científicas e pseudocientíficas que possam levar à fonte da juventude eterna e, numa segunda etapa, à imortalidade. Perguntaram a Thiel o que achava da morte. “Basicamente sou contra”, respondeu. “Morrer nunca fez o menor sentido pra mim”, declarou Larry Ellison, fundador da Oracle, que já investiu mais de US$ 400 milhões em estudos sobre a vida eterna, por meio de uma fundação médica que leva o seu nome. 

Thiel foi o principal financiador do Breakout Labs, laboratório de pesquisas especulativas voltado para a libertação dos cientistas das “prisões institucionais que retardam o avanço da ciência mais audaciosa”. Ken Dychtwald, expert em gerontologia e longevidade, não vê essa audácia com otimismo. “A migração de talentos para essa área de pesquisas é a maior que já vi em meus 40 anos de prática”, declarou à revista Time. A perspectiva de um mundo dividido não mais entre pobres e ricos apenas, mas entre mortais e imortais assusta Dychtwald. “Já imaginou termos de conviver com uns 10 mil ricaços imortais, vendendo saúde e desobrigados de prestar contas de seus atos com Deus?” 

Bill Gates, rara voz discordante entre seus pares, soltou o verbo no site do Reddit: “Com tanta gente passando necessidades e morrendo de doenças curáveis, como malária e tuberculose, buscar a vida eterna é pretensão egocêntrica, desvio de recursos que poderiam ajudar milhões de pessoas, e não apenas alguns multimilionários, a viver mais e melhor”. Mas quem iria bancar os gastos da Previdência com tantos aposentados atingindo a idade das tartarugas? 

A finitude é uma bênção. A conquista da imortalidade não traz benefício algum à sociedade, argumenta Daniel Callahan, cofundador do Hastings Center, o mais renomado instituto de pesquisa sobre bioética. Muito menos se a benesse for estendida democraticamente a todos os comuns mortais. “Se todos os 7 bilhões de humanos tivessem acesso à imortalidade, o mundo explodiria”, diz ele, fazendo coro com o teórico político Francis Fukuyama, que pode acreditar no fim da história mas não no fim da finitude. “Há motivos ligados à evolução para que a gente morra”, salientou Fukuyama no Washington Post. “Sem incentivo para nos adaptarmos à necessidade da sobrevivência, não haveria mais mudanças sociais e ditadores permaneceriam no poder não décadas a fio, mas durante séculos.” 

Obsessão humana desde a aurora da civilização, a imortalidade (que só faz sentido se acompanhada da juventude eterna) já sacrificou tantas vidas que muito pouca gente ainda acredita na possibilidade de um mundo futuramente habitado por Struldbrugs de verdade. Os Struldbrugs de mentira, ou melhor dito, ficcionais, viviam na terra de Luggnagg. Gulliver conheceu-os numa de suas viagens. Eram imortais. Mas não dignos de inveja. Depois dos 30 anos eram vencidos pela melancolia, pela inveja e se esqueciam de tudo.

Nos anos 1930, Charles Lindbergh, o piloto mais célebre de todos os tempos, juntou-se ao biólogo e Nobel de Medicina francês Alexis Carrel para uma experiência bizarra: driblar a morte mediante revolucionários procedimentos cirúrgicos com vasos sanguíneos. Misto de Dr. Frankenstein com o dr. Moreau de H.G. Wells, Carrel simpatizava, como Lindbergh, com o nascente nacional-socialismo alemão e, por tabela, com a ideia de eugenia da raça. Sua retífica biológica só seria acessível a puros-sangues humanos, selecionados por um conselho de sábios. Os fracos e doentes que se danassem. A desmoralização do nazismo acabou com a farsa. Outras viriam. Afinal, os charlatões também fazem parte da involução da espécie.

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