Akos Stiller/The New York Times
Akos Stiller/The New York Times

Criador do cubo mágico narra em livro o processo de invenção do objeto

Quebra-cabeças intriga artistas, filósofos e programadores de computador, e ainda traz aprendizados ao seu criador quase 50 anos depois da invenção

Alexandra Alter, The New York Times

19 de setembro de 2020 | 16h00

A primeira pessoa a resolver um cubo mágico (ou cubo de Rubik) passou um mês tentando decifrá-lo. Foi o criador do quebra-cabeça, um despretensioso professor de arquitetura húngaro chamado Erno Rubik. Quando ele inventou o cubo, em 1974, não tinha certeza de que seria possível resolvê-lo. Mais tarde, os matemáticos calcularam que existem 43.252.003.274.489.856.000 maneiras de organizar os quadrados, mas apenas uma dessas combinações está correta.

Quando Rubik finalmente a encontrou, depois de semanas de frustração, ele foi dominado por “uma grande sensação de sucesso e alívio absoluto”. Olhando para trás, ele percebe que a nova geração de “speedcubers” – o chinês Yusheng Du estabeleceu o recorde mundial de 3,47 segundos em 2018 – talvez nem fique muito impressionada.

“Mas, não se esqueça”, escreve Rubik em seu novo livro, Cubed, “era uma coisa que ninguém nunca tinha feito antes”.

Nas quase cinco décadas que se passaram desde então, o cubo mágico se tornou um dos quebra-cabeças mais longevos, sedutores, enlouquecedores e absorventes já criados. Mais de 350 milhões de cubos foram vendidos no mundo todo; se você somar as imitações, o número será muito maior. 

Os cubos cativam programadores de computador, filósofos e artistas. Foram publicadas centenas de livros que prometem explicar estratégias de resolução rápida, analisam princípios de seu design ou exploram seu significado filosófico. O cubo passou a encarnar “muito mais do que um mero quebra-cabeça”, escreveu o cientista cognitivo Douglas Hofstadter em 1981. “É uma invenção mecânica engenhosa, um passatempo, uma ferramenta de aprendizagem, uma fonte de metáforas, uma inspiração”.

Mas, à medida que o cubo de Rubik conquistava o mundo, o homem por trás da invenção, avesso à publicidade, continuava sendo um mistério. Cubed, que sai esta semana, é um livro de memórias, um tratado intelectual e, sobretudo, uma história de amor sobre a relação do criador com a invenção que leva seu nome e com a comunidade global de cubers aficionados.

“Não quero escrever uma autobiografia, porque não estou interessado na minha vida, muito menos em compartilhar minha vida”, disse Rubik durante uma entrevista pelo Skype de sua casa em Budapeste. “O principal motivo pelo qual escrevi o livro foi tentar entender o que aconteceu e por que aconteceu. Qual é a verdadeira natureza do cubo?”.

Rubik, 76 anos, é animado e cheio de vida, gesticula com os óculos nas mãos e fica se remexendo na poltrona, passando as mãos pelos cabelos para que formem o tufo grisalho que lhe dá a aparência de um pássaro alerta. Ele tem uma fala formal e dá respostas longas, elaboradas e filosóficas, muitas vezes encerrando-as com a expressão “e assim por diante”, para sugerir o fim de um argumento. Estava na sua sala de estar, na casa que ele mesmo projetou, em frente a uma estante cheia de títulos de ficção científica – entre suas prediletas, obras de Isaac Asimov e do escritor polonês Stanislaw Lem.

Ele fala sobre o cubo como se fosse seu filho. “Eu e o cubo somos muitos próximos. Ele veio crescendo perto de mim, agora está na meia-idade, então sei muitas coisas a seu respeito”, disse ele.

“Tenho um bem aqui”, disse Rubik, pegando um cubo da mesa de centro e depois brincando distraidamente com ele pelo resto da nossa conversa.

Enquanto escrevia Cubed, sua maneira de compreender a própria invenção evoluiu, disse ele.

“Na tentativa de entender a natureza do cubo, acabei mudando de ideia”, disse Rubik. “O que realmente me interessava não era a natureza do cubo, mas a natureza das pessoas, a relação entre as pessoas e o cubo”.

Ler Cubed pode ser uma experiência estranha e desorientadora – análoga a pegar um de seus cubos e ficar retorcendo de um lado para o outro. Não há uma estrutura ou arco narrativo muito claro – um efeito que é proposital, disse Rubik. No começo, ele não queria que o livro tivesse capítulos, nem mesmo título.

“Tive várias ideias e pensei em compartilhar essa mistura de ideias que tenho em mente e deixar o leitor decidir quais delas são valiosas”, disse ele. “Não estou pegando ninguém pela mão para guiar essa jornada. Você pode começar pelo final ou pelo meio”.

Ou você pode começar pelo começo.

Erno Rubik nasceu em 13 de julho de 1944, cerca de um mês depois do Dia D, no porão de um hospital de Budapeste que havia se transformado em abrigo antiaéreo. Seu pai era um engenheiro que projetava planadores.

Quando criança, Rubik gostava de desenhar, pintar e esculpir. Ele estudou arquitetura na Universidade de Tecnologia de Budapeste e, depois, na Faculdade de Artes Aplicadas. Ficou obcecado por padrões geométricos. Como professor, começou a ministrar um curso chamado geometria descritiva, cuja ideia era ensinar os alunos a usar imagens bidimensionais para representar formas e problemas tridimensionais. Era um campo estranho e meio esotérico, mas o preparou para desenvolver o cubo.

Na primavera de 1974, quando tinha 29 anos, Rubik estava em seu quarto no apartamento de sua mãe, matutando. Ele descreve que seu quarto parecia o bolso de uma criança, com giz de cera, barbante, varetas, molas e pedaços de papel espalhados por todas as superfícies. O quarto também estava cheio de cubos que ele fazia em papel e madeira.

Um belo dia – “Não sei exatamente por quê”, escreve Rubik – ele tentou juntar oito cubos de modo que ficassem juntos mas também se movimentassem, trocando de lugar. Ele fez os cubos de madeira e, depois, abriu um furo nos cantos dos cubos para uni-los. O objeto logo se desfez.

Muitas tentativas depois, Rubik descobriu o design exclusivo que lhe permitiu construir algo paradoxal: um objeto sólido e estático que também é fluido. Depois de dar uma torção inicial em seu cubo de madeira, ele decidiu adicionar cor aos quadrados para deixar seu movimento visível. Pintou as superfícies dos quadrados de amarelo, azul, vermelho, laranja, verde e branco. Fez um giro, depois outro, depois outro, e continuou girando até se dar conta de que não seria capaz de restaurá-lo ao seu estado original.

Estava perdido num labirinto colorido e não tinha ideia de como percorrê-lo. “Não tinha caminho de volta”, escreve ele.

Depois de resolvê-lo, Rubik entrou com um pedido junto ao Escritório de Patentes da Hungria para um “brinquedo lógico tridimensional”. Um fabricante de jogos de xadrez e brinquedos de plástico fez 5 mil cópias. Em 1977, o “Buvös Kocka”, ou “Cubo Mágico”, estreou nas lojas de brinquedos húngaras. Dois anos depois, 300 mil cubos foram vendidos na Hungria.

Rubik conseguiu um contrato com uma empresa americana, a Ideal Toy, que queria 1 milhão de cubos para vender no exterior. Em 1980, a Ideal Toy trouxe Rubik a Nova York para uma feira de brinquedos. Ele não era o vendedor mais carismático – um professor de arquitetura tímido, com um domínio limitado da língua inglesa – mas a empresa precisava de alguém para mostrar que era possível solucionar o quebra-cabeça.

As vendas explodiram. Em três anos, a Ideal vendeu 100 milhões de Cubos de Rubik. Guias para resolver o cubo dispararam nas listas dos livros mais vendidos. “Em certo sentido, o cubo é muito, muito simples – ele só tem seis lados, seis cores”, disse Steve Patterson, filósofo e autor de Square One: The Foundations of Knowledge [algo como “A primeira casa do tabuleiro: os fundamentos do conhecimento”, em tradução livre], que escreveu sobre o cubo como uma corporificação de paradoxos. “Dentro de um período muito curto de tempo, torna-se incrivelmente complexo”.

Quase tão rápido quanto a mania começou, ela enguiçou. As falsificações baratas inundaram o mercado e a demanda diminuiu. Em 1986, o New York Times publicou um artigo desanimador, que mais parecia um obituário, chamando o cubo de “meteoro brilhante que se apagou”.

Rubik abriu seu próprio estúdio de design na Hungria e começou a trabalhar em novos projetos e reviver os abandonados, entre eles quebra-cabeças chamados Snake e Tangle.

Mas os relatos da morte do cubo foram prematuros. Na década de 1990, uma nova geração de entusiastas o descobriu. Foram estabelecidas novas marcas de speedcubing, assim como recordes para resolver o cubo debaixo d’água, pulando de paraquedas, fazendo malabarismo ou com os olhos vendados. A World Cube Association agora organiza mais de mil competições de speedcubing todos os anos.

O próprio Rubik nem se classificaria para os campeonatos. Ele consegue resolver o cubo em cerca de um minuto – uma bela melhora desde aquele primeiro e agonizante processo – mas não se interessa pela velocidade. “A solução elegante, a qualidade da solução, é muito mais importante do que o tempo cronometrado”, disse ele.

Hoje em dia, ele passa o tempo lendo ficção científica, jogando tênis de mesa, cuidando do jardim e dos seus cactos: “Eles têm flores maravilhosas e muita longevidade”. Rubik ainda não deu o cubo por encerrado e ainda reflete sobre suas possibilidades – não aprimoramentos no design, mas potenciais aplicações.

“Não estou fazendo isso porque quero ser campeão, nem porque espero encontrar novas descobertas ao brincar com ele. Ao mesmo tempo, procuro novos potenciais para as ideias básicas”, disse Rubik. “Vejo potenciais que ainda não são aproveitados. É isto que estou buscando”. / Tradução de Renato Prelorentzou. 

 

Tudo o que sabemos sobre:
cultura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.