Walter Craveiro/Flip
Walter Craveiro/Flip

Crítico Antonio Arnoni Prado estreia na ficção com memórias da infância em SP

'O Último Trem da Cantareira' faz um passeio nostálgico por uma versão esquecida do bairro do Tremembé

Matheus Lopes Quirino*, Especial para o Estado

18 de janeiro de 2020 | 16h00

Uma garotada espoleta se espevitava pelas ruas de terra do Tremembé, bairro da Zona Norte de São Paulo. Dessa turma, seu narrador é o único sobrevivente, sendo ele, também, o cancioneiro solitário a enveredar pelo caminho das Letras na Academia. Prestes a receber a última homenagem, depois de décadas lecionando, durante o maçante discurso que costura as festividades da aristocracia universitária, de sua cadeira o professor embarca guiado pelas memórias da meninice, neste Último Trem da Cantareira.

Primeiro livro de ficção do crítico e ensaísta Antonio Arnoni PradoO Último Trem da Cantareira faz um passeio nostálgico por este Tremembé esquecido. Como um fotógrafo a retratar com detalhes a pobre infância de uma turma de periferia dos anos 1950, Arnoni Prado imprime nos personagens de Frangão, Paulo Louco, Luiz Krem, Cabelo e Chico André riquezas que, com o tempo, tornaram-se exclusividade do passado. 

Como no domingo de 6 de fevereiro de 1955, quando o Corinthians empatou com o Palmeiras no Pacaembu e, naquele mata-mata, os garotos da rua disputavam a final do campeonato do bairro contra o time do colégio Santa Gema. Nas (duras) disputas do futebol de rua de periferia, a derrota de 3 a 4 para o time do Santa Gema se confundiu com a vitória do Corinthians. E o que geraria briga de futebol puxada pelo intempestivo Paulo Louco, virou comemoração. 

O narrador vai se afundando na beca preta, já sem sapatos, enquanto recebe a visita dos fantasmas de Paulo Louco e Krem, naquele, como definiu, sonho dourado de infância. Para além das partidas de futebol, ele não deixa o tempo apagar nem mesmo as desavenças, vividas nessa infância chão de terra. Naqueles tempos, a lei do mais forte escolhia o líder da trupe que, áspero como a terra batida, desafiava os meninos com certa violência, impondo virilidade, astúcia e, ao mesmo tempo, escalando o time de futebol (este era o Paulo Louco).

As relações de poder descritas a partir da infância são trazidas à baila a partir de cenas que correspondem ao imaginário popular, como quando, ainda menino, ouvia-se as partidas de futebol pelo rádio de pilha. Ou, mesmo no jogo, via-se uma organização horizontal, o time daquelas crianças que a vida sopra derrota quer golear, “Eu vibro até hoje. Não esqueço a imagem do Dado cortando aquela bola que cruzava na frente da nossa área O Paulo me entregou na medida: peguei um sem-pulo de primeira que o goleiro está procurando até agora…”, escreve o autor. 

O mundo dos meninos é simples, marcado por disputas e provas que escorregam, hoje, em instâncias do abuso e da humilhação. No entanto, nesse cenário em que joelho ralado e bullying não eram problemas, vê-se, entre os meninos, desabrochar virtudes essenciais para com o outro, como a piedade, a lealdade e a coragem.

Passam-se os anos. As ruas do Tremembé ganham asfalto, iluminação, os antigos comércios populares viram lojas cadenciadas e novos moradores chegam para morar naquele bairro que, aos poucos, perde as cadeiras em frente às casas, as partidas de bilhar do bar do seu Miranda, o Cine Ypê indo abaixo como tantos cinemas de rua de São Paulo. 

Até a locomotiva que carregava cerca de 2.000 pessoas por dia se viu falida e trocada por linhas de ônibus e ampliação de vias de asfalto. No Tremembé tudo mudou. 

“Sem o apito do trem, a Cantareira morria para os nossos sonhos, era como se o sol deixasse de brilhar no largo da estação, já coalhado de carros invadindo sem a menor cerimônia a pequena e a grande área, o círculo central e a marca do pênalti”, rememora, pesaroso, o já ancião professor em constante diálogo com a infância, quando as coisas pareciam ter algum sentido. 

Enfastiado dos salamaleques e ritos acadêmicos, o professor que narra as memórias de O Último Trem da Cantareira concordaria com o romancista Luiz Ruffato, que acredita que a literatura acaba dando conta, na maioria das vezes, de duas realidades, retratando ou a extrema pobreza, ou os sonhos e elucubrações de uma elite intelectual e suas idiossincrasias. Portanto, estariam esquecidas as histórias da classe média baixa. 

Arnoni Prado usa dessas suas reminiscências e traz ao leitor um pouco dessa realidade repleta de contrastes. Na mesma rua, pequenos burgueses, donos de comércio e trabalhadores autônomos conviviam com miseráveis, bêbados, mendigos em uma São Paulo, aos olhos do autor, quase idílica. Onde as crianças de diferentes realidades se misturavam nas brincadeiras de rua. 

Na história, Paulo Louco e Krem sofrem a dura vida de quem, às moscas, precisa lutar para levar comida para casa, enquanto o narrador, por determinação da mãe controladora, vai aos poucos se distanciando daquelas ruas do Tremembé. Entrando em contato com os livros e o centro da cidade, frequentando a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antônia, participando de congressos da UNE, frequentando livrarias, cinemas, nos anos de formação do intelecto. 

Embora o professor encontre seu lugar ao sol nos livros, na poesia (que em sua casa relegavam à ‘coisa de menino rico’), ao longo de sua trajetória, ele tem encontros inesperados com os meninos do Tremembé. Sem o frescor da infância, soterrada pelo asfalto da vida, a cena descrita pelo professor, entre esses dois mundos, o centro da cidade e a periferia, repete-se até hoje “Ah, que contraste com as ruas do Tremembé, tão escuras e silenciosas e sem qualquer encantamento!”. Em direção ao centro da cidade para as comemorações do IV Centenário de São Paulo, em 1954, completa o personagem: “Para nós, era quase uma viagem ao coração do futuro, como se o Tremembé da minha infância não coubesse mais naquele mundo que se transformava”. 

O ÚLTIMO TREM DA CANTAREIRA

AUTOR: ANTONIO ARNONI PRADO

EDITORA: 34

128 PÁGS., R$ 39

*MATHEUS LOPES QUIRINO É EDITOR DO SITE FRENTE & VERSOS

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