Harmonia Mundi
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Cravista alemão Andreas Staier homenageia música ibérica em disco

Um dos principais instrumentistas contemporâneos faz passeio pela música clássica portuguesa

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

09 de março de 2019 | 16h00

Talvez por causa do tão decantado complexo vira-lata, outro tanto pela posição geográfica de Espanha e sobretudo de Portugal – na ponta esquerda mais avançada do continente –, praticamente nada se conhece do barroco ibérico. Os músicos em geral a ignoram; e o público, claro, segue os algoritmos das empresas de streaming, sempre preocupadas em oferecer o chamado “mais-do-mesmo” aos nossos ouvidos. 

O máximo que se sabe é que italianos ilustres como Domenico Scarlatti (1685-1757) e Luigi Boccherini (1743-1805) atuaram e se fixaram na Península grande parte de suas vidas. O primeiro, convidado pelo embaixador português em Paris, Marquês de Fontes, para assumir a direção da Capela Patriarcal de Lisboa, mudou-se para a capital portuguesa e lá deu aulas à princesa Maria Bárbara de Bragança, filha do rei Dom João V, entre 1720 e 1728. Chegou a assinar “Domingo” Scarlatti. Dizem que foi para ela que Scarlatti compôs muitas de suas centenas de faiscantes sonatas para cravo em um movimento (muitas delas enfatizando a levada melancólica das guitarras portuguesas e as notas repetidas das espanholas). A princesa casou-se com Fernando VI da Espanha – e Scarlatti foi para Madri a tiracolo de sua aluna querida, onde viveu até a morte. Boccherini, já na segunda metade do século, viveu na corte espanhola por quatro décadas, até a morte (absorveu em sua música não só o rasquado das guitarras espanholas mas até as castanholas num quinteto famoso).

Ora, simplesmente não é verdade que não exista um corpo de música compatível com o que se fazia de melhor na Europa do século 18. O país beneficiou-se do ouro das Gerais do Brasil-colônia. Os números impressionam: Lisboa arrecadou 115 quilos em 1697, que passaram a 6,5 toneladas em 1715 e a espantosas 10 toneladas em 1739. Foi o que levou o rei Dom João V a promover uma “era dourada” na vida musical em sua corte. Importou músicos italianos, então predominantes na cena europeia, para ensinar aos músicos locais. Fundou em 1713 a Orquestra de Câmara Real, o Real Seminário de Música e instituiu, noventa anos antes dos franceses, um “Prix de Rome” lusitano. Custeava a estada de músicos em Roma para estudarem na então capital mundial da música. 

Dom João V trouxe o reputado genovês Pietro Giorgio Avondano para dirigir a Orquestra de Câmara Real. Seu filho Pedro Antonio, já nascido em Portugal em 1714, foi nome-chave da música portuguesa no século 18 (viveu até 1782). Logo músicos locais que estudaram em Roma se destacaram. É o caso do outro António – o Francisco António de Almeida (1702-1755). Dom João V formou compositores e intérpretes, criou novos repertórios e ao mesmo tempo instituições que lhes deram longevidade institucional.

Outro fator de fortalecimento da vida musical portuguesa foi proporcionado pelos mercadores britânicos. Eles quebraram o isolamento peninsular, tirando partido das relações privilegiadas de Londres com Lisboa. “Estabeleceram-se nas principais cidades portuárias de forma a comercializarem diretamente as mercadoras originárias dos impérios coloniais ibéricos, assim como vários produtos locais”, esclarece o cravista português Fernando Miguel Jalôto no texto de encarte do deslumbrante CD À Portuguesa – Concertos e Sonatas Ibéricos (Harmonia Mundi, 2018) dedicado à música portuguesa instrumental e concertante do século 18. Esta nova “viagem de descobrimento” é promovida por um dos maiores cravistas da atualidade, o alemão Andreas Staier, 63 anos (Jalôto toca o cravo que faz o contínuo ao lado dos músicos da Orquestra Barroca Casa da Música, da cidade do Porto). 

“Não surpreende”, complementa, “a enorme ascendência da música e dos músicos italianos sobre os compositores locais e o fato de a Inglaterra ser um dos raríssimos locais no norte da Europa onde a música ibérica era relativamente conhecida e estimada”. Uma gravação por todos os títulos extraordinária. Tudo nela soa novo. Inclusive as três sonatas de Scarlatti intercaladas entre os quatro concertos e o célebre Quinteto Música Noturna de Madri, de Boccherini, as obras mais conhecidas e regularmente interpretadas mundo afora. 

O real interesse, entretanto, está nos concertos. Dois são assinados pelo maior compositor português do século 18, José Antonio Carlos de Seixas (1704-1742); e dois por músicos ingleses: William Corbett (1680-1748) e Charles Avison (1709-1770).

Em 1728 e 1742, Corbett, compositor londrino e diretor do King’s Theatre, editou a coletânea de concertos “Le bizzarie universal” (Bizarrias universais). Bizarros são fatos ou coisas fora do comum. Ou “fora da caixinha”. Corbett juntou sua vivência italiana (morou por lá por onze anos, entre 1715 e 1726) ao musicalmente receptivo espírito inglês que, por exemplo, acolheu também naquelas décadas Händel e fez dele “seu” compositor nacional, cancelando-lhe até o trema original do nome. 

A antologia incluiu peças “alla spagnolla” e “alla portuguesa” (sic). A expressão – que dá título ao CD – foi retirada do título do concerto no. 7, para cravo e cordas, do próprio Corbett. Jalôto observa que “é difícil distinguir hoje aquilo que o compositor considerou ser genuinamente português, uma vez que o estilo – por certo agradável, seguro, pleno de vitalidade e inventividade -- não deixa de ser muito italiano. Talvez o ouvinte consiga encontrar na melancolia do andamento lento central uma vaga evocação da célebre nostalgia lusitana...” Forçando um pouco, dá pra imaginar lusitanices atávicas neste “Largo” claramente italianizado, característica corretamente acentuada por Staier, que brilha igualmente nas três sonatas bem conhecidas de Scarlatti (catálogo Kirkpatrick 8, 13 e 173). 

O fascínio por muitas de cerca de 500 sonatas de Scarlatti, pouco conhecidas no restante da Europa, era enorme na Inglaterra já no século 18, graças a Thomas Roseingrave, que se encontrou com o compositor na Itália e publicou em 1738 os Essercizi per gravicembalo do italiano dedicados a Dom João V. Foi nesta coletânea que Charles Avison mergulhou para construir seus concerti grossi (gênero barroco em que um pequeno grupo de instrumentos, o concertino, contrapõe-se ao ripieno, ou tutti orquestral). Andreas Staier interpreta o concerto no. 5 de Avison. Interessante mas discutível, porque o inglês retira das sonatas scarlattianas justamente o que elas têm de melhor, ou seja, os atrevimentos.

É irônico que o maior compositor português do século 18, Carlos Seixas, não tenha sido enviado à Itália como bolsista do governo português. Ele sucedeu o pai como organista na Catedral de Coimbra; em Lisboa, foi organista da Capela Real e Patriarcal. Absorveu a atmosfera italianizante da corte – e foi um dos primeiros a compor concertos para instrumentos de teclado. Basta ouvir seus concertos em lá maior e em sol menor na leitura de referência de Andreas Staier para perceber a centelha do gênio. Nos menos de 5 minutos e meio do concerto em lá maior, composto no início dos anos 1730, ele condensa e ousa, apesar de seguir o modelo de Vivaldi rápido-lento-rápido. É “encantador”, afirma Jalôto. É mesmo. Experimente ouvir o Allegro inicial, com 1’52 – puro fogo de artifício.

No Adagio de 1 minuto, a bela cantilena no cravo solista contrasta com a curtíssima Giga-Allegro de 2 minutos emulando a vibrante dança italiana. Já o concerto em sol menor é do finalzinho de sua vida, provavelmente de 1742. Mais ambicioso, seus três movimentos alcançam 15 minutos. Já no Allegro inicial o cravo tem direito a uma cadência solo virtuosística; outras se seguem ainda no Allegro. Virtuosismo, aliás, é a marca que determina a escrita para o cravo solista, aparentada com a de Scarlatti, influência dominante em Seixas. E aqui novamente Staier é soberano, ao lado dos músicos portugueses.

A cereja neste banquete de música ibérica é o Quintettino ‘Musica noturna dele strade di Madrid’, op. 30, no. 6, de Boccherini, em refinado arranjo para cravo e cordas de Staier. Segundo o compositor, “ele descreve a música que se ouve, à noite, nas ruas de Madri. Começa com o sino da Ave Maria e termina com uma retirada em estilo militar.” Atenção para o “minueto dos mendigos”, no qual “os violoncelistas devem usar suas unhas para fazer o instrumento soar como um violão”. Em carta ao editor Pleyel de Paris, a quem enviara um maço de manuscritos de obras, Boccherini escreve: “Esta peça é absolutamente descartável e até ridícula fora da Espanha, porque o público não vai entender o significado nem os músicos compreenderão como tocá-la corretamente. Por isso, estou mandando no lugar dela uma sinfonia”.

Música estupenda, que levou, em 1975, o compositor italiano Luciano Berio a realizar uma “reinvenção” da obra, desta vez para grande orquestra, superpondo várias versões do próprio Boccherini (para quarteto de cordas, quinteto de cordas, quinteto com piano e outra com violão). “Com alguns ajustes engraçados que tive de fazer”. Berio acrescentou só a percussão. Se você se encantar com a versão de Staier, não deixe de também ouvir a de Berio no YouTube.

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