J.F.Diorio | ESTADÃO CONTEÚDO
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Cozinha sem fronteiras. Refugiados palestinos fazem sucesso em restaurante

Restaurante Al Janiah abriga refugiados de diversas nacionalidades e se transforma em um centro de debate político e cultural. A questão palestina e a guerra na Síria são temas constantes em suas mesas. O que não se discute ali é a qualidade do falafel e do shawarma

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2016 | 16h00

Em setembro do ano passado, a foto de um menino sírio morto na areia de uma praia turca trouxe a questão dos refugiados para dentro das nossas casas. Para além do drama humano, a repercussão daquela imagem, em termos de audiência, visualizações e compartilhamentos, fez com que a mídia acordasse para o “potencial do assunto”.

Não demorou, a imprensa foi atrás de histórias similares, declarações e de mais emoção. Muito mais EMOÇÃO. Aqui em São Paulo, a fonte mais procurada foi a ocupação Leila Khaled, um prédio na rua Conselheiro Furtado, no centro de São Paulo, que tem abrigado famílias de sem-teto brasileiros e refugiados palestinos e sírios. Naquele momento, o que os jornais, sites e emissoras de TV estavam procurando eram famílias separadas pela violência da guerra e, talvez, novos meninos mortos em alguma praia distante.

Segundo Hasan Zarif, 42 anos, um dos organizadores da ocupação, membro da Mopat (Movimento Popular Palestina Para Todos) e, como será detalhado mais adiante, dono do bar e restaurante Al Janiah, a abordagem era quase sempre apelativa, desrespeitosa ou ignorante. “Queriam arrancar lágrimas de qualquer jeito. De tão irritado, quando me perguntaram como eu tinha chegado no Brasil, respondi: ‘a pé’. Isso quando não tentavam fazer ligações entre a gente e o Estado Islâmico (EI)”, disse Zarif, que é filho de palestinos, mas nasceu no Brasil.

O tema deveria ser muito mais familiar para um país em que o número de solicitações de refúgio aumentou mais de 2.868% nos últimos 5 anos. De acordo com o Comitê Nacional Para os Refugiados (CONARE), até abril de 2016, o Brasil possuía 8.863 refugiados reconhecidos, de 79 nacionalidades distintas (28,2% deles são mulheres) – com os principais grupos compostos por cidadãos da Síria (2.298), Angola (1.420), Colômbia (1.100), República Democrática do Congo (968) e Palestina (376).

 necessidade de esclarecer, discutir e tornar visível tudo aquilo que envolve a figura do refugiado foi a fagulha que resultou na criação do Al Janiah – que, com menos de 6 meses de existência, já se tornou um referência em culinária árabe e também um centro cultural e polo de discussão política. “Eu já organizava festas, produzia cerveja artesanal em casa e pensei que o ambiente como um bar/restaurante poderia contribuir para fortalecer a nossa causa”, fala Zarif.

Com o conceito da casa formulado, Zarif precisava de um imóvel – um que fosse relativamente bem localizado e não tivesse um preço proibitivo. Por sorte ou destino, deu de cara com um imóvel que já fez parte da efervescente noite de São Paulo. Nos anos 1980, o número 190 da Rua Álvaro de Carvalho abrigava o La Bohéme. Só quem viveu o período vai lembrar, mas o local foi um dos ‘inferninhos’ mais agitados da cidade, com uma clientela de artistas, jogadores de futebol e políticos importantes. Depois de fechado, o La Bohéme transformou-se uma balada LGBT, mas que não prosperou por muitos anos.

Por isso, ao entrar no Al Janiah percebe-se logo que o ambiente já teve ocupação menos cerimoniosa (o mármore do banheiro, o palquinho privê...). Ainda assim, o histórico polêmico só tem adicionado charme ao ambiente.

A “semana” do restaurante começa às quartas-feiras e vai até o domingo. Oficialmente, ele abre às 18h (portanto, não serve almoço) e vai até às 22h – claro que o horário de fechamento raramente é obedecido e, muitas vezes, a noite no Al Janiah avança para muito além da meia-noite.

Quando o Estado visitou o restaurante, Zarif abriu a casa sozinho – limpando ele mesmo as mesas e organizando garrafas. Os cozinheiros chegaram um pouco depois – atraso totalmente justificado pela obediência ao Ramadan (durante quatro semanas, os muçulmanos jejuam desde o sol nascer até o pôr do sol).

Mohamad Othman, Mohamad Isa, Wissam e Rami são religiosos, mas não se importam com a algazarra e o consumo de álcool no local. “Nós estamos no Brasil. Não tem nenhum problema em respeitar os costumes daqui”, comenta Othman. Os quatro estão no País desde 2013. Quando o conflito na Síria explodiu, os amigos tiverem que se mudar para um campo de refugiados localizado em Esbern, a 4 km de Damasco, capital da Síria.

No tempo que ficaram por lá, sofreram com ataques do próprio governo de Bashar al-Assad, com investidas do EI e com bombardeios dos exércitos americano e russo. A situação insustentável fez com que os amigos (os Mohamads são primos) decidissem abandonar, temporariamente, a esperança de ver a Síria em paz. Como palestinos que viviam na Síria, sentiram-se duas vezes desterrados.

Ao deixar o horror da guerra para trás (eles presenciaram a execução de opositores do governo e de civis que tentavam se manter alheios às disputas políticas), deixaram também suas carreiras. Othman trabalhava no ramo de farmácia; Isa era cabeleireiro; Wissam estava se formando em Direito; e Rami, esse sim, tinha experiência com cozinha. Em São Paulo, sentiram logo uma dificuldade comum na vida de muitos brasileiros: encontrar um lugar para morar.

Zarif conta que a situação é comum para muitos refugiados. “Eles acabam caindo em armadilhas – e alugam quartinhos em cortiços no bairro do Bexiga, por exemplo, por algo em torno de R$1.500”. Sem condição para bancar os custos de um aluguel extorsivo, o quarteto encontrou espaço na ocupação Leila Khaled.

Foi ali que os amigos desenvolveram e aprimoraram o talento para a cozinha. Primeiro, participando de eventos da própria ocupação, mas logo ampliando o “negócio” e trabalhando por encomenda para um buffet e restaurantes da cidade. Claro, quando o Al Janiah nasceu, Zarif imediatamente pensou nos quatro amigos.

Falafel, Shawarma, Kafta e outros clássicos são as estrelas do restaurante. Para quem tiver curiosidade, vale visitar a cozinha e acompanhar como um pão sírio é feito (por R$ 1 a mais, você pode pedir o seu prato com o pão feito na hora). Não raro, os cozinheiros trabalham ao som de música islâmica. “O importante é que fazemos tudo com muito gosto e felicidade”, comenta Rami. A felicidade também é do cliente. O prato mais caro custa R$ 25 (uma versão super do Falafel ou do Shawarma). Na média, os pratos, lanches e petiscos saem por R$ 15.

Mas vamos deixá-los trabalhando em paz e voltar para o salão. Um pouco mais de uma hora depois de aberto, o bar/restaurante já está quase lotado. Nas mesas, cerveja gelada, petiscos e conversas animadas – quase todas elas com alto teor político. Um iraquiano, professor, poeta e refugiado aproveitou a reportagem para mostrar como a convivência no Al Janiah é harmoniosa. Se os cozinheiros são religiosos, o cliente é comunista e ateu. “Não teve Ramadan para mim. Tenho a liberdade para fumar meu cigarro e tomar meu conhaque”, disse. Mas o humor do professor (que preferiu não ter o nome publicado no jornal) perdia um pouco a picardia quando o assunto era a condição dos refugiados. “Teve uma conferência sobre a condição dos refugiados em Brasília onde só representante de ONG falou. Nenhum refugiado teve o direito de falar...”, observou o professor. Ele também pontuou que, no Brasil, ainda misturam muito a condição do imigrante com a realidade do refugiado. “São completamente diferentes, eu não sou imigrante. Minha realidade é outra. Eu não tenho direito de voltar ao meu país”.

O “direito de retorno” dos refugiados e de seus descendentes ao território da Cisjordânia e à Faixa de Gaza é um dos temas que perpassam várias mesas. O retorno dos refugiados encontra resistência do governo israelense e de outros países (que alegam que o “retorno” desequilibraria a relação de forças na região). Além disso, os direitos políticos dos refugiados dentro do Brasil também são debatidos por lá. “Lutamos por igualdade. Se o refugiado mora aqui, ele tem que ter o direito de se manifestar politicamente”, diz Zarif.

O próprio nome do estabelecimento já sugere uma discussão polêmica: Al Janiah é uma referência a um vilarejo na Cisjordânia que é parte dos territórios palestinos ocupados por Israel. Então, a pergunta inevitável é: os judeus são bem-vindos no Al Janiah? “Claro que sim. Não temos nada contra a religião de ninguém. Aliás, um dos funcionários voluntários do restaurante é judeu. Nosso embate é político”, afirma Zarif.

De fato, o Al Janiah virou um centro para refugiados de diversas nacionalidades. Zarif conta que, uma vez por mês, recebe shows de um grupo de rap haitiano – que, além disso, membros de diversas comunidades africanas e latino-americanas se encontram no espaço para conversar, beber e se organizar. E ainda estudantes secundaristas, feministas e coletivos de esquerda costumam promover festas no restaurante.

O poder de aglutinação do Al Janiah vai ter o seu primeiro grande teste neste domingo. Hoje, a partir das 13h, em frente ao restaurante (Rua Álvaro de Carvalho, 190), vai acontecer o I Festival do Dia Internacional do Refugiado. Organizado pela ocupação Leila Khaled e pelo próprio Al Janiah, o evento será gratuito e contará com comidas e bebidas típicas, além de apresentações de BNegão (Brasil), Surprise 69 (Haiti), Yannick Delas (Congo/São Tomé), Os Escolhidos (Congo/Angola), La Vaina (Colômbia), Mariama Camara (Guiné - Conacri), Santa Mala (Bolívia). A previsão é que os shows ocorram até às 22h.

Por fim, se o embate político e a questão dos refugiados palestinos (e de outras nacionalidades) forem por demais densas para um domingo, tente experimentar uma criação do Al Janiah, o Palestina Libre. Trata-se de um coquetel à base de arak (tradicional bebida árabe-palestina), cachaça, limão, pimenta biquinho e zaatar verde (um tempero árabe). Vale a pena – e pode desarmar alguns espíritos mais radicais.

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