Crítico dedica quatro décadas de estudo a Toscanini e faz biografia definitiva

Crítico dedica quatro décadas de estudo a Toscanini e faz biografia definitiva

Maestro italiano iniciou carreira no Brasil e revolucionou a forma de se assistir a óperas

João Marcos Coelho*, Colaboração para o Estado

21 Outubro 2017 | 16h00

Quis o destino que o jovem violoncelista italiano de 19 anos Arturo Toscanini se lançasse para o mundo como maestro no Brasil, em 1885. Dali em diante, sua carreira foi meteórica. Reformou o Scala de Milão, que comandou entre 1896 (quando regeu a estreia mundial de La Bohème, de Puccini) e 1908; foi estrela máxima sucessivamente da Metropolitan Opera House de Nova York, onde dirigiu a estreia mundial de La Fanciulla del West, de Puccini, e comandou até 1915; da Filarmônica de Nova York entre 1928 e 1936; e, de 1937 em diante, de uma orquestra criada especialmente para ele pela rede NBC, a famosa Orquestra da NBC, primeira a transmitir seus concertos pelo rádio a todos os Estados Unidos. O maestro também reinou absoluto nos festivais de Salzburgo e Bayreuth, e deixou de frequentá-los por oposição ao nazismo e ao fascismo. Chamou Hitler de “maluco”, “teutônico criminoso”, e Mussolini de “canalha”. Em 1936, regeu o primeiro concerto da Orquestra da Palestina, formada por músicos judeus, embrião da Filarmônica de Israel. Suas gravações venderam mais de 20 milhões de discos. Hoje, a 160 anos de distância de seu nascimento e a 60 de sua morte, sua imagem ainda é poderosa a ponto de ainda gerar controvérsias e polêmicas.

Voltemos ao Teatro Pedro II, em 1885, na Rio de Janeiro imperial. A trupe apresentaria doze óperas diferentes em dois meses de turnê por São Paulo e Rio de Janeiro (em seguida se apresentaria também em Montevidéu e Buenos Aires). Mas os músicos não conseguiram se entender, na expressão de Arturo, com o maestro brasileiro contratado, o bom compositor Leopoldo Miguez (1850-1902). As récitas paulistas foram um desastre e todos se rebelaram contra Miguez no Rio de Janeiro. Na estreia em 30 de junho, Arturo foi literalmente pego às pressas, na cabine de uma das cantoras do elenco com a qual ele supostamente ensaiava, e atirado ao pódio para reger a Aida de Giuseppe Verdi. O restante desta história vem sendo cantado em prosa e verso: ele regeu de cor e foi ovacionado a ponto de assumir todo o restante da temporada. Regeu as doze óperas programadas de cor.

Nascia ali o mito Toscanini, dissecado nos mínimos detalhes pelo norte-americano Harvey Sachs, que dedicou os últimos 39 de seus 71 anos ao estudo e pesquisa da vida e obra do maestro. Sachs publicou sua primeira biografia em 1978. Já era obra de fôlego, com mais de 400 páginas. Nos anos 1990, vieram a público cerca de 500 cartas de Toscanini, material precioso que confirmou sua postura antifascista e hábitos de vida, sobretudo os sexuais. Sachs publicou em 2002 as cartas libidinosas que escreveu a suas amantes, muitas delas “divas” líricas que regeu em montagens memoráveis. 

Ele manteve às vezes mais de uma ao mesmo tempo, durante a vida inteira (ao menos enquanto subiu ao pódio; ele dizia, aliás, que pararia de reger quando não mais pudesse amar). Dariam um bom roteiro de filme pornô. Os arquivos do Scala, do Metropolitan e do governo fascista italiano exigiam uma nova biografia. É este monumental trabalho de quase mil páginas que foi recentemente lançado lá fora peça editora Liveright: Toscanini: Musician of Conscience.

Ainda bem que Sachs, autor de outros livros correlatos, como Music in Fascist Italy (1988), combina as duas qualidades que se exige de um bom biógrafo: tem paixão por seu objeto de estudo; não cai na vala do empilhamento de elogios nem o transforma num santo em vida. E escreve de modo fluente. 

De volta à Itália, Toscanini tocou violoncelo em 1887 na estreia de Otello de Verdi no Scala de Milão (“Mamma, ele é um gênio”, escreveu à mãe em Parma, depois de assistir a 3 meses de ensaios comandados pelo próprio compositor). Já regente, preparou e regeu óperas de Giuseppe Verdi (1813-1901) e Giacomo Puccini (1858-1924) tendo-os como parceiros de construção das interpretações que se tornaram um paradigma a todos os que o sucederam. Suas releituras de óperas de Verdi como Un Ballo in Maschera, convivendo com o compositor, foram responsáveis por consagrar em definitivo o nome do autor. Intimidade é isso. Em 1898, Puccini enviou uma carta a Toscanini implorando que ele fizesse a estreia mundial da Tosca: “Você precisa ser o primeiro a deflorá-la”, o que acabou não acontecendo.

O maestro imberbe notabilizou-se ainda pela incrível memória fotográfica: sempre regeu tudo de cor. E estamos falando de uma carreira de 68 anos no pódio e em cerca de 600 obras. Foi músico antenado com a criação de seu tempo. Promoveu a reforma do Scala na passagem dos séculos 19/20. Principal defensor e intérprete na Itália das óperas de Wagner, seu ídolo maior, sem desdouro de sua paixão infinita por Verdi (num postal enviado ao amigo violinista Enrico Polo, depois de assistir à Tetralogia em Bayreuth, escreveu: “Eis o túmulo do maior músico do século”). 

Além da estreia, Toscanini só retornou ao Brasil em 1940, com a Orquestra da NBC. Mas é espantoso como ele trabalhou tanto em Montevidéu e Buenos Aires. Comandou grandes turnês sucessivas nas temporadas de 1901 a 1906. E em 1912, já no Teatro Colón, regeu a orquestra em praticamente todas as óperas da temporada. A trupe inteira vinha da Itália e, sem escala nenhuma no Brasil, permanecia três meses em média entre Uruguai e Argentina. Em 1901, na primeira delas, Enrico Caruso, o mítico tenor italiano, estava no cast para 58 récitas de 15 óperas de 9 compositores. Isso só em Buenos Aires, onde, aliás, nasceu seu terceiro filho, Giorgio, em setembro. Na temporada seguinte, 50 récitas de 15 óperas, e 10 óperas no Teatro Solis de Montevidéu. 1904: 55 récitas de 15 óperas. Curiosidade: Toscanini levou, além da mulher Carla e do filho Walter, de seis anos, sua amante, a soprano Rosina Storchio – a mesma que um ano antes, numa das récitas da estreia de Madame Butterfly, de Puccini, tivera seu vestido rasgado por acidente e um espectador berrou “Butterfly está grávida de Toscanini” (ela de fato estava grávida do maestro). Em 1906 aconteceu a derradeira temporada portenha, com um fato trágico: seu filho Giorgio teve difteria e morreu em Buenos Aires aos 5 anos. Em 1908, os argentinos fizeram uma oferta mais alta do que o Met para tê-lo de novo (US$ 200 mil, uma imensa fortuna, na época). Mas Toscanini optou pelos EUA.

Imagem distorcida. Como definir o conceito de interpretação de Toscanini? Ele sempre deixou claro que queria a fidelidade absoluta à partitura. Um exemplo: em 1902, estreou no Scala a ópera Germania, de um compositor menor, Alberto Franchetti: Toscanini pediu-lhe que tocasse ao piano sua ópera inteira. “Vou fotografar seus tempos e suas dinâmicas. Depois não me venha com modificações nos ensaios”. Aliás, fedele sì ma non troppo. Em 1895, regeu o Crepúsculo dos Deuses de Wagner com partes expressivas cortadas “para a ópera ter uma duração semelhante às italianas” (Sachs).

Ele cresceu ouvindo óperas de Verdi com notas e cadenzas enfiadas na performance, transposições absurdas de tonalidade, cortes arbitrários e flutuações de tempo que chegam ao nível de graves distorções. Era o que Verdi descrevia como “o rondó das prima donnas”. As gambiarras tornaram-se hábito; o hábito virou costume; e o costume tradição, escreve Sachs. Outro costume absurdo: os músicos tinham de tocar uma música de balé depois do fim da récita. E as árias bisadas?

Toscanini resolveu acabar com a bagunça já no Teatro Regio de Turim, em 1895: baniu os bis; exigiu que as luzes da plateia fossem apagadas durante a performance; proibiu o ir-e-vir do público no meio da função. Foi o primeiro teatro a adotar estas normas, já vigentes fora da Itália. “Sinal emblemático da transformação da ópera de entretenimento em ‘Cultura’”, anota Sachs. No ano seguinte, quando assumiu o Scala, exigiu uma reforma do teatro para criar o fosso da orquestra. Proibiu as mulheres de usarem chapéus, porque vedavam a vista do palco de outros espectadores sentados na fila de trás; e manteve as luzes da plateia apagadas durante os espetáculos líricos e sinfônicos. Mas só na terceira temporada conseguiu abolir os famigerados balés que se seguiam às óperas. E só em 1907 conseguiu a proibição real do bis. 

Sachs afirma, corretamente, que Toscanini costuma ser julgado apenas pelas gravações que fez entre os 70 e os 80 anos. E é criticado por seu conservadorismo no repertório. Esquecem que na primeira metade de sua vida profissional foi um militante em favor dos maiores compositores de seu tempo: “Sua reputação mudou drasticamente nas três décadas seguintes à sua morte”. Nos anos 1960 os fanáticos e os detratores se digladiavam. Os primeiros incensavam qualquer gravação do mestre, mesmo as não autorizadas, muitas delas imperfeitas, medianas. Já os detratores, também baseados nessas gravações do fiml de sua carreira, recriminavam sua interpretação – sempre “rápida e rígida demais”. 

A chave para se entender Toscanini é levar em conta esta preciosa afirmação de Sachs: “Os primeiros 43 dos 68 anos de sua longa carreira profissional coincidiram com o pico de popularidade da ópera em seu país; os restantes 25 coincidiram com o tremendo florescimento da vida sinfônica nos EUA, seu último lar profissional”. 

*É jornalista e crítico musical. Coautor do livreto-DVD 'A Democracia das Madeiras' (Selo Sesc, 2016), entre outros 

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